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Jogadores fazem um minuto de silêncio antes de cada partida Divulgação|Palmeiras

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Massagista do Fla, 1º técnico de Richarlison e vice do Grêmio: as vítimas do coronavírus no futebol

Nos últimos meses, covid-19 vitimou personalidades importantes do esporte brasileiro

Ricardo Magatti , especial para o Estadão

Atualizado

Jogadores fazem um minuto de silêncio antes de cada partida Divulgação|Palmeiras

Segundo país do mundo com mais casos registrados de coronavírus, o Brasil atingiu recentemente a marca de 100 mil mortes pela doença. Entre as vítimas fatais da covid-19 estão personalidades do esporte. Alguns relativamente novos, outros nem tanto, que lutaram contra a doença, mas não resistiram.

O Estadão conta a seguir as histórias de Jorge Luiz Domingos, o Jorginho, massagista que dedicou 40 anos de sua vida ao Flamengo, Marco Bobsin, ex-vice-presidente do Grêmio, Sebastião José da Silva, o Tião Borboleta, primeiro técnico do atacante Richarlison, e Rodrigo Rodrigues, músico e jornalista com passagem por vários veículos de comunicação. Cada um teve uma trajetória diferente, mas todos morreram em decorrência de complicações causadas pela covid-19.

Jorge Luiz Domingos, o Jorginho: Pentacampeão com a seleção, dedicou 40 anos ao Flamengo

Há poucas pessoas que trabalham no meio do futebol por 40 anos. Jorge Luiz Domingos, o Jorginho, foi um deles. Ele foi massagista do Flamengo de 1980 até 2020. Neste período, participou de várias conquistas e fez amizade com craques do presente e passado, não só no clube rubro-negro, mas também na seleção brasileira, com a qual foi pentacampeão em 2002 na Copa da Coreia do Sul e Japão.

"Ele sempre se deu bem com todos os atletas. Dos jogadores antigos, era muito próximo de Andrade, Zico, Nunes, Leandro, Adílio, Júnior, Rivaldo, Cafu e Ronaldinho Gaúcho", conta a esposa de Jorginho, Heliana Viana Domingos, casada com ele, coincidentemente, também por quatro décadas. Segunda ela, do atual elenco rubro-negro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabriel tinham muita amizade com o massagista.

Funcionário mais antigo do departamento de futebol do Flamengo, Jorginho gostava de samba e pagode, não dispensava uma cerveja gelada e era "noveleiro". O sorriso largo no rosto e a alegria contagiavam quem por perto dele estava. "Um homem de caráter, trabalhador, família, alto astral, muito amigo e conselheiro. Para ele não tinha tempo ruim. Confesso que nunca o vi estressado. Com ele, era só alegria", relata Heliana.

O massagista era um dono de um fusca e não perdeu a humildade no convívio com várias estrelas do futebol. Tinha alguns imóveis alugados que o ajudavam a complementar a renda mensal. "Graças ao Flamengo, Jorge teve muitas oportunidades, mas isso nunca o fez perder a sua humildade. Esse era o seu grande diferencial", destaca a esposa, que tem duas filhas fora do casamento, Rosane e Roseli, mas que Jorginho tratava com se fossem suas.

Jorginho ficou internado no CTI do hospital da Ilha do Governador, no Rio, em estado grave. Sofreu uma parada cardíaca após complicações da covid-19 e morreu no dia 4 de maio, aos 68 anos. Na extensa galeria de troféus do massagista, além do penta em 2002, também estão um Mundial de Clubes (1981), duas Libertadores (1981 e 2019), três edições da Copa do Brasil (1990, 2006 e 2013) e cinco títulos brasileiros (1982, 1983, 1987, 1992, 2009 e 2019), entre vários outros.

Sebastião José da Silva, o Tião Borboleta: Fundamental para o sucesso de Richarlison

Atacante do Everton e da seleção brasileira, Richarlison deve parte de seu sucesso a Sebastião José da Silva, o Tião Borboleta, primeiro treinador do então menino de 10 anos, na cidade de Nova Venécia-ES. "Foi ele que me passou algumas dicas de posicionamento e de finalização que eu uso no meu jogo até hoje", diz ao Estadão o atacante, que ganhou de Tião o apelido de "lamparina". "Ele dizia que eu tinha cabeça de um jogador bem mais velho, que eu clareava as jogadas para os mais velhos", explica.

