Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

Meu irmão negro

Zuza era pardo, como tantos atletas da seleção, daquele tom meio aqui meio ali. E eu nunca havia pensado nisso. Até agora

Maitê Proença, atriz

05 Julho 2018 | 04h00

Tive um irmão negro. Não era suficientemente negro talvez, era como a cantora Fabiana Cozza, filha de pai negro com mãe branca, que se viu obrigada a abrir mão do papel de Dona Ivone Lara num musical para o qual havia sido testada e aprovada - pela família da sambista - por não ter a pele suficientemente escura. Aconteceu há semanas. O desabafo da moça, torturada pela patrulha dos “irmãos”, foi de perplexidade por ter “dormido negra e acordado branca”. A questão do colorismo é legítima, mas a lógica dos irmãos parece às vezes bater de frente com a sua razão de ser. 

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Voltando ao meu irmão, Zuza era pardo, como tantos atletas da seleção, daquele tom meio aqui meio ali. E eu nunca havia pensado nisso. Até agora. Em 60 anos, jamais fiz qualquer consideração sobre a cor da pele de meu irmão. Nunca me ocorreu que ele fosse mais escuro do que eu. Zuza era apenas o irmão amado que morreu cedo demais por não ter aguentado o desmantelar da família, entre outros sofrimentos, que afligem, de forma igual, pessoas de todas as cores. Tenho pra mim que sua morte se deu por não ter superado a frustração com seu sonho maior, o de ser jogador. E é por isso que falo nele, e não pela questão da pele, de que só me apercebi agora, porque tem se tratado muito disso e me surpreendi também pensando em cores e tons. 

Morávamos perto do campo do Guarani, em Campinas, e houve época em que dava pra subir pelas paredes e assistir aos jogos empoleirados nos muros do estádio. Pequena, acompanhava o irmão mais velho e, ali do alto, ele ia me explicando os lances cheio de gás e vontade de descer e mostrar seu jogo. Um dia, Zuza foi convidado pra integrar o juvenil do time e chegou em casa eufórico para contar a novidade. Chumbo.

Meu pai não deixou. Zuza tinha de estudar, futebol era lazer, estava fora de questão.

 

O pai foi irredutível e acho que aquele entrave nunca desceu. Meu irmão virou um homem incompleto que, após a morte de minha mãe e de meu pai, deu-se também por encerrado, e interrompeu seu desconsolo, bebendo tanto que morreu em quatro meses. Afogou-se.

Zuza era lindo, tinha cor de jogador, corpo de jogador e pernas gloriosas. Penso que se o pai não tivesse inibido seus desejos, teria sido um Cristiano Ronaldo, um Neymar, um Pelé!

Era mais velho que eu uns oito anos. Meu pai o pegou pra criar antes de casar. Em início de carreira, Eduardo foi promotor público em Ubatuba. O pai legítimo do Zuza, caiçara e servente de pedreiro, chegou no escritório do promotor, com sete crianças e disse: Dr., minha mulher morreu e deixou essa filharada que não tenho como alimentar. O senhor vai ter de me ajudar. Eduardo olhou os pirralhos e disse: Pra começo, você já pode me entregar aquele ali. E o servente deu o Zuza pro pai. Eduardo casou com nossa mãe e, quando eu nasci, Zuza vivia lá em casa. 

Zuza era craque em tudo que havia de importante: sabia catar caranguejo no mangue, sabia remar nossa canoa (só minha e dele) do rio até o mar, sabia fazer balão, empinar as pipas. Zuza fazia o melhor estilingue e sempre acertava os pássaros. Quando eles não morriam, sabia cuidar pra que renascessem. Zuza me ensinava. Era o maior! Quando vejo Coutinho, Willian, Firmino e Neymar enfeitiçando a bola, me lembro do Zuza, me encho de orgulho, e me tomo de esperança pela graça diversa do Brasil.

*MAITÊ PROENÇA É ESCRITORA E ATRIZ

 

 

 

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