Rafael Ribeiro/CBF/Divulgação
Rafael Ribeiro/CBF/Divulgação

Mensalinho, a fórmula para cooptar o apoio de 27 federações estaduais

Desde 1993, a entidade dá uma ajuda financeira mensal a suas filiadas: o mensalinho da CBF

LEONARDO MAIA , SÍLVIO BARSETTI , TIAGO ROGERO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 10h13

RIO - Ricardo Teixeira tinha apoio irrestrito das 27 federações estaduais. Agora, mesmo após um embrionário movimento de revolta, José Maria Marin goza do mesmo prestígio à frente da CBF. Não é difícil entender por quê. Desde 1993, a entidade dá uma ajuda financeira mensal a suas filiadas. O mensalinho da CBF. Mas não para por aí: além do valor fixo, atualmente em R$ 50 mil, a entidade faz outras "doações" ou "repasses", como são descritos nos balanços. O aporte chega a representar até 89% da receita total de uma federação no ano, como foi o caso da sergipana, em 2011.

Da receita de R$ 1,21 milhão da federação, R$ 1,1 mi veio da CBF. Os R$ 100 mil restantes partiram de rendas de jogos e "taxas e emolumentos".

De todas as federações, só sete foram minimamente transparentes nos balanços de 2011 e discriminaram de forma clara a ajuda da CBF: Sergipe, Maranhão, Paraná, Piauí, Espírito Santo, Ceará e Amazonas. Entre elas, os repasses da CBF correspondem, em média, a 23% do total de receitas de todo o ano. Paraná recebeu o maior valor: R$ 1,2 milhão, R$ 100 mil a mais que Sergipe. Mas a receita total paranaense foi muito maior: R$ 4,6 milhões.

As entidades de Alagoas, Roraima, Mato Grosso e Distrito Federal nem sequer registram seus balanços na internet, e o da federação do Rio Grande do Norte, no site da CBF, está incompleto (não mostra receitas e despesas). Nas demais federações, o aporte entra em itens como "repasses e subvenções", ou "subvenções e doações", "auxílios e subvenções" e até "outras rendas".

O INÍCIO

O Mensalinho começou em 1993 com R$ 8 mil para cada federação, com o nome de "programa de assistência financeira", copiando um modelo da Fifa. Cada presidente tinha de preencher um pequeno caderno de encargos justificando a distribuição dos gastos. Foi uma forma de a CBF tentar exigir o mínimo de organização das federações. E também de sistematizar o auxílio financeiro que já prestava, ocasionalmente, baseada nos pedidos dos presidentes. Mas, depois de muitas reclamações a Teixeira, os dirigentes conseguiram invalidar a prestação de contas. Ninguém precisa mais justificar o uso do dinheiro que recebe da CBF.

Recentemente, por mais de dois anos, o Mensalinho ficou "congelado" em R$ 30 mil por mês. Já com o processo de sucessão esquematizado, Teixeira garantiu que José Maria Marin começasse com o pé direito. Em 29 de fevereiro, na assembleia em que garantiu aos presidentes de federação que não deixaria o comando da CBF, anunciou aumento para R$ 50 mil. Muitos presidentes creditam essa mudança a Marin, um primeiro afago para os futuros comandados. Atualmente, só o Rio Grande do Sul se recusa a receber a verba mensal.

O aumento veio em um momento de turbulência nos bastidores, em meio a boatos cada vez mais fortes sobre uma possível saída de Teixeira. A assembleia havia sido convocada por sete presidentes de federações - MG, RJ, BA, PR, PA, RS e DF -, que cobraram do presidente um esclarecimento. Para eles, nova eleição deveria ser convocada em caso de renúncia. Começaram a ser chamados de "rebeldes" pelos demais dirigentes.

Na mesma assembleia do "fico", Teixeira comunicou a distribuição de R$ 100 mil para cada uma das 27 federações, por "participação nos lucros". Acalmou ânimos. Depois, pediu a todos que aprovassem a mudança da data da próxima eleição presidencial, que seria após a Copa de 2014 e foi transferida para antes do Mundial. Teixeira temia que um resultado ruim da seleção pudesse interferir no pleito. Como em tantas outras vezes, conseguiu unanimidade entre os cartolas.

Pouco mais de uma semana depois, em 8 de março, Teixeira pediu licença da presidência, alegando problemas de saúde. Assumiu o vice mais velho: José Maria Marin, hoje com 80 anos. Ainda como interino, numa sexta-feira, ele convocou uma entrevista para segunda-feira com a presença de todos os presidentes de federação - algo que Teixeira jamais fez. No dia 12, na sede da CBF, Marin leu a carta de renúncia do ex-presidente.

Somente um presidente não foi pego de surpresa: Marco Polo Del Nero, de São Paulo. Dos "rebeldes", quatro não compareceram. Com a posse de Marin e a influência mais evidente de Del Nero, tomou força o movimento para convocação de eleição.

Mas não durou muito.

Logo, os dirigentes perceberam que, apesar da transferência de toda a tomada de decisões do Rio para SP, pouco havia mudado. Principalmente no "bolso" das confederações. Em 3 de abril, a "revolta" terminou oficialmente, com uma reunião convocada por Marin na sede da CBF. Todos os rebeldes compareceram e lhes foi assegurada uma participação maior nas "questões políticas".

Nesse meio tempo, Rio e SP chegaram a travar uma disputa pelo cargo vago de vice da Região Sudeste, que, na estranha geografia da CBF, compreende somente os dois Estados. O presidente da federação do Rio, Rubens Lopes, indicou o tetracampeão Zagallo. O ex-técnico foi levado a acreditar que tinha chance. Sua candidatura acabou retirada um dia antes da eleição - sem que nem sequer fosse comunicado. Del Nero havia se autoindicado e foi eleito por unanimidade.

O principal líder dos ex-rebeldes, Francisco Noveletto Neto, do RS, definiu o momento: "Estamos todos com apoio irrestrito ao Marin", disse. "Até a nova eleição", completou.

Tudo o que sabemos sobre:
futebolCopa de 2014CBF

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.