Morando na Inglaterra, o atacante perdeu um pouco o contato com o treinador. O último encontro foi em julho do ano passado. Na ocasião, Richarlison convidou Tião Borboleta para dar o pontapé inicial de um jogo beneficente que promoveu em sua cidade natal. "Fico feliz porque consegui o homenagear em vida, mostrar um pouco da minha gratidão por ele".

Tião Borboleta foi mais que um técnico para Richarlison e outros garotos de Nova Venécia. O treinador era tido como um pai para várias crianças. "Lembro quando a gente ia treinar lá no campo de areia e tinha uma sorveteria logo em frente. E o Tião sempre liberava um geladinho para cada atleta. Também sempre levava uma caixa de pão com salame e a gente se reunia na frente do ônibus para esperar o Tião chegar", rememora o atacante. Tião Borboleta morreu no dia 3 de agosto, aos 71 anos.

Marco Bonsin, vice-presidente do Grêmio: Braço direito do presidente, passou mais de cinco décadas no clube

Marco Bobsin teve quase toda a sua vida atrelada ao Grêmio. Sócio do time gaúcho por cinco décadas, deixou as arquibancadas e rumou para a política do clube em 1982. Integrou vários movimentos políticos e participou ativamente das reformas dentro do Conselho, até chegar à chefia de gabinete da presidência e depois à vice-presidência, cargo que ocupou de dezembro de 2019 até o dia da sua morte.

Diagnosticado com coronavírus, Marcão, como era conhecido, ficou internado por mais de três meses, de março a junho. Passou 100 dias na Unidade de Terapia Intensiva do hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, antes de receber alta. Quando saiu, foi saudado por alguns amigos, que o receberam na porta da unidade hospitalar. No entanto, voltou a ser internado com complicações decorrentes da doença e morreu aos 68 anos, no dia 31 de julho, com infecção abdominal.

Um dos amigos a saudar o dirigente logo que recebeu a liberação para ir para casa foi o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Junior, que considera Marcão um "amigo leal".

"O que fica é a amizade leal, profunda, relacionamento de igualdade total, que foi muito além do clube", descreve o mandatário gremista, que também contraiu o vírus, mas apresentou sintomas leves. "Vou levar uma imagem de lealdade, de fraterna convivência e principalmente de uma pessoa extremamente franca e correta", acrescenta sobre o amigo de mais de uma década. Marcão era casado com Graça Bosin e deixou dois filhos, Mariane e Diego.

Rodrigo Rodrigues: Unanimidade e agregador, deixou uma legião de amigos

Rodrigo Rodrigues conseguiu algo raro: fez com que o SporTV, do Grupo Globo, e a ESPN, da Disney, colocassem no ar uma transmissão simultânea para se despedir do apresentador, que morreu no dia 28 de julho, aos 45 anos, por complicações geradas pelo coronavírus. "Ele viveu muito bem, apesar de ter vivido só até os 45. Bem no sentido de tratar a vida com leveza. Sem amarras, parecia não se aborrecer com nada. Zelava muito o bom ambiente com as pessoas", define o narrador Gustavo Villani.

Irreverente, espontâneo e bem-humorado, o jornalista colecionou amizades em todas as emissoras em que trabalhou: Rede Vida, SBT, Bandeirantes, TV Cultura, Band, TV Gazeta, ESPN, Esporte Interativo e SporTV, além da redação da Placar. "Era muito agregador, muito gente boa, amigo demais. Eu não conheço ninguém que era inimigo dele", pontua o comentarista Paulo Vinicius Coelho, colega de RR na ESPN e SporTV. O apresentador, que também escreveu livros e foi proprietário de um restaurante em São Paulo, não fumava e era abstêmio, mas vivia na boemia. Nos bares, era sempre o último a ir embora. "Adorava sair com os amigos. Gostava de gente", diz PVC.

