Sergio Perez/Reuters
Jogadores argelinos fazem a habitual comemoração islâmica após gol sobre a Bélgica, na Copa de 2014 Sergio Perez/Reuters

Mês sagrado desafia preparação para Copa mais muçulmana da história

Jogadores precisam conciliar jejum de alimentos e líquidos do Ramadã com a rotina pesada de treinos para o Mundial da Rússia

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2018 | 07h00

O alemão Khedira, o francês Pogba, o senegalês Mané, o belga Fellaini e o egípcio Salah têm outra preocupação pelas próximas semanas além da preparação para a Copa do Mundo. O quinteto, assim como outras dezenas de jogadores muçulmanos, precisa conciliar a rotina de treinos para o torneio com as tradições do Ramadã. O mês sagrado para os islâmicos (15 de maio a 15 de junho neste ano) tem como uma das premissas a purificação espiritual pelo jejum do amanhecer ao entardecer. Ou seja: os seguidores da religião não comem e não bebem do nascer ao pôr do sol.

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A importante data do calendário muçulmano desafia atletas e seleções no principal torneio de futebol do planeta. A questão ganha importância, pois a Copa na Rússia é a edição da história com a maior presença de países islâmicos. São sete: Egito, Marrocos, Tunísia, Nigéria, Senegal, Irã e Arábia Saudita.

O maior personagem do tema é Mohamed Salah. O atacante do Liverpool disputou a final da Liga dos Campeões, neste sábado, durante o mês sagrado e envolvido em mistério. Embora autoridades religiosas tenham liberado o jogador do jejum para não prejudicar seu rendimento, a imprensa egípcia noticiou que o atacante seguiria a restrição.

A seleção do Egito incorporou à comissão técnica mais profissionais para monitorarem a alimentação e o desgaste dos atletas durante o período. Meses atrás, o técnico da equipe, o argentino Héctor Cúper, manifestou preocupação. "Quando vou dar treino? Às cinco da manhã? Não posso treinar alguém que não ingere líquidos, nem tem calorias no corpo", disse, ao jornal La Nación.

A maioria das seleções com islâmicos no elenco deve deixar a cargo dos jogadores a decisão sobre o impasse. O elenco do Egito prometeu se reunir nos próximos dias para discutir um acordo coletivo sobre o Ramadã.

"O ideal é conseguir deixar o regime do Ramadã mais maleável. Pode ser um risco à saúde segui-lo e competir. Em uma partida é possível perder até 5 quilos", explicou Joaquim Grava, médico do esporte do Hospital São Luiz Morumbi e consultor médico do Corinthians. "O combustível do atleta é a alimentação. Sem comida, não é possível nem se movimentar", completou.

JEJUNS E ESFORÇO

As equipes de países muçulmanos estão acostumadas a se desdobrar na época do Ramadã. O técnico brasileiro Marcos Paquetá trabalhou por 15 anos em diferentes países árabes e enfrentou situações inusitadas. Quando dirigiu a Líbia, ele levou o elenco em pleno Ramadã para uma partida das Eliminatórias em Moçambique, marcada pela seleção local para 15h. "Consultamos vários médicos e tentamos amenizar os problemas com o jejum. Chegamos a convencer os atletas a pelo menos bochechar água para ajudar. Usamos toalhas úmidas também", contou.

Treinador da Arábia Saudita na Copa de 2006, Paquetá disse que era necessário compreender as diferentes linhas religiosas dos atletas, como a divisão entre sunitas e xiitas. Em ocasiões mais decisivas, suas equipes procuraram autoridades religiosas para autorizarem os jogadores a cumprir o jejum em outras datas.

O ex-atacante Victor Simões atuou por quatro anos na Arábia Saudita e disse que no país o Ramadã é cumprido com rigor. "Os treinos do time eram transferidos para o período da noite. Logo depois do entardecer os jogadores faziam fila no refeitório para comer. Alguns até iam treinar depois, mas passavam mal", revela.

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Análise: 'O jejum do Ramadã não deve prejudicar a saúde'

Religião tem como pressuposto o respeito à integridade física e o respeito à decisão individual de acatar ou não a restrição

Ali Hussein El Zoghbi*, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2018 | 07h00

O Ramadã é um mês para, nós, muçulmanos abençoado, de devoção, onde temos uma multiplicação dos atos de caridade. É um período de purificação.

Os jogadores praticam uma tividade de alta performance e a gente sabe que isso provoca um desgaste muito grande. O Alcorão nos transmite que a pessoa que estiver viajando não tem necessidade de cumprir o Ramadã e poderá cumprir depois do retorno, em condições mais adequadas. Grande parte dos atletas estão viajando, então não precisam fazer o jejum.

Temos personalidades religiosas importantes no mundo islâmicos que falam que dado ao desgaste do esporte, as pessoas podem nesse momento não fazer o jejum. Pois aos olhos de Deus, a integridade física deve ser preservada. 

O jejum do Ramadã preconiza que não deve ser prejudicial à saúde humana. Se isso ficar comprovado, Deus estabelece que não se deve fazer o jejum se isso prejudicar. Por outro lado, o atleta tem livre arbítrio. Baseado na sua condição física e na sua vontade, estabelecer se deve ou não fazer o jejum. É muito uma intenção individual e a percepção clara de que não vai se prejudicar.

Os jogadores muçulmanos como Ozil, Fellaini e Pogba ajudam a quebrar estereótipos negativos sobre a religião. Fica a percepção bastante clara de pessoas totalmente comprometidas com a sua sociedade, os seus países, e ao mesmo tempo mostram o islamismo como uma religião de paz e de respeito às diferenças. Não existe uma conduta coercitiva. É muito mais uma conduta invididual do fiel quando ele opta.

* Vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras)

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