Jonathan Nackstrand/AFP
Jonathan Nackstrand/AFP

Mina do futebol brasileiro finalmente encontra ouro

Há cerca de 15 anos, família Stival voltou suas atenções para o futebol e vasculha talentos, como Renan Lodi, hoje na Liga dos Campeões da Europa

Tariq Panja, The New York Times

11 de agosto de 2020 | 08h00

Em muitos aspectos, não há nada de extraordinário em Renan Lodi. Lateral-esquerdo do clube espanhol Atlético de Madrid, Lodi está entre as centenas de jogadores brasileiros que cruzaram o Atlântico para jogar por clubes europeus em competições de elite como a Liga dos Campeões.

Na verdade, mais de 50 brasileiros já disputaram a final da Liga. Lodi, de 22 anos, espera ingressar nesse grupo no final deste mês, quando o Atlético de Madrid e sete outros times da primeira linha se reunirem em Portugal para a conclusão do torneio deste ano, atrasada pela pandemia.

Mas, mesmo que Lodi ainda esteja a três vitórias de erguer o troféu, sua odisseia europeia já se mostrou lucrativa para a empresa que o descobriu numa distante escolinha de futebol quando ele tinha 13 anos. E também validou um curioso projeto de negócios construído em torno de investimentos num precioso e abundante produto de exportação brasileiro: o talento futebolístico.

Desde a década de 1970, a família Stival dirige uma bem-sucedida empresa de abastecimento de alimentos, uma das maiores do gênero no sul do Brasil, em Curitiba. Há cerca de 15 anos, a família voltou suas atenções para o futebol. Como milhões de famílias brasileiras, os Stival são apaixonados pelo esporte. Mas eles não puderam deixar de notar que os jogadores de futebol vinham se tornando, cada vez mais, commodities, comprados e vendidos por milhões de dólares, assim como as toneladas de feijão, arroz e grãos que os Stival negociavam todas as semanas.

Se os jogadores estavam virando commodities, pensaram os Stival, certamente poderiam encontrar uma maneira de ganhar dinheiro negociando-os. “A ideia era investir nesse negócio porque o Brasil sempre ganha dinheiro nesse ramo”, disse Rafael Stival em entrevista no ano passado, quatro meses antes de Lodi se juntar ao êxodo de mais de 300 jogadores que trocaram o Brasil por ligas estrangeiras em 2019.

No seu escritório no Trieste Futebol Clube - o time amador de Curitiba que serve de base para seus interesses futebolísticos - Stival, um homem corpulento de cabelos escuros e voz de barítono, contou como, depois de avanços precoces e incontáveis erros, ele tinha criado uma empresa para vasculhar o Brasil em busca dos talentos mais jovens, cultivando-os por um tempo no Trieste e, em seguida, fazendo com que fossem contratados pelos clubes profissionais de elite do país na primeira oportunidade.

Para Stival, que dirige a operação de futebol da família, investir em jogadores jovens é uma aposta de longo prazo, um processo que ele comparou a plantar sementes que um dia crescerão e se tornarão árvores frutíferas. E Lodi é seu maior sucesso até agora.

Descoberto em 2012 por um dos olheiros de Stival numa escola de futebol do interior de São Paulo (população: 44 milhões), Lodi, então com 13 anos, foi convidado a viajar a Curitiba para uma inspeção mais detalhada. Ele foi bem o bastante para ser contratado pelo programa amador de Stival e então passou a morar no centro de treinamento do Athletico Paranaense, logo após seu 14º aniversário.

No verão passado, aos 21 anos, ele se mudou para a Europa, numa transação que se destacou por seu tamanho (16 milhões de euros, pouco mais de US$ 18,8 milhões), mas também pelo seu destino: o Atlético de Madrid, um dos melhores clubes da Europa.

Numa entrevista na Espanha em agosto, Lodi disse que se lembrava bem daqueles primeiros dias no Trieste: a solidão, o medo, os telefonemas noturnos com seu pai, durante as quais ele implorava para voltar para casa.

Mas também se lembrou de como se alimentava melhor no Trieste e, depois, no Athletico Paranaense do que em casa. E também de como suas habilidades no futebol sempre foram mais do que uma carreira profissional. Seus pés determinariam o futuro de uma família inteira atolada na pobreza, algo que até mesmo um garoto de 13 anos conseguia entender.

