Midiático, Ronaldo deixa gramados com fortuna e poder

Melhor jogador do mundo em três ocasiões, Ronaldo deixa os gramados ainda sendo um fenômeno de marketing e na arte de juntar dinheiro. Apesar do estilo de vida boêmio e dos arranhões na sua imagem, estima-se que o atacante se aposenta dos gramados tendo acumulado, fora deles, uma fortuna de R$ 1 bilhão. Um novo parâmetro para o futebol.

DEMÉTRIO VECCHIOLI, Agência Estado

14 de fevereiro de 2011 | 14h04

A força de marketing do Fenômeno pôde ser vista na "luta do século", entre Anderson Silva e Vitor Belfort, no UFC 126, há uma semana. Ainda no ringue, após uma luta muito aguardada em todo o mundo, o campeão dos pesos médios vestiu a camisa 9 do Corinthians e comemorou a vitória histórica lembrando a Ronaldo que eles "estavam juntos". O "Spider", como é conhecido Anderson, é o primeiro atleta a fechar contrato com uma empresa aberta por Ronaldo para prestar consultoria de marketing a grandes atletas. Muitos deverão vir por aí.

Essa forte relação com o marketing - e com as manchetes - começou já pelo Cruzeiro. Em 1994, ainda em Minas, Ronaldo assinou o seu primeiro contrato com o que hoje é a Ambev. O acordo vem desde então e ajuda a fazer do craque, ainda hoje, um dos atletas mais bem pagos do mundo. Nem mesmo os escândalos em que ele se meteu no final da carreira conseguiram atrapalhar a relação comercial entre o atacante e seus patrocinadores.

Outro longo acordo que tinha, desde os tempos da Inter de Milão, com uma operadora de celulares, acabou ruindo depois que o craque se envolveu em um escândalo com travestis, no Rio de Janeiro, em 2008. Não tardou para Ronaldo dar a volta por cima, assinar com uma concorrente, e passar a ter uma das contas de Twitter mais seguidas do mundo - levando o nome da patrocinadora.

CRAQUE DOS MILHÕES - A trajetória do craque, aliás, sempre foi acompanhada de cifras. A única pequena foi a da sua venda do São Cristóvão para os empresários Reinaldo Pitta e Alexandre Martins, que compraram o jogador por US$ 7,5 mil, em 1992, quando ele tinha 15 anos. Por US$ 50 mil, o venderam ao Cruzeiro, que, um ano depois, antes mesmo de Ronaldo fazer sua primeira partida oficial pelo time profissional, já recebia uma proposta de US$ 500 mil da Inter de Milão.

A ida para o PSV, aos 17 anos, rendeu ao clube mineiro a expressiva cifra de US$ 6 milhões, um recorde para os padrões brasileiros de então. Na Holanda, após uma primeira temporada fantástica, sofreu em, em fevereiro de 1996, a sua primeira cirurgia no joelho direito, passando por uma raspagem. Voltou ao time antes do que devia e começou a pôr em risco o seu desempenho físico. Ainda fora da melhor forma, ficou no banco na final da Copa da Holanda. Irritado, deixou o clube rumo ao Barcelona, por US$ 20 milhões.

Na Catalunha, foi ídolo, ganhou o apelido de Fenômeno, mas também não saiu por cima. Foi negociado com a Inter após apenas uma temporada, extra oficialmente porque não teve o pedido de aumento salarial atendido pela diretoria do clube catalã, até então afundado em dívidas. Como sua multa rescisória era relativamente baixa perante seu valor de mercado e sua condição de melhor do mundo, pôde fazer um leilão salarial até acertar com a Inter de Milão, que pagou com prazer a multa de US$ 32 milhões, mais de cinco vezes mais do que o jogador valia três anos antes. E 64 vezes mais do que há quatro temporadas à época.

Na Copa do Mundo de 1998, na qual chegou como grande estrela e saiu como o principal culpado pela derrota na final para a França de Zidane, Ronaldo já tinha quatro grandes patrocinadores pessoais. Por um deles ser a marca de material esportivo que fazia os uniformes da seleção, o craque acabou entrando de gaiato no seu primeiro escândalo. Boatos maldosos afirmavam que o jogador entrou em campo na decisão no Stade de France por imposição da patrocinadora e que isso teria permitido a derrota brasileira. A imagem do astro começava a ser manchada.