Rodrigo Rodrigues não começou no jornalismo esportivo. Só se aventurou no meio em 2011, ao entrar na ESPN Brasil. Antes disso, sua trajetória na profissão teve início na área cultural. Ele era músico, líder da banda "The Soundtrackers", e diferentemente da maioria dos jornalistas que trabalham com esportes, não manjava de esquemas táticos. Pelo contrário. Falava pouco sobre futebol, mas cativava a audiência com bom humor e um estilo único. "Ele juntava futebol, música, cinema tudo num liquidificador e saia uma vitamina bacana", resume PVC.

"Ele gostava de futebol, mas era, sobretudo, um comunicador nato. Não era um 'heavy user' do futebol", ressalta Villani, que entrou junto com Rodrigo na ESPN para se aventurarem em experiências novas. Na época, o narrador, hoje no SporTV, deixava o rádio para migrar para a TV, e o apresentador largava a cultura pop para entrar no mundo esportivo. "Era um cara muito fácil de trato, bonachão, sempre divertido, nos tornamos amigos muito rápido. Ensinou a mim muito sobre o trato com a câmera, naturalidade, improviso. Crescemos juntos".

André Karnikowski, ex-presidente e médico do Brusque: Trabalhou por quase metade de sua vida no clube

André Karnikowski, ex-presidente e diretor do departamento médico do Brusque Futebol Clube, equipe de Santa Catarina que disputa a Série C do Campeonato Brasileiro, morreu depois de dedicar quase metade de sua vida ao clube. Ele tinha 54 anos e passou 23 deles no time.

"Perdemos um grande homem. Foi presidente, diretor médico, trabalhou por 23 anos no clube. Uma pessoa que todos aqui aprenderam a gostar pelo seu trabalho incansável, pelo pai de família que foi, pelo profissional excepcional, o amigo fiel. Só temos boas lembranças. Deixa uma lacuna que dificilmente será ocupada", salienta Danilo Rezini, atual presidente do Brusque.

Karnikowski ficou internado por 20 dias no Hospital e Maternidade Imigrantes, em Brusque, após apresentar sintomas da doença e logo depois de seu teste para o novo coronavírus apresentar resultado positivo. Nos primeiros dias de tratamento, seu quadro teve uma piora acentuada e o ex-presidente do time catarinense precisou ser entubado por apresentar sérias complicações na respiração. Ele morreu no dia 13 de agosto.

"Vai deixar uma saudade imensa por tudo o que ele significa, a participação no clube, a maneira como vivenciava o Brusque. Foi uma morte prematura e toda diretoria, comissão técnica, atletas, funcionários, torcida ficaram e ainda estamos extremamente consternados", completa Rezini.

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Prejudicados pela pandemia, atletas olímpicos buscam refúgio fora do Brasil para treinar

Coronavírus afetou diretamente a preparação dos atletas, que encontraram alternativas para minimizar os danos

Ricardo Magatti, especial para o Estadão

26 de agosto de 2020 | 15h00

A eclosão da pandemia do coronavírus afetou diretamente a rotina de todos os atletas, incluindo os que se preparam para os Jogos Olímpicos de Tóquio, adiados para 2021. Com os torneios paralisados e os centros de treinamento fechados durante meses, os atletas tiveram que se reinventar e mudaram sua programação de treinos para que não ficassem tão prejudicados.

Os competidores de elite precisaram refazer agenda e alterar viagens diante das mudanças no calendário internacional. Vários treinaram em casa, com suporte de seus clubes e treinadores e usaram a criatividade para minimizar os problemas, adaptando as suas rotinas à quarentena.

Foi isso o que fizeram Hugo Calderano, que levou a mesa de sua modalidade esportiva, o tênis de mesa, para dentro de seu apartamento na pequena cidade alemã de Ochsenhausen, de cerca de 8 mil habitantes, e Nathalie Moellhausen, da esgrima. Ela, que foi campeã mundial no ano passado, em Budapeste, na Hungria, mora em Paris e treinou em sua residência antes de poder retomar as atividades presenciais. Darlan Romani, atual recordista sul-americano no arremesso de peso e candidato a um lugar no pódio nos Jogos de Tóquio chegou a montar uma academia na garagem de sua casa, em Bragança Paulista.

