Conmebol / Divulgação
Jogadoras do time sub-16 do São Paulo comemoram no Paraguai o título da Libertadores da categoria Conmebol / Divulgação

Mesmo obrigados, clubes da Série A ignoram futebol feminino

Levantamento feito pelo Estado verificou que apenas oito camisas dos tradicionais times masculinos também já se encontram representadas por mulheres, regra que valerá a partir de 2019

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2018 | 07h00

A máxima diz que brasileiro deixa tudo para a última hora, e não poderia ser diferente entre os clubes de futebol do país. Com poucos meses para se adequarem a uma nova regulamentação da Conmebol, que exigirá de todos os times participantes das próximas edições da Libertadores e Copa Sul-Americana a manutenção de equipes femininas ativas sob o seu guarda-chuva, nem sequer metade dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro deste ano está enquadrada.

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Levantamento feito pelo Estado verificou que apenas oito camisas dos tradicionais times masculinos também já se encontram representadas por mulheres na categoria adulta: América-MG, Corinthians, Flamengo, Grêmio, Internacional, Santos, Sport e Vitória.

Em alguns casos, o processo ainda se encontra pela metade. O São Paulo, por exemplo, conta com um elenco sub-16 em parceria com a Adeco (Associação Desportiva Centro Olímpico), que inclusive acaba de ser campeão da Libertadores da categoria. O clube informou que nas próximas semanas vai constituir uma equipe principal nos mesmos moldes.

Caso semelhante vive o Vasco, que revelou a atacante Marta, eleita cinco vezes a melhor do mundo. Os cariocas têm somente atletas de base – elas representarão o clube no campeonato estadual, a partir de agosto. A diferença em relação ao São Paulo é que as jogadoras são do próprio Vasco.

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Se a gente tivesse de escolher, gostaria que isso não fosse uma obrigação, e sim uma atitude que partisse diretamente dos clubes
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Marta, eleita a melhor do mundo cinco vezes

A grande maioria, porém, ainda não avançou na adequação, como são os casos de Palmeiras, Atlético-MG e Fluminense. Consultados pela reportagem, os clubes, por meio de suas assessorias de imprensa, dizem estar em fase de estudos sobre o modelo a ser aplicado.

Associar-se a quem já abraça a modalidade não será proibido pela Conmebol, como fez na última temporada, por exemplo, o Corinthians, campeão da Libertadores feminina em parceria com o Audax – já neste ano, o time de Parque São Jorge optou por caminhar sozinho e vem jogando o Campeonato Paulista com elenco e estrutura próprias.

O que não será permitido de forma alguma, de acordo com CBF (Confederação Brasileira de Futebol), é outra característica também normalmente atribuída ao brasileiro: o jeitinho. Se o time classificado à Libertadores ou Sul-Americana não tiver mulheres disputando competições oficiais com sua camisa, estará vetado dos torneios da Confederação Sul-Americana.

"Até fiz comparação com a Lei do Passe, que, quando chegou, ninguém aceditou. Diziam: 'ah, isso aí, daqui a pouco, vai ter uma intervenção, vão dar um jeito'. Não, quem não tiver (time feminino) não disputa. É lei estabelecida, não tem essa de que vai pegar ou não", garante Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF.

Apesar da baixa adesão até aqui, ainda há tempo para os clubes se ajustarem, afinal, a regra só passa a valer a partir de 2019. O preocupante, no entanto, é observar que, desde o anúncio da Conmebol – e lá se vão mais de 18 meses –, houve pouca movimentação. O novo Estatuto e Regulamento de Licença de Clubes da entidade data de 13 de setembro de 2016. 

MEDIDA POLÊMICA - Quem batalha há tempos pelo desenvolvimento do futebol feminino torce o nariz para essa espécie de auxílio forçado, por mais que a medida, na prática, traga uma perspectiva de melhora à modalidade.

"No nosso país, as coisas para as mulheres têm de ser obrigação para os homens fazerem, porque quem manda no futebol brasileiro são os homens. Mas o resultado da obrigatoriedade vai ser positivo para a modalidade. Por serem equipes grandes, elas não vão querer ficar tomando de goleada dos rivais, e aí é onde vai haver o investimento. Por exemplo, o Santos hoje tem uma boa equipe. O Palmeiras não vai querer levar goleada do Santos ou do Corinthians", aposta Emily Lima, técnica das Sereias da Vila e ex-comandante da seleção brasileira.

