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Mesmo após intimidação de testemunha, Marin tenta barrar proteção a júri

Julgamento de cartola começa no dia 6 de novembro nos EUA

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2017 | 10h12

Advogados do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, tentam barrar um pedido de procuradores americanos para "sequestrar" os membros do júri que o julgarão a partir de novembro. No mês passado, os procuradores federais solicitaram a juíza da corte de Brooklin, Pamela Chen, que os membros convocados sejam blindados para evitar que sejam intimidados e que seus nomes sejam mantidos em anonimato. 

Para os procuradores, o júri deve ser anônimo e parcialmente fechado, depois que foram identificadas “tentativas de obstruir a Justiça e intimidar testemunhas”. Pela lei americana, esse anonimato apenas pode ser garantido por uma decisão da Justiça, considerando que existiria o risco de que fossem alvos de pressão popular, da imprensa ou dos envolvidos. Na avaliação do Departamento de Justiça, a cobertura midiática, além dos “interesses econômicos, penais e econômicos em jogo, resultaram em tentativas de obstruir a Justiça e impedir informação chegar ao governo e ao público”. 

Outro pedido é de que o júri seja “parcialmente sequestrado”, um termo usado para designar a necessidade de que seus membros não apenas não tenham os nomes revelados, mas que se reúnam de forma isolada. Enquanto estiverem julgando Marin, teriam um contato limitado com o mundo exterior e até comida teria de ser trazida ao grupo durante as deliberações. Casos recentes como o do comediante Bill Cosby contaram com tal medida de precaução. 

Pela proposta dos procuradores, os membros do júri terão de ser transportados de seus hotéis até a corte todos os dias por policiais. Eles, porém, não poderão ir a suas casas durante o julgamento, já que as autoridades temem que possam ser influenciados ou intimidados.

Os procuradores também alegam que tem registrado diversos casos de tentativas de obstrução de Justiça. Um dos acusados, Juan Napout, teria tentando de forma secreta remover aparelhos eletrônicos da sede da Conmebol, entidade que ele presidia. 

Quem contesta tal posição alega que o "sequestro" do juri pode criar uma impressão de que o acusado é perigoso e violento, o que não seria o caso de Marin. Existem também estudos que apontariam que tal atitude criaria uma pré-disposição do juri para condenar o acusado. 

Entre os diversos acusados, há ainda quem argumente que o excesso de publicidade que os procuradores alertam foi criado pelo próprio Departamento de Justiça ao promover o caso.  

Marin, que cumpre prisão domiciliar nos EUA, será julgado a partir de 6 de novembro por corrupção e lavagem de dinheiro. Ele foi preso em maio de 2015, em Zurique, e extraditado aos EUA. Dos mais de 40 indiciados, ele foi um dos três dirigentes de futebol envolvidos no escândalo a se recusar a admitir culpa e não assinar qualquer acordo com a Justiça americana. 

Na sexta-feira, numa carta à juíza federal, os advogados de Marin pediram que não fosse dado o status para os membros do júri. Para defender sua posição, o brasileiro argumenta que tal medida precisaria ser avaliada diante do risco potencial de que os membros do júri tenham certos preconceitos em relação ao tema e à situação. 

Segundo seus advogados, a cobertura ampla na imprensa de seu julgamento e a possibilidade de intimidação não são argumentos suficientes para justificar tal medida.  Qualificando a iniciativa como uma “medida drástica”, os advogados de Marin ainda alertam que a iniciativa de Napout não significa que ela tenha intimidade testemunhas.

Marin também acusou o Departamento de Justiça nos EUA de ser o responsável pelo interesse da imprensa internacional pelo assunto, já que publicou dezenas de comunicados. Para eles, agora de repente as autoridades não querem tal exposição.  

Na avaliação da defesa, não há indicações de que nenhum dos acusados tenha uma história de violência e, portanto, não haveria motivo para acreditar que poderiam fisicamente intimidar o júri. “Nada apoia a noção de que Marin apresenta um perigo ou ameaça de intimidação”, disse.

Marin é acusado de ter recebido propinas para conceder contratos na CBF para a Copa do Brasil, Copa América e Taça Libertadores. Marco Polo Del Nero, ex-braço direito de Marin e hoje presidente da CBF, também foi indiciado por corrupção. Por isso, não deixa o Brasil temendo ser preso. 

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