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Massacre

Críticas a Fernando Diniz no comando do São Paulo são muito exageradas

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h00

Nas últimas semanas assisti a um dos maiores massacres públicos contra um personagem do futebol. Trata-se da verdadeira campanha contra a permanência de Fernando Diniz no São Paulo. A questão era colocada diariamente e os mais drásticos não hesitavam em prever, quase pedir, a saída do treinador, para o bem do tricolor. Não vou reproduzir o que se disse porque, de tão repetido, qualquer um que segue futebol sabe.

Todos os males do São Paulo pareciam vir do técnico. O elenco é ótimo, os jogadores muito bons, a camisa, a mais gloriosa do futebol brasileiro. Tudo isso são no máximo meias verdades. Mas serenidade não é qualidade disponível no Brasil de hoje. Não sei se é a pandemia, certamente há outros fatores, o problema é que nunca tinha visto os nervos tão à flor da pele, as opiniões tão radicalizadas, a fúria tão espalhada e difundida como nos dias de hoje. Não se critica, se massacra. Não se analisa, se condena. O veredicto é sempre o mais feroz possível.

Nesse assunto, alguns pontos me chamaram a atenção. O primeiro é uma eventual tomada de posição como torcedor, ou à maneira de torcedor. Torcedor é parcial, não ouve argumentos, não é muito racional e, sobretudo depois de derrotas, fala o que lhe vem à cabeça, frequentemente besteiras. Eu sou assim, sou um torcedor. Depois, espero. Como a maioria dos torcedores, me acalmo um pouco, as coisas devagar se acomodam por si mesmas e volto a raciocinar.

O que o torcedor pensa no momento de explosão não pode ser tomado como verdade incontestável. Por exemplo, a torcida do São Paulo tem sua visão do clube, muito justa para um torcedor, de que é “inaceitável” o São Paulo estar sem títulos há dez anos, mais ou menos O torcedor não só tem o direito, mas deve pensar assim, exatamente porque é torcedor.

À luz de uma análise até superficial, entretanto, o fenômeno não é nada grave. O São Paulo está sujeito a crises, ascensão e decadência, vitórias e derrotas como qualquer um dos grandes clubes do Brasil e do mundo. Portanto, esse coro do qual muita, mas muita gente participa, da “intolerável” falta de títulos, é um protesto de torcedor, que deveria morrer entre eles.

Não é assim. A proclamada falta de títulos do São Paulo passou a ser uma preocupação da crítica esportiva muito acima do desejável. Nenhum grande de São Paulo, ou do Brasil, jamais foi causa de debate constante pela falta de títulos ou derrotas inesperadas. Ocorre que isso prejudica o próprio clube. Essa pressão, essa obrigação para com as gerações anteriores, essa tentativa de forçar um jogador a jogar o que não pode, acaba levando a mais derrotas.

Ninguém trabalha melhor sob ameaças. Ninguém se desenvolve ameaçado de execução pública se não render. É isso que metaforicamente está ocorrendo. Muita gente está se excedendo nessa pressão. Até mesmo ilustres veteranos, se esquecendo que foram, eles mesmos, submetidos, em outros tempos, aos maus tratos da torcida, se prontificam a espezinhar os atuais.

Deveria haver mais respeito com esses jogadores. São jogadores que a situação financeira do clube e a incompetência dos dirigentes em contratar trouxeram para o time. Ninguém pediu para jogar. Alguns, no entusiasmo, foram alçados a craques salvadores quando é visível que seus melhores momentos no futebol já passaram. De outra forma estariam ainda na Europa. Outros são garotos que não podem ser julgados pelos dez anos anteriores.

O São Paulo precisa começar a ser tratado como um grande clube brasileiro, com dirigentes brasileiros como todos os outros, vítima e ator nas incertezas de ser brasileiro. Nada mais do que isso. Há poucos dias o time reagiu e ganhou bem do Atlético Goianiense. Só espero que não se pense que foi devido à pressão, ameaças e insultos.

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