"Infelizmente, teve de chegar a esse ponto. Se a Conmebol não exigisse, os clubes não se importariam muito em trabalhar com o futebol feminino", diz a meia Gabi Zanotti, do Corinthians.

A maior preocupação reside na possibilidade de, uma vez não classificado para os torneios da Conmebol, um determinado clube desfaça seu time feminino ou a parceria imediatamente após o término da temporada, no fim do ano, quando se definem as vagas para Libertadores e Sul-Americana. E retome o projeto apenas caso torne a disputar tais competições.

"O futebol feminino precisa criar um mercado. Mas isso passa pela organização da modalidade, e não apenas por medidas isoladas. Essa medida da Conmebol faz justiça pelo tempo de falta de apoio ao futebol feminino. Mas, isolada, não vai fazer a modalidade se desenvolver. Não basta só a regra, ela precisa estar alinhada com uma regulamentação", afirma Arthur Elias, treinador da equipe corintiana.

E LÁ FORA? - Enquanto os times brasileiros ainda avaliam de que forma pretendem se enquadrar nas normas da Conmebol, algumas das camisas mais pesadas da América do Sul já se encontram estabelecidas no futebol feminino: argentinos como Boca Juniors, River Plate, San Lorenzo e Estudiantes contam com equipes de mulheres disputando campeonatos ativamente. O mesmo se dá no Uruguai, com Peñarol e Nacional, e Colômbia, com o Atlético Medellín.

Apesar de barata, modalidade ainda carece de profissionalização

Investir no futebol feminino custa pouco, na comparação com as cifras astronômicas que envolvem a modalidade masculina. Gente ouvida pelo Estado calcula que, com orçamento anual entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, é possível montar um time bastante competitivo capaz de brigar por títulos, já incluindo nesse pacote gastos com logística, viagens, etc. A rejeição dos dirigentes, porém, está no retorno financeiro. Basicamente, o esporte é deficitário, mesmo em clubes já estabelecidos no cenário nacional.

Para se ter uma ideia, a equipe campeã brasileira da Série A1 recebeu da CBF premiação de R$ 120 mil. Entre os homens, o título rendeu mais de R$ 18 milhões. No caso dos times femininos, não há pagamento por direitos televisivos. As fontes de receita acabam sendo limitadas a patrocínio de camisa e, em raríssimos casos, direitos econômicos. Santos, Ferroviária e Iranduba-AM são exemplos de equipes que assinam a Carteira de Trabalho das atletas.

Por outro lado, o próprio Corinthians, que acaba de abrir mão da parceria com o Audax para investir em um time próprio, ainda registra suas jogadoras com vínculos não profissionais, conforme é possível verificar pelo BID (Boletim Informativo Diário) da CBF.

De acordo com a diretora do clube, Cristiane Gambaré, isto acontece porque o projeto do futebol feminino corintiano é bancado via Lei de Incentivo ao Esporte, que proíbe o pagamento ao esporte profissional. Ou seja, na prática, todas as jogadoras do time são amadoras.

"Isso é um ponto ruim, porque o Corinthians contratou algumas jogadoras e já as perdeu antes mesmo de treinar ou jogar, porque não tem vínculo com a atleta. Aí, vem os clubes da Europa que são profissionais, e levam, porque o valor é sempre muito maior do que no Brasil", analisa a treinadora do Santos, Emily Lima.

O clube da Baixada percebeu que poderia começar a ganhar dinheiro com suas Sereias da Vila, a exemplo do que já faz com as joias que despontam entre os homens. "Se você pegar um contrato de jogadora nossa, vai ver que ele é igualzinho ao do masculino. Então, a quebra de contrato gera multa, logo, receita ao clube", explica o gerente executivo do departamento de futebol feminino do clube, Alessandro Rodrigues, que vê na medida da Conmebol uma possibilidade de despertar nos rivais uma visão mais de mercado sobre a modalidade.

