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'Me chuta, me chuta'

Que José Silvério não se horrorize com o empréstimo e o considere uma homenagem. Mas a situação no futebol brasileiro parece um daqueles lances decisivos, com o atacante na cara do gol, pronto para marcar, e que arrancam do premiado locutor a expressão consagrada: “A bola está pedindo, me chuta, me chuta, me chuta!”

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2015 | 03h00

Pois o maremoto na Fifa, que carregou para a cadeia uma porção de cartolas coroadas, pode agitar a maré para os lados da CBF. Por maior esforço que faça, a entidade que controla a bola por aqui teme que as ondas se levantem contra ela e provoquem mais naufrágios ilustres. 

A saída apressada do presidente Marco Polo Del Nero do congresso que reelegeu Joseph Blatter ao quinto mandato na nave-mãe, na Suíça, faz parte do cenário de extrema preocupação que tomou a turma que ocupa o prédio desbatizado do nome “José Maria Marin”. A tentativa de apagar qualquer referência ao ex-presidente também é maneira desesperada de passar para o público a sensação de que sua gestão não tem vínculo algum, nem mesmo filosófico, digamos assim, com o passado recente. 

Isso depois de a dupla Marin/Del Nero andar junta por Ceca, Meca e Currais de Santarém (no popular, pra cima e pra baixo) durante três anos. Um respaldou o outro, e ambos assumiram o abacaxi na CBF a pedido do amigo Ricardo Teixeira, que abandonou o barco em 2012. Não significa que Del Nero soubesse de eventuais desvios de conduta. Tampouco convence o esforço de vender a administração atual como ruptura das gestões dos antecessores.

O trabalho é de continuidade, como Del Nero ressaltou na posse, em 16 de abril. Na solenidade que o entronizou no cargo, lembrou que Marin foi o homem que “construiu uma nova CBF”. Por isso, a bola pinga na área é o momento de o governo chutar para o gol.

Um dos caminhos para esvaziar a pompa da CBF passa pela aprovação irrestrita da Medida Provisória que parcela dívidas dos clubes e cobra responsabilidade fiscal rígida. Outra compreende ação coordenada entre ministérios do Esporte, da Justiça, da Economia. Polícia Federal, Receita podem ter papel fundamental no levantamento de dados e cruzá-los com informações de americanos e europeus. O FBI já se propôs a ajudar no que for necessário.

De quebra, há a CPI proposta pelo senador Romário, oportuna, mesmo com certo tom de palanque eleitoral. A bancada da bola ensaiará dribles costumeiros, como ocorreu no início destes anos 2000. Com uma diferença: antes desconfianças eram domésticas; agora, os sinais de fumaça são internacionais e a sociedade mais ligada e sensível a tudo que se refere a corrupção.

O momento é favorável para varredura. Ou se parte para limpar a área agora ou perderemos o trem da história. Como diriam as comadres do Bom Retiro, que sabiam da vida de todos e tinham sentenças definitivas. “Está na hora de acabar com essa pouca vergonha.”

Dupla em apuros. Calma, não é continuação das agruras de Marin nem Del Nero, mas o papo é igualmente delicado. A atenção gira para Corinthians e Palmeiras, que voltam a encontrar-se no Itaquerão, um mês e meio depois da semifinal pelo Paulista.. Na época, os corintianos estavam com a cabeça na Libertadores e os palestrinos festejavam a perspectiva de ganhar o Estadual.

Os velhos rivais se reveem em fase ensebada, com pressão de ambos os lados. O Corinthians topa com queda brusca de desempenho, além de desmanche, iniciado com a dispensa de Sheik e com a liberação de Guerrero, já acertado com o Fla. Pode prosseguir com a negociação de Elias, também na mira rubro-negra. O desafio de Tite é remontar a equipe quase no meio da temporada.

O Palmeiras segue o roteiro dos últimos anos: vai da euforia à depressão num piscar d’olhos. Muitas apostas ainda não vingaram, não ganhou uma no Brasileiro, foi paupérrimo no 0 a 0 com o ASA pela Copa do Brasil, Oswaldo Oliveira não dá padrão ao time. E as cornetas soam. 

Um dérbi com cara de empate.

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