Djota Carvalho/Divulgação
Djota Carvalho/Divulgação

Mercado predatório abre crise nas categorias de base do futebol brasileiro

Disputa por jovens se acirra e clubes ameaçam boicote ao São Paulo, considerado o vilão

Ciro Campos e Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 08h05

SÃO PAULO - A formação de jogadores no Brasil vive uma de suas piores crises a ponto de o principal torneio de base do País, a Copa São Paulo de Futebol Júnior, correr risco de ser disputada no próximo ano sem pelo menos dez das suas maiores equipes. Corinthians, Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco, Cruzeiro, Atlético-MG e América-MG, Vitória, Sport e Coritiba ameaçam boicotar a competição pelo mesmo motivo: a participação do São Paulo. O clube do Morumbi é apontado como grande vilão das categorias de base por não respeitar um código de ética em vigor que visa acabar com o mercado predatório no qual sempre o maior leva vantagem sobre o menor. A acusação é que o Tricolor “rouba” com frequência jogadores menores de 16 anos que ainda não podem assinar contratos como profissionais. O último deles foi o goleiro Lucão, de 15 anos, ex-Ponte Preta.

A transferência do garoto foi o estopim para que boa parte dos grandes clubes do País se voltassem contra o São Paulo. Além da Copinha, a ameaça de esvaziamento pode atingir as Copas do Brasil Sub-17 e Sub-20. A participação ou não dos maiores clubes do País nesses torneios deve sair até o fim da semana. "Foi feito um código de ética entre os coordenadores de base para não haver mais roubo de garotos menores de 16 anos. Quando o René Simões estava lá no São Paulo, isso era cumprido. Mas depois eles pararam", acusa o presidente do Vitória, Alexi Portela, um dos líderes do movimento.

O São Paulo se defende das acusações e alega que sempre respeitou os outros clubes. "Se o jogador tem contrato e nós temos interesse nele, pagamos para contratá-lo. Só não pagamos por aqueles que estão sem contrato", explica o assessor da presidência José Francisco Manssur, escolhido por Juvenal Juvêncio para ser o porta-voz do clube quando o assunto é categoria de base. Mas o problema está justamente nos garotos sem contrato, menores de 16 anos, como Lucão. Nesses casos, o São Paulo é acusado de seduzir os jogadores com a estrutura do seu centro de treinamento em Cotia. "Na Ponte Preta, o Lucas ficou dois meses sem ir à escola por problemas na matrícula e depois por falta de ônibus que levassem os garotos. Onde eles moravam faltava café da manhã e até papel higiênico. Ele tem quase 2 metros de altura e tinha de dormir em beliche. Agora, no São Paulo, fica em um quarto com ar condicionado e treina em campos ótimos. Mudou da água para o vinho", disse ao Estado um familiar do goleiro que pediu para não ser identificado porque o São Paulo lhe proibiu de dar entrevistas.

Os clubes chegaram a cogitar pedir à CBF que não leva mais as seleções de base para treinar em Cotia. É comum Juvenal Juvêncio visitar os garotos durante o período em que eles estão concentrados e, segundo os cartolas dos clubes rivais, tentar convencê-los a se transferir para o São Paulo. No último dia 4, por exemplo, o dirigente esteve com jogadores da seleção brasileira Sub-17 que se preparavam no local para a disputa do Mundial da categoria. "Ao invés de criticarem o CT de Cotia, os clubes deveriam querer o melhor para o futebol brasileiro. E o melhor CT do Brasil é o do Cotia", gaba-se Manssur. O empresário de Lucão, Edson Luis de Souza, defende que transferência do jogador para o São Paulo não pode ser considerada ilegal nem imoral. "Outros clubes também já pegaram jogadores que eram de outros times em várias ocasiões. Mas o alvo da revolta é o São Paulo pela estrutura que tem. É uma comparação desproporcional", disse.

CANTO DA SEREIA

O São Paulo conta com uma rede de olheiros espalhados pelo Brasil – a maioria está no interior paulista. Cabe a esses profissionais garimpar jogadores com potencial e levá-los para Cotia. Lá, o garoto passa por um teste. Se aprovado, o gerente da base José Geraldo de Oliveira, então, mostra toda a estrutura CT para a família do jogador. É quando muitos acabam seduzidos e acabam assinando contrato.

O presidente do Vitória, Alexi Portela, atesta que a estrutura do CT é incomparável. "Não dá para competir com o São Paulo. O menino chega em Cotia e fica encantado", reclama. O Tricolor, porém, não usa apenas o CT para atrair jovens talentos. O poder financeiro também faz a diferença. É comum o São Paulo oferecer uma ajuda de custo até três vezes maior do que os times do interior. No caso de Lucão, por exemplo, estima-se que o valor que a família do garoto recebe por mês passou de R$ 1,5 mil para R$ 4,5 mil.

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