"A questão da obrigatoriedade em si não é o melhor dos mundos. Gostaria que outras equipes, assim como o Santos, tivessem a percepção de que a modalidade é importante, que pode dar retorno inclusive financeiro. Mas entendo que, em havendo essa obrigatoriedade, ela tende a contribuir para o desenvolvimento da modalidade como um todo."

Três peguntas para Maurine, 32, meia do Santos

Qual sua opinião sobre a determinação da Conmebol?

"Há tempos que lutamos pelo futebol feminino, e isso nunca aconteceu naturalmente, de os clubes terem interesse. Então achei legal, porque, se fosse partir naturalmente deles, não iria acontecer. Espero que possam manter também. Não é só montar para a Libertadores e, depois, desfazer o time. Que eles vejam que o futebol feminino em futuro, talento, e eles possam abraçar de verdade."

Por outro lado, há uma certa frustração por precisar ser algo imposto aos clubes?

"Não chega a ser uma frustração até porque já estamos muito acostumadas a lidar com essa dificuldade no país. Fiquei feliz porque só assim para os clubes terem iniciativa. A gente fica triste por ter de ser obrigado. Infelizmente, se não vai por bem, vai por mal, né?"

O que notou de evolução desde que começou a carreira?

"Ainda tem muito o que melhorar. Está engatinhando, estamos muito longe ainda de outros países. O Santos é um dos melhores clubes do futebol feminino. Tem visibilidade, um bom salário, boa estrutura, carteira assinada. Eu não tenho do que reclamar, mas já passei por outros clubes em que foi bem difícil"

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Atletas do futebol feminino no Brasil ainda jogam sem registro profissional

Dirigentes dos clubes grandes rejeitam gasto com a modalidade alegando falta de retorno financeiro

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2018 | 07h00

Investir no futebol feminino custa pouco em comparação com as cifras astronômicas que envolvem os homens. Pelo que o Estado apurou, com orçamento anual de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões é possível montar um time competitivo. A rejeição dos dirigentes, porém, está no retorno financeiro. Basicamente, a modalidade é deficitária, mesmo em clubes já estabelecidos no cenário nacional.

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Para se ter uma ideia, a equipe campeã brasileira da Série A1 recebe da CBF algo em torno de R$ 120 mil de prêmio. Entre os homens, o título rendeu mais de R$ 18 milhões ao Corinthians na última temporada.

No caso dos times femininos, não há pagamento por direitos televisivos. As fontes de receita acabam sendo limitadas a patrocínio de camisa e, em raríssimos casos, direitos econômicos. Santos, Ferroviária e Iranduba-AM são exemplos de equipes que assinam a Carteira de Trabalho das jogadores.

Por outro lado, o próprio Corinthians, que acaba de abrir mão da parceria com o Audax, de Osasco (SP), para investir em um time próprio, ainda registra as suas atletas com vínculos não profissionais, conforme é possível verificar pelo BID (Boletim Informativo Diário) da CBF. De acordo com a diretora Cristiane Gambaré, isto acontece porque o projeto do futebol feminino corintiano é bancado via Lei de Incentivo ao Esporte, que proíbe o pagamento ao esporte profissional. Ou seja, na prática, todas as jogadoras do elenco são amadoras.

"O Corinthians contratou algumas jogadoras e já as perdeu antes mesmo de treinar ou jogar. Perdeu porque não tem vínculo com elas. Aí vem os clubes da Europa que são profissionais e levam mesmo", analisou a treinadora do Santos, Emily Lima.

O clube da Baixada Santista percebeu que poderia começar a ganhar dinheiro com suas Sereias da Vila, a exemplo do que já faz com as joias que despontam entre os homens. "Se você pegar um contrato de jogadora nossa, vai ver que ele é igualzinho ao do masculino. Então, a quebra de contrato gera multa, logo, receita ao clube", explicou o gerente executivo Alessandro Rodrigues.

"A questão da obrigatoriedade em si não é o melhor dos mundos. Mas entendo que, em havendo essa obrigatoriedade, ela tende a contribuir para o desenvolvimento da modalidade como um todo", disse Alessandro Rodrigues.

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