Os clubes e centros de treinamento estão sendo abertos aos poucos no Brasil. No final de julho, na semana em que seriam realizados os Jogos de Tóquio, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) reabriu o Centro de Treinamento Time Brasil, no Parque Olímpico da Barra, no Rio, e iniciou a retomada gradual das atividades no local, seguindo protocolos de prevenção à covid-19.

O Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo (CNDA), localizado em Bragança Paulista, também foi reaberto no início de agosto, após idas e vindas, e já recebendo atletas, mas persiste o temor com o recrudescimento dos casos de coronavírus na região. Na primeira semana após a reabertura, somente 28 pessoas puderam usar as instalações.

No entanto, como os números de casos de coronavírus e mortes pela doença ainda não atingiram uma queda considerável no País, a solução foi enviar atletas para fora. De olho na Olimpíada de Tóquio, o COB criou a Missão Europa e vai enviar, ao todo, 207 atletas de 15 diferentes modalidades para Portugal, onde eles vão se preparar para o megaevento. O programa, que custará cerca de R$ 15 milhões aos cofres da entidade, teve início em julho e será estendido até dezembro.

Fizeram parte da primeira leva, em julho, as equipes de boxe, ginástica, judô, nado artístico e natação. Na Europa, os competidores terão mais segurança e tranquilidade para a preparação, visto que a situação epidemiológica lá está melhor e a doença já está controlada em boa parte dos países europeus. Antes de viajar, toda a delegação passa por exames de coronavírus. Após a chegada em solo lusitano, mais exames são feitos e todos permanecem isolados até a divulgação dos resultados e liberação para as atividades.

A seleção brasileira feminina de tênis de mesa também faz parte do Missão Europa e viajou nesta sexta-feira, 21, para Portugal, onde estará reunida por mais de um mês. A grande preocupação da comissão técnica, neste primeiro momento, é evitar um desgaste excessivo, com atletas se lesionando após cinco meses de treinos improvisados.

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Temos que ser muito inteligentes, fazendo treinos passo a passo, para depois chegarmos ao ritmo normal. Para mim, é a maior preocupação
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Hugo Hoyama, técnico do tênis de mesa

"Veio numa hora muito importante, nenhuma atleta aguentava mais ficar em casa e ficar só fazendo exercícios. Teremos oportunidade de treinar no ginásio por quase 35 dias. Temos que ser muito inteligentes, fazendo treinos passo a passo, para depois chegarmos ao ritmo normal. Para mim, é a maior preocupação. É conversar bastante, as atletas precisam sinalizar quando estiverem sentido alguma coisa. Tomara que possamos aproveitar bem esse período", analisou o técnico Hugo Hoyama. O ex-jogador de tênis de mesa participou de quatro edições dos Jogos Olímpicos.

Há outros competidores retomando a rotina presencial que moram fora do Brasil, como Thiago Braz e Núbia Soares, do atletismo, Bruno Fratus, da natação, e Tati Weston Webb, do surfe.

Incerteza

Embora boa parte dos atletas esteja conseguindo treinar, permanece a preocupação com o calendário, espremido em razão da covid-19. A seleção brasileira feminina de vôlei, por exemplo, vive sob muita incerteza pois ainda aguarda a definição da data oficial da Superliga Feminina. Quanto mais tarde o torneio for iniciado, o que poderia ser um auxílio para evitar a propagação do novo coronavírus, mais curta será a preparação da seleção para a Olimpíada em 21.

A pandemia atingiu diretamente a equipe nacional. Torneios foram cancelados - as disputas entre as seleções costumam ocorrer de abril a outubro - e atletas ficaram parados por meses, com as temporadas dos clubes sendo encurtadas.

O técnico José Roberto Guimarães planejava reunir as jogadoras para atividades no CT da CBV, em Saquarema, mas os planos tiveram de ser adiados. O treinador divide as atenções entre a seleção e o São Paulo/Barueri, do qual também é técnico. Ele busca investidores para o time, mas ao mesmo tempo não pode se esquecer da seleção, com foco em Tóquio. 

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