Lucas Uebel/Estadão
Lucas Uebel/Estadão

'Minha chance na seleção brasileira ainda vai chegar'

Técnico acredita no hexacampeonato na Copa da Rússia, mas não se esquece do corte em 1986

Entrevista com

Renato Gaúcho, técnico do Grêmio

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2018 | 07h00

Renato Gaúcho é marrento desde sempre. Mesmo na reserva do Esportivo de Bento Gonçalves, quando ainda era adolescente, conseguiu um teste no Grêmio. O resto é história. O tempo deixou seu estilo mais apurado, mas não menos ácido. O maior jogador da história gremista e hoje treinador do clube afirma ao Estado que não se arrepende de ter dito que jogou mais que Cristiano Ronaldo e critica o falecido técnico Telê por tê-lo cortado da Copa de 1986. Ele ficou fora do Mundial do México por indisciplina e seu amigo, o lateral Leandro, deixou a concentração em solidariedade. “O Telê não puniu apenas a mim. Puniu a seleção brasileira”, diz o técnico. Veja a entrevista dada sexta ao Estado: 

Depois de tantas conquistas, qual é o seu maior sonho no futebol?

Tenho o sonho de dirigir a seleção brasileira. Mas nosso time está muito bem servido com o Tite. Mas uma hora a chance chega.

O Brasil vai ser campeão?

O Brasil tem todas as chances de conseguir o hexa. O Tite vem fazendo um trabalho muito bom, tem o grupo na mão e a equipe está ajustada. Mas não quer dizer que será fácil. Vai ser uma Copa do Mundo muito disputada.

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Você passou por um dos cortes mais polêmicos da seleção ao ficar fora do Mundial de 1986. Depois de mais de 30 anos, o que pensa sobre o episódio? Telê tinha razão?

Na minha opinião, o Telê não puniu apenas a mim, mas a seleção brasileira. Eu estava em um grande momento, tinha sido o melhor jogador das Eliminatórias e ainda tínhamos seis meses até o início da Copa do Mundo do México.

Para chegar à seleção, é preciso um bom trabalho nos clubes. O Grêmio foi campeão da Libertadores. É o melhor time do Brasil hoje?

É um dos melhores do Brasil sim. Dito por vocês mesmo da imprensa. Temos uma equipe equilibrada, que gosta de ter a bola e que busca o gol o tempo todo, não importa o adversário que a gente enfrente.

Como você conseguiu unir os jogadores e ter o time “na mão”?

Falo com os jogadores olhando no olho e sou sempre muito honesto com todos eles. A sinceridade é fundamental. Estive mais de 20 anos dentro de campo e sei o que se passa na cabeça deles e o que eles querem.

O que falta ao Grêmio?

Sempre falta alguma coisa. As melhores equipes do mundo precisam melhorar. Por que o Grêmio não teria que evoluir? Claro que tem. Mas dizer o que falta? Nem pensar. Não vou facilitar as coisas para os meus adversários (risos).

Você é melhor do que o Guardiola?

Não vou ficar me comparando a ninguém. Gosto muito do Guardiola, mas a realidade é diferente. Ele vai para os clubes e contrata quem ele quer e monta uma seleção. Queria vê-lo trabalhar em um clube médio.

Você se arrepende de ter dito que foi melhor do que o Cristiano Ronaldo?

Me arrepender? Por quê? Cristiano é um dos maiores do mundo. Mas queria ver ele jogando nos clubes que eu joguei, muitas vezes com vários meses de salário atrasado, em gramados ruins e muitos outros problemas.

O que acha dos treinadores europeus?

São tão bons quanto os brasileiros. A vantagem de muitos deles é o aspecto econômico. E no futebol isso faz toda a diferença.

Você ficou algum tempo sem clube. O que você diria para os técnico desempregados? E para os mais jovens? E também aos mais velhos?

O futebol tem espaço para todo mundo, independentemente da idade. Fiquei dois anos sem estar em clube, nem por isso deixei de viver o futebol diariamente. Se você tem um objetivo, vai atrás que você consegue. Isso serve para qualquer idade.

Como você administrou o interesse do Flamengo? Mexeu com a sua cabeça?

Com naturalidade. Conversei com muitas pessoas, inclusive com a diretoria do Grêmio. O interesse de um clube como o Flamengo mexe com qualquer profissional do futebol.

Muitas torcedoras afirmam que você é um “cinquentão boa pinta”. Aos 55 anos, como você lida com o assédio feminino?

Com normalidade. Já passei pela fase do deslumbramento.

O que você costuma fazer nos raros momentos de lazer?

Vejo jogo de futebol e, de vez em quando, encontro uns amigos no hotel para tomar um chope. Não tenho muito mais o que fazer no hotel (ele mora em um hotel no Rio Grande do Sul por comodidade).

Como o “Rei do Rio” (apelido dado pelo sucesso que fez nos clubes cariocas) administra a distância da Cidade Maravilhosa?

De vez em quando, em um momento raro de folga, eu vou para Rio e mato a saudade da praia, da família. Não tem outro jeito.

Como você vê a situação política do Brasil? Vai votar na eleição?

Vou votar sim. Vejo a situação política certamente como a maioria dos brasileiros. Com muita tristeza. O Brasil tem tudo para ser uma potência em todos os sentidos.

O que achou da Venezuela?

É uma situação muito triste. A gente olha muita gente reclamando da vida, mas lá as pessoas não têm comida dentro de casa, morrem de sede e o mundo não olha para essas pessoas. É muito duro olhar tudo isso e não poder ajudar todos. Fizemos um pouco, ajudamos, mas é preciso que o mundo olhe para essas pessoas com mais atenção.

Tem medo de alguma coisa?

Medo? De nada.

RENATO SE APROXIMA DOS TÍTULOS DE FELIPÃO

A terceira passagem de Renato pelo Grêmio começou em setembro de 2016. Era uma aposta do time gaúcho em seu maior ídolo para dar uma guinada. Mas o treinador estava em baixa, após dois anos sem trabalhar. Dois meses depois, a equipe ganhou a Copa do Brasil. Era o fim do jejum de 15 anos sem títulos de expressão nacional do Grêmio. Uma façanha. 

Foi o início de uma fase dourada. Com um futebol ofensivo e vistoso, liderado por Geromel, Arthur e Luan, o time venceu a Libertadores derrotando o Lanús dentro e fora da Argentina. Renato se tornou o primeiro brasileiro a ganhar o principal torneio sul-americano como jogador e treinador. Depois disso, o Grêmio conquistou a Recopa Sul-Americana e o Campeonato Gaúcho. Foi a quarta taça em cinco finais. A única derrota foi o Mundial de Clubes, diante do poderoso Real Madrid, em dezembro passado. 

Renato se aproxima do Grêmio de Felipão dos anos 90. Duas décadas atrás, Scolari foi campeão da Copa do Brasil em 1994, da Libertadores em 1995 e da Recopa em 1996. No mesmo ano, o time ainda ganhou seu segundo campeonato brasileiro.

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