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Mercado popular

Clubes do Brasil não têm como competir com dinheiro gringo; por isso, se viram como podem

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2017 | 06h00

Nas aulas de Catecismo, na época em que a criançada se preparava para a Primeira Comunhão como etapa importante do crescimento, os padres, as freiras, as professoras ensinavam que inveja era pecado. Não dos mais graves, capaz de levar o cristão para a perdição eterna. Mas falta que devia ser relatada na confissão para purificar a alma. Havia muita proibição para atemorizar cabeças jovens...

O tempo passou, o amadurecimento veio, alguns medos se foram e ficou a constatação de que cobiça não é sentimento agradável. O sujeito nem precisa seguir doutrina religiosa para sentir isso. No entanto, vamos admitir – e atire a primeira pedra quem tiver coragem de negar e contradizer: vez o outra bate uma dor de cotovelo por algo que não possuímos. Não é?

Como o espaço, aqui, é para o esporte, fechemos o foco da conversa e fiquemos no futebol. Quando chega o período de mercado da bola na Europa, lá pelo no meio do ano e também em janeiro, há inundação de transferências pomposas e jorram fortunas dos cofres dos principais clubes de lá. 

Um tal de Manchester United pagar 105 milhões de euros pelo Pogba, ou Juventus gastar 90 por Higuaín, ou o Barcelona investir mais de 80 mi em Suarez. Transações que giram em torno dos 20, 30 milhões de euros são corriqueiras. Sem contar os candidatos a astros que os tubarões europeus pescam em todo canto – taí o City pra comprovar a regra, ao levar Gabriel Jesus. Agora, para conturbar, aparecem os chineses com contêineres de dinheiro.

Daí chega a vez do mercado interno, e é uma monotonia só. Faz tempo que não há uma notícia espetacular, de cair o queixo do torcedor, de dar dor de cotovelo tremenda. As mudanças são banais, de varejo, de mercado popular. Times até contratam muito, de baciada, e apresentam meia dúzia, oito, dez, 12 “reforços” como se fossem o máximo. No meio do ano, a metade foi embora ou está encostada; raros vingam e as folhas de pagamento inflam.

Quem anda com finanças menos apertadas e tem agilidade se dá melhor. Caso do Palmeiras, que há três anos esmiúça todo canto e, nesse entretempo, trouxe uns 50 atletas. Investimento que lhe rendeu uma Copa do Brasil e um Brasileiro. Pesaram em seu favor o equilíbrio nas dívidas, a mão aberta de um ex-presidente milionário, um patrocinador generoso e de olho em saltos maiores, o crescimento de receita de bilheteria e associados. E, para as compras, um diretor inquieto.

Mas se trata de exceção; a regra continua a ser a das compras de quitanda, das vendinhas de esquina. A carência de recursos ajuda a entender por que dirigentes e torcidas festejam regresso de ídolos que rodaram mundo e vêm terminar carreira em casa.

Nada contra idade – longe disso, ainda mais agora que o cidadão terá de trabalhar de bengala antes de aposentar-se. No entanto, se os ventos fossem favoráveis, se os investimentos fossem grandes, certos “vovôs” seriam recebidos com simpatia e como meros integrantes do elenco, não como guias, salvadores ou principais atrações, como virou praxe.

Haveria reação discreta para Conca (33 anos) no Flamengo, ou Léo Moura (38) no Grêmio. O Corinthians não estaria a alimentar eventual acerto com Drogba (38) como a jogada de mestre de 2017, tampouco o Coritiba flertaria com Ronaldinho Gaúcho (36) nem o Atlético Paranaense recorreria a Carlos Alberto (32). Cleiton Xavier (33) e Dátolo (32) foram para o Vitória como os cérebros para este ano. Robinho (33) e Luís Fabiano (36) não alimentariam o sonho dos santistas.

A conclusão é óbvia: o Brasil mantém-se como fornecedor de primeiro linha de jogadores e se contenta com o que os gringos não descobriram (ainda) ou rejeitaram. Ainda assim, não é que vira e mexe dá bom caldo? 

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