Yuri Edmundo/ Reuters
Yuri Edmundo/ Reuters

Mineirão é reprovado na volta do torcedor em jogo do Atlético e pode ter portões fechados de novo

'Esse jogo era um evento-teste. E não passou no teste. As cenas que vi me deixaram horrorizado. Eu não tenho nenhum receio de voltar atrás e fechar tudo de novo", disse o prefeito de BH, Alexandre Kalil, em relação à covid-19

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 09h42

O Mineirão foi reprovado no teste da volta do público na partida de Atlético-MG 3 x 0 River Plate, pelas quartas de final da Libertadores. Quem fez essa avaliação foi o prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do clube, Alexandre Kalil, responsável em autorizar a presença de torcedores no estádio depois de mais de um ano vazio por causa da pandemia da covid-19. Kalil não gostou do que viu na imediações do campo. E deixou claro que pode mudar de ideia e voltar a trancar os portões do Mineirão, onde também joga o Cruzeiro pela Série B do Brasileiro.

"Esse jogo do Galo era um evento-teste, conforme acordado com o Mineirão e com a diretoria do Atlético. E não passou no teste. As cenas que vi ontem me deixaram horrorizado. Eu não tenho nenhum receio de voltar atrás e fechar tudo de novo", disse Kalil, referindo-se à aglomeração na entrada e saída do torcedor mineiro.

A administração do estádio registrou público de 17.030 pessoas e uma renda de R$ 2.685.042,00. O preço médio do ingresso foi de R$ 157,66. O torcedor estava ansioso pela volta ao futebol e não mudou nada de como era antes. Bebeu, comeu e festejou na parte de fora do Mineirão, enquanto esperava pelo início da partida.

De acordo com a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), as cidades-sede dos jogos da Libertadores e Sul-Americana têm a prerrogativa de liberar a presença de público para os confrontos que ela organiza. Foi um acordo com a CBF e com as secretárias de saúde. O Flamengo também teve 11 mil torcedores na partida contra o Olimpia, no Estádio Mané Garrincha.

O prefeito de Belo Horizonte foi além em suas declarações. "Essas cenas de aglomeração não vão acontecer de novo. A gente quer que tudo volte ao normal, mas as pessoas precisam contribuir. Ter juízo. Como foi nesta quarta, não vai acontecer de novo." Com o resultado, o Atlético chegou à semifinal da Libertadores. Vai enfrentar agora o Palmeiras, em partidas de ida e volta no próximo mês. O time também lidera o Brasileirão. Seu torcedor está empolgado.

"Do jeito que está não vai ter, não. Primeiro, foi bom o resultado, todo mundo sabe, nunca escondi meu coração atleticano para ninguém, mas quando eu vi aquela cena no Mineirão eu desesperei, ontem mesmo entrei em contato com o secretário de Saúde (Jackson Machado)", disse Kalil em entrevista ao Bom dia Minas, da Globo.

"A população tem de entender, a gente quer melhorar, quer ajudar, fazer tudo para melhorar para compensar tudo o que todo mundo passou, mas quem pode colaborar não colabora. Não foi isso que foi combinado, eu vi torcida organizada lá que pelo preço do ingresso não poderia estar lá. Estão enganados quem acha que 'é o Atlético, ele não vai fazer'. Não vai fazer, uma ova. Fizeram um desaforo e um desrespeito ao prefeito de Belo Horizonte."

O prefeito de BH disse ainda que vai chamar o Cruzeiro antes da estreia da torcida no Mineirão, prevista para esta sexta-feira, no jogo contra o Confiança, para evitar que as aglomerações se repitam também nas cores azul e branco. "O que me entristeceu diante da minha alegria toda foram aquelas cenas horrorosas, irresponsáveis, porque o prefeito faz parte da irresponsabilidade, não estou jogando no colo de ninguém, porque o prefeito burro é que aceitou que eles iam cumprir o compromisso que eles tinham com a prefeitura", disse Kalil.

Adversário do Atlético-MG na semifinal, o Palmeiras rechaçou a possibilidade de jogar em outro estado para contar a presença de público no estádio. Nesta quinta-feira,  o presidente do clube, Mauricio Galliotte, afirmou que a equipe paulista irá mandar a partida de ida no Allianz Parque e vai aguardar a decisão de autoridades e de saúde de São paulo sobre a permissão, ou não, da torcida. 

"Jogaremos a partida de ida da semifinal da Libertadores no Allianz Parque, que é a nossa casa. O Palmeiras, de forma coerente, continuará a respeitar as decisões dos órgãos competentes. A presença ou não de público será determinada pelas regras das autoridades", escreveu o clube em suas redes sociais. 

Variante delta aumenta riscos

O retorno de eventos com grande presença do público chegou a ficar em xeque com o surgimento da variante Delta, forma mais contagiosa do coronavírus. Entretanto, além de Belo Horizonte, Brasília autorizou a realização de jogos com público e, recentemente, a CBF divulgou um protocolo de retorno das torcidas nos estádios. 

Para Carlos Magno Fortaleza, médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, partidas de futebol deveriam ser um dos últimos eventos com aglomerações a retornarem, por não possuírem níveis controlados de contaminação, e sugere feiras e congressos para avaliações iniciais. "A torcida se aglomera, não usa máscaras e grita. Ao gritar se geram aerossóis que levam a partícula viral muito mais longe. Na final da Libertadores entre Santos e Palmeiras abriram para poucas pessoas, e todas ficaram aglomeradas. Não é um 'evento-teste', é um 'evento-risco'", disse. 

Segundo o especialista, mesmo a apresentação do cartão de vacinação na porta do estádio comprovando a imunização com duas doses não é suficiente para evitar contaminações. "Os riscos são diretos e indiretos. As pessoas imunizadas têm um menor risco de adoecer se expostas, e não quando se expõem", ressalta. "Um jovem que vai para a partida de futebol, por exemplo, pode se contaminar e ficar assintomático, mas levar o vírus para casa, para um idoso, que pela própria imunossenescência da idade pode morrer."

Um dos primeiros eventos esportivos a receber público foi a final da Liga dos Campeões entre Manchester City e Chelsea, realizada em maio. Toda a fase de mata-mata, incluindo a decisão, foi realizada em uma bolha em Portugal. Carlos Magno recorda o aumento significativo de casos de covid-19 no país após a realização do evento com o público, impulsionado justamente pela Delta. "A vida tem que voltar ao normal, mas uma torcida de futebol no estádio é um dos piores cenários para transmissão. Quanto nós mais favorecemos aglomerações, atrasamos o controle da covid."

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