Meninos da Vila relembram título santista no Paulistão de 1978

Geração conquistou a primeira taça do Santos após a aposentadoria de Pelé

Ciro Campos e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Revelar jogadores é algo que faz parte da história do Santos. Não à toa o clube, que hoje conta com o talento de Geuvânio e Gabriel, atravessa décadas ratificando e renovando a expressão "Meninos da Vila". Em 1978, apenas quatro anos depois de Pelé ter deixado o clube, a primeira geração dos garotos surgiu na Vila Belmiro. Com jovens como Pita, Célio, Nilton Batata, Juary, João Paulo e Gilberto Costa e a experiência de Joãozinho, Gilberto Sorriso e Aílton Lira, o Santos conquistou o título paulista daquele ano após derrotar o São Paulo na final. Alguns integrantes daquele time falaram com o Estado num bate-papo na Vila Belmiro.

ESTADO: Qual é o sentimento de ter dado início à expressão "Meninos da vila"?

PITA: Os Meninos de Vila marcaram uma época. Esse nome foi fundamental. E principalmente: houve uma sequência. Sempre falo que o Santos dá muita sorte nisso. Quando precisa, vai nas categorias de base e encontra safras maravilhosas.

JOÃOZINHO: Foi uma expressão que encantou a todos nós naquela época. Era uma geração bem jovem da base do Santos, mas havia também jogadores experientes na equipe. A maioria veio da base. A expressão foi muito bem aceita por todos e repercutiu muito bem na torcida também.

GILBERTO COSTA: Subimos e fomos campeões no primeiro ano. Foram nove jogadores da base. Houve a necessidade de incorporar os jogadores experientes: o Joãozinho lá atrás, os laterais Nelsinho e Gilberto Sorriso, o Aílton Lira e o Clodoaldo no meio-campo. Encaixou com os meninos da base e deu certo.

GILBERTO SORRISO: Temos a felicidade de fazer parte dessa geração, os primeiros Meninos da Vila. Eu me sinto orgulhoso todas as vezes que ouço falar desse time. Eu não era um menino, já tinha 27 anos, mas me sinto orgulhoso de ter feito parte e ainda ser lembrado.

ESTADO: E como a expressão surgiu?

JOÃOZINHO: Tudo começou quando o Rubens Quintas Ovalle, presidente na época, começou a implantar uma filosofia no clube. O Santos estava com problemas financeiros, não tinha dinheiro para investir. Tinha de mandar muitos jogadores embora e fazer uma reformulação. Ele chamou o técnico Chico Formiga, que colocou os meninos para jogar. Felizmente a torcida acolheu essa ideia.

GILBERTO COSTA: O Rubens Quintas usava esse termo para nos chamar.

ESTADO: Como ocorreu a subida para o profissional?

PITA: Na época o Santos entrou numa crise muito grande. A situação foi muito parecida com as outras gerações que surgiram. Havia os juniores, que eram bicampeões paulistas. Deu sorte de subir todo mundo junto e encontrar um time que já jogava há tempos. Deu certo. Eles deram experiência pra gente, orientando dentro e fora de campo. Essa junção deu o conjunto para ser campeão.

ESTADÃO: Como foi lidar com a responsabilidade de disputar o título?

CÉLIO: O Santos é uma equipe que dá muito valor às categorias de base. Eu cheguei no clube com 13 anos. E já conheci o Pita, o Rubens Feijão... Eram equipes que já nasceram vitoriosas. Subimos para o profissional e ganhamos o Campeonato Paulista. É importante a categoria de base ter títulos, porque quando enfrentar adversários mais experientes os jogadores não vão tremer, já estarão acostumados a finais. No nosso time ninguém pipocava. A gente tinha alegria de jogar futebol. O torcedor vinha no domingo e sabia que teria espetáculo na Vila Belmiro. É isso o que o time atual precisa fazer contra o Ituano.

