Marcelinho recorre ao divã

A imagem já está se tornando comum. Marcelinho corre cabriolando para comemorar mais um gol. Ao fundo, o balanço das arquibancadas. De concreto, poderia se dizer que um homem muito baixinho, de pés pequenos e aparência infantil faz milhões de pessoas vibrarem com um simples toque na bola. E, aos 29 anos, ele é quase um menino...Mas não são só os gestos pueris que prevalecem no seu comportamento. A explosão marginal da juventude é algo que também se perpetua no âmago do maior ídolo corintiano e ele não consegue se desvencilhar.O jogo contra o Botafogo, quando fez dois gols e ajudou o Corinthians a vencer por 3 a 0, foi apenas mais uma página de sua história de idas e vindas. Três dias antes, contra o Atlético-PR, pela Copa do Brasil, ele havia sido novamente expulso após agredir covardemente um adversário. E vieram as velhas afirmações de que são falsas as juras de Marcelinho quando ele garante ter amadurecido. Muitos se perguntam se as promessas não passam de hipocrisia de alguém que necessita da mídia para sobreviver.Esta seria a última chance de Marcelinho finalmente mudar sua imagem? Talvez sim, e por isso ele abriu mão de muita coisa que vinha fazendo e dizendo. O discurso de religiosidade já não mais será ouvido em suas declarações pós-jogos. Ele deixou claro que não mais irá recorrer publicamente aos agradecimentos a Jesus."Para mim agora futebol é uma coisa, a religião outra. Ser evangélico é algo que vou guardar para mim, faz parte da minha intimidade", revelou. E sua vida está ganhando uma nova vertente, além da espiritualidade. O jogador recorreu à psicanálise para resolver o que ele chama de "um minuto de descontrole", que vem se arrastando em sua carreira.Hoje pela manhã, participou de um programa de TV e fez brincadeirinhas. "Não preciso de maquiagens." À tarde, ele iniciou tratamento com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg.O equilíbrio emocional tem sido a principal prioridade do jogador. "Não adianta mais ficar falando. O importante agora é agir." Uma de suas preocupações também é de não assustar seu filho Lucas, de 7 anos.Em primeiro plano, ele desconversa sobre a influência que todas essas emoções intensas podem trazer ao menino. "O Lucas é pequeno, não entende ainda o que acontece". Mas depois admite que tenta passar ao garoto, sempre presente nas partidas do pai, que sua imagem heróica faz parte de um mundo ilusório e efêmero. "Não quero que ele me veja como um herói. Sou uma pessoa comum, com suas falhas e virtudes", destacou.Lucas, por sua vez, parece assimilar tudo isto com uma maturidade que talvez seu próprio pai ainda não tenha atingido. Vai aos jogos acompanhado por amigos da mesma idade. Os meninos gritam o nome de jogador por jogador antes das partidas, acompanhando o coro da torcida. O curioso, no entanto, é que quando chega a vez do tradicional "Uh Marcelinho!", enquanto os amigos prosseguem entusiasmados, Lucas se cala, fica compenetrado, fazendo muito mais o papel do filho apreensivo do que o de um torcedor fanático.Muitas incertezas rondam a personalidade do jogador. Mas na mente, reside uma única verdade: o futebol é simples. E é isto que o torna um ser diferenciado nos gramados. "Nascemos com um dom e devemos desenvolvê-lo da melhor forma dentro de nós." O restante da vida é complexo, típico da condição humana que nem o mito Marcelinho consegue direito entender.

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