Michel joga para ficar e pelos filhos

O São Paulo joga também para melhorar sua posição no Campeonato Brasileiro. Michel, não. Sua aposta é bem maior. "Jogo pelo recomeço da minha vida. Tenho de aproveitar essa chance que recebi, sem esperar."Depois de um início promissor no Santos, foi pego em um exame antidoping. Maconha. Nunca mais se firmou. Saiu do Grêmio em agosto e estava há nove meses sem atuar quando sua vida recomeçou.No dia 18 de maio, Michel ligou para uma pizzaria de Santos, com sistema de entrega. Pediu uma pizza metade mussarela e a outra metade frango com catupiry. Junto com a mulher Camila - muito emocionada - comemorava sua volta ao futebol. Era atleta do São Paulo.Hoje, depois de atuar contra o Cruzeiro, contra o Paysandu, contra o Tigres e o Botafogo, ele tenta provar que o contrato de três meses que assinou foi de risco apenas para ele. Não para o clube. "Eu olho para trás, vejo tudo o que ocorreu na minha vida e não tenho dúvidas de que daqui para a frente tudo vai ser melhor. Vou conseguir mais do que já fiz."Tem motivos para isso. "Meu grande erro foi não dar valor ao que conquistei. Não saber como era importante ser um atleta profissional de um time grande. Os erros acabaram. Tudo será diferente."A reestréia foi contra o Cruzeiro, dia 28 de maio - inesquecível. "A emoção que senti no jogo contra o Cruzeiro, quando o Autuori mandou que eu me aquecesse, foi demais. Estava em campo de novo, com a camisa de um grande time. Isso não tem preço. Nunca mais quero perder essa emoção."Michel diz que não desaprendeu a jogar futebol. "Só tenho a crescer, a torcida pode apostar. Comecei como meia, tenho qualidades técnicas e sei marcar duro. Trabalhei com o Autuori no Santos e ele sabe do meu valor. Os companheiros confiam em mim. Só depende agora do meu futebol."A dura rotina de um jogador - treinos, jogos, mais treinos e mais jogos - agora é considerada como uma bênção para ele. Difícil mesmo é ficar parado, treinando em academia, como ele ficou. "O dinheiro não entra, só sai. A gente fica apreensivo. Não precisei abrir mão do que havia conseguido, mas tive de tomar cuidado, gastar o mínimo possível."Ele passava os momentos de folga - quando não estava na academia - vendo jogos pela televisão. "Via jogadores novos ganhando espaço, mas ficava alegre de ver quase todos os meus companheiros empregados. Aprendi que futebol é dinâmico, tem de agarrar as chances. E foi o que eu não fiz."Michel conta que não foi vítima da depressão. "Sei que sou competente e esperava uma chamada a qualquer momento. Além disso, me agarrei bastante aos meus filhos."São trigêmeos, prestes a completar um ano. Manuela, Pietra e Guilherme, que chegaram no momento mais duro da carreira de Michel. Juntaram-se a Beatriz, de cinco anos. Um quarteto que empresta ao jogador, de 27 anos, a aura de um responsável chefe de família. "Por isso é que cada jogo vale muito para mim. Quero dar muito a eles. Quero recuperar o que perdi e fazer sucesso no São Paulo."

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