PITA: Demos sorte em tudo, porque anos antes os jovens não deram sorte. A torcida quera ver um novo Pelé e aquela equipe maravilhosa. Eles foram queimados por essa pressão que havia. Quando subimos o torcedor já estava ciente de que não ia aparecer um novo Pelé. Na época o Aílton Lira jogava com a 10 e ele mesmo pediu para eu jogar com ela.

ESTADÃO: Qual o ponto forte da equipe?

GILBERTO SORRISO: O que me marcou foi a amizade, a união. Chegamos aqui e encontramos as portas abertas. A adaptação foi fácil. Chegamos e jogamos naturalmente.

CÉLIO: Tinha o passe preciso do Pita, a velocidade do Nilton Batata e os gols do Juary. Lá atrás a segurança do Joãozinho.

PITA: Éramos rápidos em campo. Nosso recreativo era tão valorizado que o Pelé aparecia para jogar com a gente. Ia aos treinos até três vezes por semana. Foi importante também.

ESTADÃO: Quem era o líder do time?

JOÃOZINHO: O mais experiente era o Clodoaldo. Era um exemplo. Havia também o Aílton Lira e o Nelsinho.

GILBERTO COSTA: Eles passavam tranquilidade, um espelho de dedicação dentro do campo e nos treinamentos.

ESTADÃO: E o papel do técnico Chico Formiga ?

GILBERTO SORRISO: Ele não era um estrategista, era mais um motivador. Deixava à vontade para jogar.

JOÃOZINHO: Seu Chico foi um grande jogador. Ele tinha uma experiência fantástica. Passou muita confiança e deu liberdade. Ele queria que o time entrasse em campo e jogasse para a frente. Isso fez com que todo mundo jogasse bem.

GILBERTO COSTA: O Chico Formiga já assistia nossos treinos e tinha muita bagagem, Ele foi importante por saber dar esse direito de errar e também aumentar a amizade entre nós.

ESTADÃO: Qual foi a importância da Vila?

JOÃOZINHO: Os melhores jogos dessa geração foram na Vila. Era impressionante, fatal. A torcida apoiava muito e o time sempre correspondia.

PITA: Na fase boa, o estádio ficava lotado às 3 da tarde. A gente partia para cima do adversário, dificilmente terminava 0 a 0 o primeiro tempo.

ESTADÃO: Como foi a campanha rumo ao título paulista de 1978?

PITA: Nós fizemos uma boa campanha, vencemos o Guarani na semifinal por 3 a 1. Na decisão contra o São Paulo nós já estávamos preparados. E eles tinham um timaço, com Chicão, Serginho... O primeiro jogo (2 a 1 para o Santos) nos deu muita confiança. No segundo jogo (1 a 1), o Antônio Carlos perdeu um pênalti. E o Zé Sérgio empatou no final. Me machuquei para o terceiro jogo e saí de campo antes.

CÉLIO: No segundo jogo, no lance do meu gol, o Pita olhou para mim e lançou a bola. Eu entrei na diagonal, na velocidade e bati forte. Mas no final o Zé Sérgio empatou.

JOÃOZINHO: Eu saí de campo inconformado por ter tomado o gol. Achei que a equipe ia sentir, porque todos nós no vestiários ficamos muito abatidos. Foi preciso recuperar para conquistar o título depois.

GILBERTO SORRISO: No terceiro jogo nós perdemos por 2 a 0. Mas na prorrogação nós não demos chance para eles. Conquistamos o título com o empate.

ESTADÃO: Qual o segredo do Santos para revelar tantos jogadores?

JOÃOZINHO: A molecada, desde a nossa geração, tem o apoio do torcedor. E as gerações têm correspondido, porque também é feito um bom trabalho na base.

GILBERTO SORRISO: O Santos não tem receio de pôr para jogar. Tudo isso facilita para que surjam bons jogadores. Foi assim com Robinho, Diego e Neymar, em todas as gerações.

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