Igor Müller
Igor Müller

1994, a primeira Copa global

A edição de 1994 ensinou muito mais do que geografia, história, línguas ou uma nova gama de cores na paleta

Igor Muller, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 04h00

Um garoto espia o novo mundo num buraco de fechadura. Uma leva de operários da bola, com cara de outsiders, jogando ao sol de meio-dia, camisas ostentosas, das mais variadas nacionalidades, bandeiras, todas elas de países que nem sequer haviam me ensinado na escola. Mesmo os grandes craques, jogando nos principais clubes da Europa, nas seleções mais tradicionais, tinham um pouco dessa aura. Ninguém diria que a atmosfera quase mambembe seria antecessora direta dos jogos de gala, com direito a hinos adaptados de peças barrocas, craques acima do bem e do mal e audiências colossais. Maiores até do que aquele evento da bola oval. 1994 foi a primeira Copa global.

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Hagi, Raducioiu, Kostadinov, Letchkov e Stoitchkov. Ciganos mágicos driblando feito brasileiros. Um espalhafatoso Estados Unidos de Tony Meola, Marcelo Balboa e Alexi Lalas. Mais espalhafatoso ainda era o uniforme de Jorge Campos. Cabeleiras frondosas. Larsson, Völler, Valderrama e “El Diablo” Etcheverry. A pompa aristocrática de Prudhomme sendo vazada por um inacreditável raio saudita chamado Saeed Al-Owairan, driblando toda a gente rubra e diabólica em nome de Alá.

A Copa dos Estados Unidos, esse caleidoscópio improvável. Por entre gigantes consagrados, uma série de novos candidatos a protagonistas do futebol mundial. Bulgária, Romênia e até Nigéria. Cores, cores, e mais cores. Diferentes camisas, algumas clássicas e elegantes e algumas com templates questionáveis. No país que acredita piamente ter aprimorado todos os esportes coletivos, a edição de 1994 ensinou muito mais do que geografia, história, línguas ou uma nova gama de cores na paleta. Essa Copa era a primeira do jovem garoto. Essa Copa era, sobretudo, a primeira em que definitivamente um certo muro não assombrava. Havia ainda um homem de nome Tito assombrando o leste, mas havia um elã diferente, que se sobrepunha a este último mal-estar.

1994 fez uma série de correções no caminho da bola. Os americanos, por exemplo, precisavam saber em algum momento da existência humana que não haviam inventado a bola (ainda bem, porque eles gostam de usar uma bola oval), já o leste europeu precisava descobrir que os anos de cortina de ferro haviam abafado talentos balcânicos que geram mais confusão com brasileiros do que Béla Bartók gerava com Villa-Lobos. Mas o maior acerto histórico só seria visível muitos anos após 1994.

 

O evento realizado nos Estados Unidos vem ao encontro com a reorganização da Champions League, do Campeonato Inglês e da tendência global do mercado. Se não fosse por essa leva de underdogs da bola, apenas craques como Maradona e Pelé poderiam ser propriamente globais. Beckham jamais seria chamado à baila dos World Class, nem muito menos tornaria o Manchester United a maior torcida da Ásia. Assista ao filme oficial para você ver. A Copa de 1994 foi o último momento em que o garoto espiou a miríade pelo buraco da fechadura. Pouco depois, a porta explodiu e tragou a todos neste fenômeno global chamado futebol.

*IGOR MÜLLER É APRESENTADOR DA RÁDIO ELDORADO

 

 

 

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