Daniel Teixeira/ Estadão
Severino Bianchi é mascote do São Paulo há 14 anos Daniel Teixeira/ Estadão

MASCOTES PAULISTAS SOFREM E SE DIVERTEM NOS ESTÁDIOS

Contratados para serem os personagens símbolos dos clubes não têm vida fácil

Rafael Pezzo, O Estado de S. Paulo

05 de setembro de 2015 | 17h00

Enquanto os jogadores se preparam nos vestiários, quem aquece a torcida nos estádios é uma figura engraçada. No Morumbi, há o próprio “São Paulo” dando voltas com um quadriciclo; os Periquitos fazem embaixadinhas e cumprimentam o público nas arquibancadas do Allianz Parque; e na Vila Belmiro, Baleinha e Baleião pulam e fazem cambalhotas para os santistas. A Arena Corinthians é o único local onde não há um boneco passeando pelo campo. 

“Eu me transformo quando visto a cabeça do boneco. As vezes o dia está difícil, penso ‘hoje não dá, não vou para o jogo’, então me troco e viro outra pessoa. Começo a dançar, acenar para a torcida, é muito especial”, conta Severino Bianchi, assistente no marketing no clube e é a mascote do São Paulo há 14 anos. 

Ex-motoboy, Severino trabalha no tricolor desde 1987. Em 2001, participava de brincadeiras com sócios-torcedores durante as partidas. “Eu fazia palhaçadas no meio de campo, ia chutar a bola e deixava o sapato voar, todo mundo se divertia. Aí me disseram, ‘Severo, fizemos uma coisa que é a sua cara: um boneco do São Paulo’. Aceitei na hora. Vesti e enlouqueci.”

Mas se engana quem pensa que a vida de mascote é fácil. Na final da Copa Sul-Americana de 2012, contra o Tigre, Severino teve a cabeça do boneco roubada por um torcedor que invadiu o campo. E num jogo contra o Flamengo pela Copa São Paulo de Juniores de 2011, chegou a ser preso. 

“Os torcedores estavam brigando na arquibancada e jogaram uma bandeira no campo. Peguei do chão, comecei a agitar e o policial achou ruim. Me agarrou por trás e pediu para tirar a cabeça. Eu falei que não podia tirar, mas ele insistiu e levantei. Chegando na delegacia, mandou esperar numa sala de flamenguistas. Me recusei a entrar e saí andando. O policial então correu atrás de mim e pediu o documento. Virei e falei: ‘E boneco tem documento?’”

Severino se prepara para os jogos do São Paulo no vestiário 3 do Morumbi, onde guarda o macacão que cobre o corpo e as seis cabeças, uma de fibra e outras cinco de borracha. Se a fantasia são-paulina é simples, a Baleinha e o Baleião, do Santos, são infláveis e dependem de bateria de 4kg para funcionarem por uma hora. Pelo tempo limitado, a dupla santista só aparece por 45 minutos nos jogos, 30 antes do apito inicial e nos 15 do intervalo. Quatro pessoas fazem o revezamento entre partidas, eventos oficiais do clube e até festas de aniversário. 

Nycole Vir é Baleinha desde o começo do ano e Jean Pereira veste o Baleião há mais de um ano. Ambos tiveram que lidar com o esvaziamento da roupa logo no dia da estreia. “Comecei contra o Red Bull e minha bateria acabou enquanto esperava os jogadores. Fiquei nervosa”, lembra Nycole. 

O primeiro jogo de Jean foi no retorno de Robinho (derrota por 1 a 0 para o Corinthians), em 2014. Segundo o Baleião, “a maior dificuldade em ser mascote é se locomover dentro da roupa, principalmente no verão. Quando o sol está forte, esquenta bastante”. 

Apesar dos perrengues, nenhum dos três reclama do trabalho. “Quando nos aproximamos do vidro na área dos camarotes, as pessoas correm para tirar fotos conosco. As crianças vão à loucura, acenam, é um carinho bem legal”, relata Nycole.

Luciano Kleiman, diretor adjunto de marketing do Palmeiras, diz que “a mascote é a representação dos valores, da história, tradição do clube”. O alviverde conta com uma dupla de bonecos. Uma funcionária do clube se veste de Periquito e anda pela arena cumprimentando os torcedores. Já quem faz embaixadinhas é um homem contratado de uma agência. Kleiman explica que “o Periquito tem muita aceitação por parte das crianças. O porco também foi adotado como símbolo do clube, mas ainda não definimos se vamos usá-lo.”

A mascote também sofre quando o time está em crise. “Estava acenando para a torcida no jogo contra o Ceará e tacaram um chinelo em mim. Peguei do chão e fiquei encarando quem atirou. E não foi que o torcedor lançou o outro também?”, disse Severino, mascote do São Paulo.


Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.