André Lessa/Estadão
André Lessa/Estadão

Meninos movidos à paixão e risco das torcidas organizadas de São Paulo

Menores se encantam com as facções das arquibancadas e não temem a violência

Almir Leite e Gonçalo Júnior, O Estado de S. Paulo

02 Março 2013 | 09h00

SÃO PAULO - No banheiro mal lavado do ônibus, quatro meninos se espremem assustados. Com nojo, medo e ansiedade, fazem de tudo para não esbarrar no outro. A porta se abre e apenas um é escolhido para sair. Os outros três ficam lá, de ouvido colado na parede fina. Dá para ouvir o vozeirão perguntando: qual é o ano do primeiro título do Corinthians? Em seguida, outra: quem marcou o gol no Campeonato Brasileiro de 1990? E, para tirar um dez: quais são os nomes dos últimos cinco presidentes da Gaviões? Essa, nem com a ajuda dos universitários...

Esse é o batismo para os calouros da uniformizada Gaviões da Fiel em sua primeira caravana para um jogo do Corinthians. Para se tornar efetivamente membro da torcida é preciso acertar essas perguntas. Quem não acerta, volta para o banheiro...

Esse vestibular, mistura de trote e brincadeira sem sentido, tem todos os ingredientes que movem os meninos que querem se filiar: paixão pelo time, a valorização de coisas nem tão importantes assim, a força do grupo em um mundo do eu sozinho e um sentido para a montanha-russa da adolescência.

"Os adolescentes procuram se inserir em um grupo que tem o mesmo gosto, hábitos e costumes. É uma escolha", explica a professora de Educação Física da Unicamp, Heloisa Reis, coordenadora de um estudo que traçou o perfil dos torcedores organizados do Estado de São Paulo e que, entre outras constatações, concluiu que quase 27% dos associados são menores de idade.

Por esse batismo passou o menor que confessou ter disparado o sinalizador que matou o torcedor Kevin Beltrán na Bolívia, no jogo entre Corinthians e San Jose, pela Libertadores. Por esse batismo passaram centenas de torcedores teens, que formam um exército de espinhas, hormônios e testosterona. Na subsede da Gaviões de Guarulhos, uma das maiores da torcida, com 15 mil associados (entre eles o menor que disparou o sinalizador), o porcentual de adolescentes chega perto dos 30%, o mesmo da Mancha Verde, do Palmeiras, e da Independente, do São Paulo.

Para se associar basta mostrar RG, comprovante de residência e autorização dos pais – a Gaviões garante exigir reconhecimento de firma. As duas outras uniformizadas de São Paulo afirmam que não têm trote.

Depois de aceitos, eles viram obreiros: sentem-se importantes ao carregar as bandeiras e contar os instrumentos que vão para o estádio. Ficam mais felizes ainda quando têm de fazer tudo de novo na volta. E não temem a violência.

A princípio, não há problema nenhum em se associar a uma organizada. Um torcedor do Corinthians que prefere não se identificar afirma que foi ao Pacaembu pela primeira vez quando tinha 13 anos levado pela avó de 65. Dois anos depois, virou sócio.

O problema é a dose da paixão. Quando ela vira adoração, o caldo entorna. Esse mesmo que foi ao campo com a vovó abriu mão de um emprego como vendedor em uma loja de surfe porque estava mais preocupado com as caravanas – já perdeu a conta de quantas participou. Repetiu de ano e resolveu parar no segundo colegial. Agora, quer fazer supletivo para recuperar o tempo perdido. "Já tenho 19 anos e preciso procurar emprego. Agora, só vou aos jogos nos finais de semana. Antes, ia todo dia", conta.

Um são-paulino que também não diz o nome (eles preferem o anonimato para se preservar da reprovação do grupo pela revelação dos detalhes da torcida) demora para responder se vai querer que seu filho tenha a mesma paixão que ele tem. "A gente precisa ter limite na vida, controlar as coisas. Paixão é um tipo de loucura. Quando vê, já foi."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.