Divulgação/Goiás
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Michael supera fantasma do tráfico de drogas para virar a revelação do Brasileirão

Atacante de 22 anos do Goiás tem nove gols na competição e se inspira em passado na várzea

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2019 | 17h00

O atacante Michael, do Goiás, comemora até hoje quando precisa escapar das faltas dos marcadores, tem de passar sozinho por vários zagueiros ou é obrigado a encarar a dura rotina de treinos de um jogador profissional. Para quem escapou de ser assassinado, teve envolvimento com o tráfico de drogas e foi dispensado de clubes pequenos várias vezes, ter virado uma das revelações do Campeonato Brasileiro aos 22 anos é um prêmio tão grande que qualquer dificuldade atual é irrelevante.

O artilheiro do Goiás que hoje em dia contabiliza nove gols no Brasileiro e dezenas de dribles por pouco não trocou tudo isso por uma estatística trágica: a de ser vítima do tráfico de drogas. Antes de consolidar a carreira, Michael foi usuário e vendedor de drogas. O pequenino atacante de 1,66m resolveu mudar de vida em 2016, após quase ser baleado por um traficante. Um tiro quase o acertou.

"Graças a Deus consegui me afastar do caminho errado. Não tenho orgulho do que fiz. Hoje digo que sou um milagre, o impossível que se tornou possível", disse ao Estado. O susto fez o jogador se apegar à religião e torcer por uma nova chance no futebol. Michael havia quase desistido de vez de seguir a carreira, pois colecionava mais dispensas do que feitos positivos pelos clubes onde havia atuado. "Diziam que eu era muito pequeno", explicou.

Por isso, o jogador precisava compensar o desemprego e a falta de dinheiro com atividades ilícitas. O tráfico foi uma delas. Michael também abusava do álcool, mas nunca ficou longe de futebol. O talento para driblar sempre lhe rendeu convites para atuar em jogos na várzea de Goiânia, geralmente em campos de terra na periferia.

Michael sempre reforçava os times, em troca de dinheiro. Às vezes chegava a participar de oito jogos em um fim de semana para conseguir arrecadar o máximo possível. Por isso, atualmente ele não considera tão assustador assim ter de entrar em campo e disputar uma partida importante.  

"O mais difícil foi quando eu tinha que jogar três ou quatro partidas em um dia no terrão pra conseguir juntar algum dinheiro. O melhor eu digo que é toda vez que eu posso entrar em campo sou muito feliz fazendo o que faço. Já é muito mais do que eu imaginava anos atrás", contou.

A nova chance para Michael veio em 2016, meses depois de quase ser assassinado. O pequeno Monte Cristo, da terceira divisão goiana, apostou no atacante. A carreira dele decolou de vez. Logo depois ele se destacou pelo Goianésia no Campeonato Estadual de 2017 e meses depois foi contratado pelo Goiás. Um sonho realizado.

O passado difícil não foi esquecido por Michael. O destaque do Brasileirão afirma que os jogos na várzea lhe ensinaram muito. "É a questão da superação. As dificuldades aparecem ali no terrão e você tem que se virar. No improviso, na habilidade, do jeito que der", comparou. O atacante não passou pelas categorias de base de nenhum clube. A formação veio nos campos da periferia.

Atualmente o contrato dele com o Goiás tem multa rescisória de R$ 50 milhões. O clube não quer perder facilmente um atacante autor de jogadas tão bonitas como a vista na quarta-feira, contra o Inter. Michael recebeu a bola no meio-campo, driblou dois e fez o gol.  

O técnico do Goiás, Ney Franco, já defendeu publicamente a convocação do jogador para a seleção olímpica, mas teme perdê-lo para outras equipes. Michael evita comentar sobre as especulações de saída. 

"Tenho uma gratidão muito grande pelo Goiás e meus representantes sabem disso, então será feito o que for bom para o Goiás e para mim", diz o jogador. Quem sabe em 2020 o atacante vai começar a driblar com a camisa de outro time.

RODADA

Dois times promovidos da Série B do ano passado fazem neste domingo, em Goiânia, um confronto direto de quem sonha com vaga na Copa Libertadores do próximo ano. O Goiás recebe o Fortaleza às 16h no Serra Dourada.

As equipes começaram a vislumbrar objetivos maiores no Brasileiro após crescerem no segundo turno da competição. Se for levada em consideração apenas a metade final, o Goiás teria a sexta melhor campanha. O Fortaleza seria o oitavo colocado. O Goiás precisa torcer por tropeços do Inter para terminar o Brasileiro no G-8 e terá nos jogos finais adversários sem grande objetivos no campeonato. Após receber o Fortaleza, a equipe do técnico Ney Franco encara em Campinas o Palmeiras e encerra o ano ao receber o Grêmio, time que já está garantido na Libertadores.

O Goiás disputou uma vez o torneio continental, em 2006, e chegou até as oitavas de final. O Fortaleza, do técnico Rogério Ceni, sonha com a perspectiva de disputar pela primeira vez um torneio internacional. A vaga na Libertadores dependeria de uma combinação de resultados, mas o objetivo de disputar a Sul-Americana está mais perto. 

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