Na Inter de Milão, viveu a pior fase de sua vida como jogador. Duas lesões seguidas no joelho direito o tiraram de combate por praticamente dois anos. Em três temporadas, só conseguiu entrar em campo 24 vezes. A torcida, lógico, se incomodou e Ronaldo acabou acertando sua ida para o Real Madrid, pelo qual seria o terceiro galáctico (Figo e Zidane já estavam lá). Depois, chegaria Beckham.

O fenômeno de marketing, porém, não começou bem a temporada em Madri. Não balançava as redes como de frequência e via a torcida preferir Morientes ou Guti, talimãs do Real. Até que, nas quartas de final da Liga dos Campeões, em 2003, Ronaldo calou todos os críticos de uma só vez. Fez três gols em Old Trafford e classificou o tie de Madri à semifinal do torneio. Não tinha o que falar.

Ronaldo, porém, viveu uma sina: estava quase sempre no "clube errado". Enquanto defendia o PSV, o Ajax foi campeão holandês e da Europa. No Barcelona, viu o Real ganhar o Espanhol. Foi para a Inter de Milão no maior período de jejum de títulos italianos da equipe. Chegou a Madri depois que o Real havia conquistado três Ligas dos Campeões em cinco anos. Ficou lá quatro temporadas e só faturou um Espanhol - o Barça foi bi e ainda faturou uma Champions League.

Só deu "sorte" no Milan, clube no qual chegou, já com problemas de sobrepeso, no meio da temporada 2006/2007. Em Milão, viu seu time ser campeão da Liga dos Campeões, mas não participou da campanha, pois já havida defendido o Real na competição. A chegada ao Milan, aliás, coincidiu com o começo da hegemonia da Inter no futebol italiano.

ESCÂNDALOS E BELAS MULHERES - Depois de sair pela portas dos fundos do Milan, de graça e machucado, começou a treinar no Flamengo, em setembro de 2008. Foi sondado pelo clube do coração, mas não chegou a receber uma proposta oficial. A passagem pelo Rio, aliás, acabou marcada por um escândalo. A travesti Andréa Albertini acusou o jogador de não ter pago um programa e levou a notícia para a manchete dos jornais.

Relacionamentos foram presença constante na carreira do jogador. A primeira bela mulher de destaque foi a modelo Nádia França. Depois, engatou relacionamento com a então atriz Susana Werner, atual esposa do goleiro Julio Cesar. Em 2000, Ronaldo se casou com a jogadora de futebol Milene Domingues, mãe de Ronald, primeiro filho do atacante. O casamento durou três anos.

Em 2005, casou-se de novo, com todas as pompas possíveis. A companheira foi a bela modelo Daniella Cicarelli. A união durou apenas três meses. Em seguida, o craque engatou relacionamentos com a modelo Raica Oliveira e com sua atual esposa, Bia Anthony, com quem ele tem duas filhas: Maria Alice e Maria Sophia. No final do ano passado, o craque assumiu mais um herdeiro, Alex, filho de uma garçonete brasileira com quem Ronaldo se relacionou em uma excursão do Real Madrid ao Japão.

Por conta das mulheres, Ronaldo voltou a ser manchete após passar uma noite em uma casa de prostituição em Presidente Prudente, chegar atrasado à concentração corintiana - que pegaria o Marília na sequência -, e causar a demissão de seu colega de balada: o diretor de futebol Antônio Carlos.

Nem esses arranhões, porém, foram suficientes para prejudicar a relação entre Ronaldo, Corinthians e patrocinadores. No clube paulista, o craque chegou com salário muito alto para os padrões brasileiros, mas que acabou sendo compensado pelo retorno financeiro que a equipe tinha ao explorar a imagem do craque. Com Ronaldo como garoto-propaganda, a camisa alvinegra ganhou anunciantes até nas axilas e atingiu arrecadação recorde.

EMBAIXADOR - Ronaldo encerra a carreira sendo ainda uma figura mundialmente conhecida. Embaixador da ONU, a Organização das Nações Unidas, é recebido por chefes de Estados em todo o mundo. Seu verbete na Wikipedia era traduzido, até esta manhã, em 65 línguas, quatro a menos que outro astro mundial, David Beckham, e seis abaixo dos 71 idiomas que explicam quem é Pelé.

O jogador tem sido ainda o anfitrião no Brasil de algumas das grandes estrelas mundiais que visitam o País. No ano passado, recebeu o ator Hugh Jackman, o Wolverine dos cinemas. Há algumas semanas, abriu as portas de sua casa para as estrelas Ashton Kutcher e Demi Moore, que desembarcaram em solo brasileiro por conta da São Paulo Fashion Week.

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