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Colunista
Ugo Giorgetti
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Mau tempo

Semana difícil na sociedade começou com chegada de Aguirre, e teve a morte de Bebeto de Freitas e o assassinato de Marielle

O Estado de S.Paulo

18 de março de 2018 | 04h00

Bem no comecinho da semana meus pensamentos não eram de todo desagradáveis. Pensei até na possibilidade de escrever uma coluna sobre a predileção do São Paulo por argentinos e uruguaios. Talvez a palavra não seja predileção, mas ligação. Ela é antiga e numerosos são os argentinos e uruguaios que andaram pelo São Paulo como treinadores e jogadores.

O Palmeiras também sempre teve seus argentinos, mas de longe, é o São Paulo quem faz da relação com eles algo de especial, incorporado às tradições do clube e que volta e meia vem à tona. Por isso, quando um deles se transforma em ídolo a coisa é para valer. Falo de José Poy, o grande goleiro, que depois tantas vezes dirigiu o time, e de fato nunca se afastou de todo do Morumbi que, aliás, ajudou a construir. Falo de Pablo Forlan, que também quando deixou a lateral direita, aventurou-se na difícil tarefa de dirigir o time, exatamente como Dario Pereira, clássico, elegante, ex-meio campista, que se transformou num dos maiores zagueiros do Brasil. Finalmente Lugano, que se não é treinador, é quase. Como se vê há de tudo, jogadores clássicos, de pouca técnica, mas muita garra.

Vale dizer que virar ídolo embute grande quantidade de mistério. E aí vem Aguirre, mais um uruguaio. Não vejo clube mais adequado para ele no Brasil. É só visitar álbuns de fotografias do São Paulo para se sentir à vontade. Há um exército de compatriotas validando sua chegada.

Estava nesses pensamentos simpáticos e amenos quando o céu da semana se encheu de nuvens negras com a notícia da morte inesperada de Bebeto de Freitas, coisa que fez inclinar meu humor em direção da melancolia. Por que ele? Como o punho da morte desaba tão pesadamente assim sobre alguém? Se me perguntassem na véspera quem das figuras do esporte estava para cair fulminado por um enfarte, certamente Bebeto seria minha última escolha. Não ele, tão necessário. Não ele, que não perdia ocasião para denunciar as mazelas que via no esporte que era sua vida, muitas vezes falando com antecedência espantosa o que outros só começariam a ver anos depois.

Mas a morte não é justa nem lógica, nem leva em conta virtudes e valores morais. A religião nos acostumou a pensar na morte em primeiro lugar como punição, um castigo e, portanto, esperamos, inconscientemente talvez, que deva cair sobre os maus e preserve os bons, já tão poucos entre nós.

Infelizmente não é assim que acontece, na maioria das vezes é o contrário.

E ainda aquelas fotos nos jornais de um Bebeto jovem e belo, um garoto como fomos todos nós, vestindo a camisa da estrela solitária, não fazia bem a ninguém. E a semana se transformou. Bebeto fez Aguirre perder um pouco da nitidez e mesmo de importância. Mal sabia eu o que a semana ainda me reservava e a tempestade que iria desabar sobre a maioria da população desse País com o inacreditável assassinato da vereadora Marielle Franco na cidade do Rio.

A noite de quinta transcorreu com alguma coisa de irreal e errado no seu percurso. Era como se um autor perdesse de repente o rumo do que estava escrevendo e a trama se distorcesse e caminhasse sozinha em direção da tragédia não imaginada previamente. Na crônica original estava previsto para Marielle, negra e flamenguista, ir para casa onde veria e vibraria com a vitória do Flamengo sobre o Emelec do Equador pela Libertadores. Só que enquanto o Fla marcava seu segundo gol, seu corpo perfurado de balas já tinha sido levado ao IML do Rio e multidões começavam a se concentrar no centro da cidade. Não consegui de modo algum ver o jogo, ficava imaginando quantos dos negros jogadores do Fla que estavam em campo sabiam que sua vereadora estava morta. Fui dormir. Não foi fácil. 

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