Susana Vera/Real Madrid
Vinicius Junior deixou o Flamengo aos 18 anos para jogar no Real Madrid Susana Vera/Real Madrid

Milionárias, vendas de revelações ajudam clubes a pagar contas

Mercado brasileiro pode receber só neste ano R$ 1 bilhão por transferências; valor chega a ser 20% da receita das equipes

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2018 | 17h00

A base tem pago boa parte das contas do futebol nacional, e dado um alívio nas gastanças dos clubes. Revelar e vender sempre esteve no DNA dos dirigentes brasileiros. Recentemente, passou a ser uma necessidade. A janela de transferências para o mercado internacional é um dos períodos mais importantes para as diretorias negociarem jovens talentos e, assim, compensarem o excesso de débitos ao longo das temporadas. Apesar de os times diversificarem receitas, negociar atletas ainda é a principal forma de encher os cofres.

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Pelo menos nestes sete primeiros meses do ano, o balanço é bastante positivo para as equipes do País. As transferências feitas de jogadores de até 21 anos rumo a times estrangeiros envolveram a cifra aproximada de R$ 810 milhões. O número é do site alemão Transfermarkt, especializado no mercado de contratações. Grande parte desse montante foi investido em garotos como Rodrygo (Santos), Vinicius Junior (Flamengo) e Fernando (Palmeiras). Ou seja, meninos recém-saídos na base.

Como ainda temos mais alguns meses de janela aberta, é possível que 2018 atinja cerca de R$ 1 bilhão injetados no futebol brasileiro – na média, contratações de jovens que tiveram pouco tempo para consolidar seus nomes no País. O atacante Róger Guedes, de 21 anos, partiu para a China quando liderava a artilharia do Brasileirão. Estava no Atlético-MG, que o comprou do Palmeiras meses antes.

Os valores das negociações são significativos principalmente pelo quanto impactam na finança dos clubes. Segundo estudos da agência de marketing esportivo Sports Value, até 20% das receitas dos times dependem da venda de jogadores.

A fatia pode ser ainda maior caso os cartolas brasileiros consigam valores melhores na hora de negociar. "O jogador é a única receita extraordinária para os clubes. Patrocínio e contratos de televisão, por exemplo, são acordos fechados e combinados para serem estendidos por anos ou períodos. Por isso, vender atleta acaba como uma salvação para as equipes", explica o sócio diretor da Sports Value, Amir Somoggi, que analisa há 15 anos finanças dos clubes.

As transferências deste ano mostraram uma diferença em comparação às tradicionais saídas de atletas a cada temporada. Os europeus vieram sedentos por menores de idade. O Real Madrid investiu cerca de R$ 330 milhões em Vinicius Junior e Rodrygo, atacantes que tiveram as contratações fechadas antes de completarem 18 anos. Com Paulinho, ex-Vasco, foi parecido. O Bayer Leverkusen teve esperar o menino atingir a maioridade, em julho, para fazer o acerto de R$ 85 milhões.

A situação é bem diferente da vivenciada no Brasil na última década. As maiores revelações da época foram vendidas com mais idade. Robinho, por exemplo, deixou o Santos e foi para o Real Madrid em 2005 aos 21 anos, mesma idade da despedida de Kaká do São Paulo rumo ao Milan, dois anos antes. Neymar também saiu aos 21, em 2013, após o time da Vila Belmiro tentar segurá-lo ao máximo.

Os clubes brasileiros se planejam contando com algumas transferências na temporada. Cuidam do assunto com afinco. Na hora de elaborarem as previsões orçamentárias, citam o valor esperado a ser arrecadado com as vendas. O Corinthians trabalha dessa maneira. No fim de 2017, o time estimou arrecadar cerca de R$ 50 milhões com a saída de atletas ao longo deste ano. O São Paulo apresentou uma meta mais ousada: R$ 90 milhões com as negociações.

"Alguns clubes não sobrevivem sem a venda de jogadores, mesmo que a televisão seja a maior fonte de suas receitas. O dinheiro das transferências ajuda a tapar os buracos nas finanças", diz Somoggi. Mesmo se os times não quiserem negociar, acabam por ceder ao desejo dos atletas que pedem para sair.

"Não queremos vender ninguém, não estamos precisando disso, mas se o jogador quiser ir, não vamos segurar um atleta descontente. Isso acaba com o grupo. Quem quiser ir embora do clube, que bata na minha porta e fale. Aqui só vamos manter quem queira ficar", disse o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, sobre a perda recente de atletas para o exterior.

MOLDAGEM

Para empresários e dirigentes, essa procura por jogadores brasileiros cada vez mais cedo se justifica pelo planejamento. Clubes da Europa conseguem moldar e adaptar melhor os atletas ao estilo do seu time se já contarem com eles desde cedo. A pressa em contratar um garoto se explica também pela intensa concorrência entre os rivais estrangeiros por bons reforços.

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A procura de europeus por jogadores cada vez mais jovens não é fruto apenas da pressa e do capricho em ter um reforço antes de que algum rival o consiga. O precocidade nas transferências tem como um dos motivos o próprio sucesso do Brasil nas categorias de base, hoje mais estruturadas do que no passado.

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Nos últimos anos a CBF conseguiu organizar melhor o segmento. A criação de um calendário fixo, com competições regulares como Campeonato Brasileiro sub-20 e Copa do Brasil sub-20 e sub-17, possibilitou aos clubes desenvolver mais seus garotos. Eles despontam mais cedo. Além disso, como os torneios são mostrados na TV ou na internet, conseguem tornar os talentos mais conhecidos internacionalmente.

A seleção brasileira também acompanhou essa evolução ao contratar mais olheiros. Eles viajam pelo País e acompanham de perto essas competições. Antigamente, as convocações da base se baseavam na indicação de alguns treinadores. Agora, são formadas pela observação presencial das partidas. 

Para o diretor das categorias de base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, que tem experiência de mais de 20 anos na área, ver clubes europeus contratarem adolescentes com poucos jogos no profissional do Brasil será um processo cada vez mais frequente e comum. "O europeu viu que é melhor ele chegar antes da estreia desse atleta no profissional, principalmente devido à moeda brasileira. Para eles, sai muito mais barato, mais em conta, vir e pagar uma quantia agora. Depois que o jogador estrear como profissional, o valor aumenta", diz.

O Palmeiras é o clube brasileiro que mais conquistaram títulos nas categorias de base no último ano e também o time que mais teve atletas convocados para seleções de base. O clube passou por uma reformulação recente no departamento inferior, processo também realizado por outras equipes do País.

"Houve no Brasil um investimento dos clubes em relação à estrutura, com número maior de pessoas, de olheiros. Os clubes europeus têm uma rede enorme de observadores e gostam dos jogadores brasileiros porque são diferenciados, porque driblam muito", explicou.

A solução dos clubes brasileiros contra a procura estrangeira é oferecer contratos vantajosos ao garoto e incentivar nele o desejo de escrever uma história bonita no time que o formou. "Tentamos fazer com o que clube se proteja e possa ganhar lá na frente com a venda. Mas é inevitável a saída", acredita o diretor palmeirense. 

 

 

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