Meninos de rua do Nepal encontram esperança entre dribles e gols

Jovens de entre 14 e 17 anos treinam durante meses para jogar campeonato anual em Katmandu

Manesh Shrestha, EFE

15 de abril de 2011 | 11h50

KATMANDU - Dezenas de meninos de rua e órfãos da guerra do Nepal calçam suas chuteiras todos os sábados de manhã para jogar futebol graças a um programa social do qual participam orfanatos da capital do país do Himalaia.

 

Garotos de entre 14 e 17 anos treinam durante meses para participar de um campeonato anual de futebol na capital nepalesa, do qual participam até mil meninos de rua e mais de uma centena de orfanatos, segundo estimativas de diversas ONGs.

 

"O esporte é muito importante para a socialização das crianças. Eles se tornam mais responsáveis e conscientes do trabalho em grupo, porque você não está simplesmente jogando para si mesmo", explicou à Agência Efe o francês Jerome Edou, idealizador do projeto que começou há 11 anos.

 

O futebol ajuda de fato os garotos, como demonstra o caso do jovem Haribansa Ghimire, de 14 anos, que, fugindo da pobreza, deixou sua casa no distrito de Nuwakot, a cerca de 80 quilômetros de Katmandu.

 

"Agora acredito que posso conseguir alguma coisa. Se eu trabalhar duro, posso me tornar um bom jogador", afirma Ghimire.

 

Seu sonho não é impossível: vários jogadores que atualmente integram a seleção nepalesa sub-17 foram formados pelo Garuda Sport Club, encarregado de organizar os treinamentos e o campeonato anual, que este ano contou com dez equipes.

 

Os meninos treinam semanalmente sob o comando de técnicos, "sem distinção de classe" e em função de seu mérito e capacidade de trabalho, segundo Edou.

 

Outro dos participantes é Arjun Majhi, de 16 anos, que mora em um orfanato. Antes de ser abrigado pelo centro, Majhi passou dois anos e meio pedindo esmolas na rua após fugir de sua casa no distrito de Udaypur - a cerca de 150 quilômetros de Katmandu -, cansado dos maus-tratos que recebia da madrasta.

 

No ano passado, sua equipe foi campeã do torneio, embora na edição atual o time não tenha conquistado o bicampeonato, porque, segundo Majhi, vários bons jogadores estavam machucados.

 

Os treinadores concordam que os estudos não atraem muito os jovens, enquanto o futebol, por outro lado, causa furor e os ajuda consideravelmente em sua socialização.

 

"Eles aprendem que têm que seguir algumas regras. Quando alguém os elogia, desenvolvem um sentido de autoestima. Por meio do futebol, aprendem a socializar e descobrem as possibilidades do trabalho em equipe", disse à Efe Bharat Thapa, técnico da equipe do orfanato A Voz das Crianças.

 

No entanto, "se as coisas não acontecem como querem, eles se aborrecem," reconheceu Thapa, que apesar disso afirmou que o futebol contribui para atenuar a tendência à agressividade dos meninos de rua.

 

Dentre as qualidades que os garotos aprendem durante a prática esportiva, a disciplina é talvez a virtude mais aparente. "Se chegarem um minuto tarde, são proibidos de treinar", diz Edou, que vive no Nepal há 20 anos e também dirige uma agência de montanhismo.

 

O grupo de defesa dos direitos das crianças CWIN estima que atualmente haja entre 800 e mil meninos de rua na capital nepalesa.

 

De acordo com a Plataforma Central de Bem-estar da Criança, um órgão governamental, há 454 orfanatos no Nepal, dos quais 166 ficam em Katmandu e abrigam cerca de 8 mil crianças e adolescentes. "O programa está sendo muito proveitoso. Estou orgulhoso", finaliza Edou.

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