“Sempre tenho esse objetivo na cabeça, sabe?”, disse ele após uma sessão de treinamento dias atrás. “Falei para mim mesmo: ‘vou ser o pai da família. Vou perseguir meus sonhos e vou tentar dar a eles um futuro melhor’”.

A transferência do ano passado concretizou esse sonho, mas também gerou um belo dinheiro para Stival, que ficou com 30% (cerca de 4,8 milhões de euros, ou US$ 5,6 milhões) do valor da transferência.

Rendimentos como este são a chave para as ambições de Stival no futebol e o motivo pelo qual ele contrata dezenas de jogadores jovens e os transfere rapidamente para um dos grandes clubes com os quais tem acordos de formação de atletas: quanto mais sementes ele planta, melhores suas chances de ver uma delas render frutos.

A transferência de Lodi para o Atlético de Madrid representou apenas a segunda transação de um jogador descoberto pela operação de Stival desde seu início, em 2005. Mas, nesse acordo, disse Rafael Stival, a família recuperou mais da metade de seu investimento total.

Numa entrevista no início do verão, Stival disse esperar que a taxa de vendas cresça agora que dezenas de seus recrutas subiram na cadeia alimentar do futebol. Mais de 100 jogadores que já passaram pelo Trieste agora estão inscritos em times profissionais, a maioria no Athletico Paranaense ou no Flamengo, o gigante carioca. Os dois clubes têm acordos de parceria que lhes conferem prioridade na compra dos jogadores do Trieste.

Stival tem um contrato separado com o Trieste, time amador de sucesso criado por imigrantes italianos no ano de 1937. Em troca de investir uma quantia considerável em suas instalações, sua família tem o direito de usar o clube como base para seu negócio de futebol por 20 anos, contrato que expira em 2025. Esse investimento também permite que Stival receba uma parcela dos valores de transferência porque, de acordo com os regulamentos de transferências internacionais, apenas as equipes podem lucrar com as vendas dos jogadores.

Sentado diante de sete grandes mapas de estados brasileiros, Stival explicou como os jogadores são descobertos. Cerca de meia dúzia de olheiros - entre eles o próprio Stival - partem em missões de meses pelo interior do Brasil e assistem a centenas de jogadores ao mesmo tempo. Dicas sobre prodígios locais vêm de uma rede de técnicos e professores, boato que levou Stival a algumas das regiões mais remotas do país, incluindo, certa vez, uma reserva indígena.

Por cinco anos o Trieste manteve um acordo de exclusividade com o Athletico Paranaense, uma das duas maiores equipes profissionais de Curitiba, cidade de 1,8 milhão de habitantes. Mais de 60 jogadores, entre eles Lodi, haviam se mudado do Trieste para as instalações do Athletico, agora entre as melhores do Brasil, antes de o contrato ser abruptamente encerrado em 2018. O Athletico Paranaense, disse seu presidente em mensagem pelo WhatsApp, simplesmente decidira conduzir por si próprio boa parte do trabalho de suas divisões de base.

A decepção de Stival durou pouco. Menos de 24 horas depois, disse ele, dirigentes do Flamengo chegaram em seu gabinete para conversar sobre os termos. Um acordo foi assinado e agora as maiores promessas do Trieste seguem para o Rio.

Mas no ano passado aconteceu um desastre. Um incêndio atingiu um dormitório temporário do centro de treinamento do Flamengo que abrigava um grupo de jovens esperançosos, matando dez, entre eles três meninos que tinham vindo do Trieste. As mortes lançaram luz, tardiamente, sobre a maneira como o Brasil, o maior exportador mundial de talentos futebolísticos, cuida dos milhares de meninos e jovens que entram no oleoduto do futebol na esperança de vencer suas adversidades.

Exemplos perturbadores logo surgiram em outros clubes: dormitórios apertados, condições perigosas, supervisão deficiente. As autoridades fecharam as piores instalações e prometeram mais supervisão.

No Trieste, porém, algo estranho aconteceu. Pais esperançosos, agora cientes da ligação do clube com a academia de juniores do Flamengo, começaram a entrar em contato. Será que o clube, perguntavam eles, poderia avaliar seus filhos também?

Ali, naquela hora, Stival só conseguiu balançar a cabeça. Um ano depois, com os rendimentos de Lodi, as operações do Trieste continuam a se expandir. O Flamengo recrutou mais de 30 jogadores de Stival para suas categorias de base nos últimos 18 meses, e aqueles que não encontram lugar são mandados para outro lugar. Seus investimentos, espera ele, ainda podem gerar mais um bom dinheiro. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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