Divulgação/EFE
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Marco Polo del Nero abriu offshore milionária enquanto comandava CBF, aponta Pandora Papers

Um dos maiores vazamentos de documentos financeiros da história revelou que cartola banido do futebol pela Fifa conduziu abertura de empresa de US$ 10 milhões em 'paraíso fiscal' no nome dos filhos; procedimento não é ilegal desde que informado na Receita

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 16h00

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marco Polo del Nero, está entre as personalidades envolvidas no Pandora Papers, um dos maiores vazamentos de documentos financeiros da história. A investigação realizada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelou que, em 2014, o criminalista conduziu a abertura de uma offshore milionária nas Ilhas Virgens Britânicas.

Offshore é o nome que se dá às empresas ou contas bancárias abertas nos chamados 'paraísos fiscais', locais com menor tributação, de maneira lícita. No entanto, muitas vezes esses negócios se tornam ilegais quando seus donos escondem a origem do dinheiro da Receita.

A Finview Investments Limited, empresa formalmente criada em outubro daquele ano, estava no nome dos dois filhos do ex-mandatário da CBF: Marco Polo del Nero Filho, sócio do pai em um escritório de advocacia, e Marcus Vinicius del Nero, publicitário e bacharel em direito. 

O capital da Finview era dividido em 50 mil ações de US$ 200, totalizando US$ 10 milhões (R$ 54 milhões na cotação atual). Del Nero Filho detinha a maioria das ações (49,5 mil), enquanto ao irmão restaram as outras 500. Uma semana depois da criação da companhia, nasceu a Finview Real Estate, negócio voltado ao investimento imobiliário em Orlando, no estado americano da Flórida.

A CPI do Futebol, iniciada em 2015 e que se encerrou no fim de 2016 sem indiciar nenhum investigado, descobriu que no começo de 2014, Del Nero, Ricardo Teixeira e José Maria Marin estiveram juntos em um voo no jatinho da CBF com destino a Orlando, nos EUA. Dois anos antes, na Operação Durkheim, a Polícia Federal apreendeu e-mails de Del Nero pedindo para o filho Marco Polo entrar em contato com uma gerente de banco em Miami que poderia opinar sobre a possibilidade de montar um negócio na região. 

Quem auxiliou o clã Del Nero na abertura da empresa foi o escritório de advocacia panamenho Alcogal, conhecido por criar e gerir offshores na América Central e Caribe. A possibilidade da empresa ser usada para lavagem de dinheiro preocupou a Alcogal, que manteve relações com a família mesmo após constatar um risco médio em uma avaliação interna.

No entanto, a situação mudou quando, em 2015, veio à tona o 'Fifagate', escândalo de corrupção envolvendo funcionários e associados da principal entidade do futebol. Com ajuda do Ministério Público Federal dos Estados Unidos, a polícia suíça e o FBI prenderam vários dirigentes durante o congresso anual da Fifa naquele ano. Del Nero conseguiu escapar e voltou a São Paulo, mas nunca mais saiu do País por medo de ser detido e extratidado para os Estados Unidos. Por lá, ele, Marin e Teixeira foram indiciados por crimes como fraude, lavagem de dinheiro e extorsão. Apenas Marin foi preso e condenado.  

Após o caso, a Alcogal deixou de administrar a offshore da família Del Nero nas Ilhas Virgens e informou na semana seguinte a existência da Finview Investments à Agência de Investigação Financeira americana. A offshore foi encerrada pelos filhos de Del Nero em agosto de 2015. Já a Finview de Orlando parou as atividades apenas em setembro do ano passado. Os documentos obtidos pelo ICIJ não revelam o paradeiro dos US$ 10 milhões investidos pela família do ex-presidente da CBF. 

Após ser banido definitivamente do futebol pela Fifa em abril de 2018, Del Nero deu lugar a Rogério Caboclo, na época seu aliado. Apesar disso, ele continua atuando nos bastidores da entidade e teria sido um dos responsáveis pela retirada de Caboclo, suspenso até 2023 por conta de assédio sexual e moral praticado contra uma funcionária. O próprio Caboclo acusa seu padrinho político de querer derrubá-lo da entidade.

No total, o consórcio de jornalistas e veículos de imprensa envolvidos na Pandora Papers reuniu 11,9 milhões de documentos. Catorze escritórios especializados na abertura de offshores em paraísos fiscais colaboraram para a obtenção das informações, a maioria vinda das Ilhas Virgens Britânicas. 

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