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Mera coincidência

Filme italiano sobre futebol traz uma história bem conhecida por quem acompanha o esporte

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 04h00

Filmes sobre futebol são muito bem-vindos. Especialmente quando se trata de um filme vindo da Itália, até recentemente notável tanto pelos filmes que produzia como pelo futebol que jogava. É assim que me aventurei a ver Desafio de um Campeão, em exibição nos cinemas da cidade de São Paulo. Desde logo quero dizer que é um filme agradável, leve, muito bom de ser visto. Tecnicamente impecável, não fosse herdeiro da tradição italiana de filmes bem fotografados, profissionalmente dirigidos e com bons e competentes atores.

Falo de coisas bem gerais para me livrar o quanto antes de informações a meu ver supérfluas, para me concentrar no essencial, isto é, o roteiro, a história. É isso o que mais me interessa num filme. Do que se trata? O que estão querendo me dizer? E por que estão me dizendo isso? 

Pois bem, no centro da história havia a ideia, tão largamente explorada por filmes americanos, em particular os de esportes, do tema do herói, sua queda e redenção final. Em outras palavras, o tema da segunda chance que às vezes a vida oferece. O herói é um jovem craque da Roma, iletrado produto das periferias de Roma, as famosas borgate, tão presentes na obra de artistas como Pierpaolo Pasolini

Esse jovem fala um italiano quase incompreensível que obriga até quem conhece bem a língua a recorrer aos letreiros em português. É o dialeto das ruas pobres de Roma onde o herói se criou junto com uma penca de amigos que vivem às suas custas, agora numa mansão imensa e luxuosa, com Lamborghinis na garagem e mulheres por toda parte, principalmente à beira da piscina.

Essa vida inútil e sem sentido começa a afetar seu futebol. Primeiro com desentendimentos com seus colegas de equipe, depois com o treinador, empresário e dirigentes. Os dirigentes, compreendendo o perigo, fazem o que podem para recuperar seu ídolo que despenca. Resolvem, numa atitude desesperada, chamar um professor na tentativa meio infantil de fazê-lo ao menos falar italiano direito.

A vida dissoluta, no entanto, faz todas as medidas se tornarem inócuas e o craque continua caindo cada vez mais, a ponto de sua careira parecer perdida. O professor contratado, que não é idiota, percebe que qualquer recuperação tinha por necessidade uma mudança nas circunstâncias de vida do jogador. Tenta fazê-lo ver que era seu entorno, as pessoas que povoavam seu cotidiano, que ocasionavam a destruição de sua carreira.

E nesse ponto, algo que já tinha obliquamente chamado minha atenção se introduz claramente no filme: a presença constante do pai do jogador. Sim, senhores, o craque milionário da Roma tinha um pai. E que pai! Vivia ele também na mansão, comendo e bebendo sem fazer absolutamente nada na vida, na agradável companhia dos desocupados amigos do filho, como se fosse um deles.

Na verdade, esse pai era pior: picareta, preguiçoso e desonesto. Envolvendo-se sempre nos negócios do filho mete-se num escândalo de proporções respeitáveis que quase acaba em cadeia ou algo do gênero. 

Nesse momento do filme, a coisa começou a me parecer vagamente familiar e comecei a me perguntar onde já tinha visto tudo aquilo. Bem, não importa, o filme prosseguiu. Pai é pai, afinal de contas, principalmente em países latinos. E o craque, mesmo tendo os olhos abertos pelo professor (ah! Esses professores, destruidores de famílias, nesses infelizes países onde ainda não há escola sem partido!), hesita em se livrar da incomoda paternidade.

Bom, o resto não conto, já fui longe demais. Assistam o Desafio de um Campeão para ver como a coisa termina. Quanto a mim, antes de sair da sala ainda tive tempo de me deliciar com uma última tirada do filme. Um enorme letreiro cobria a tela informando: “Todos os personagens desse filme são fictícios. Qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência”. 

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