Jefferson Bernardes|AFP
Miranda é um dos homens de confiança de Dunga Jefferson Bernardes|AFP

Miranda deve assumir o posto de Neymar como capitão da seleção

Jogador já está acostumado com o papel no Brasil

Almir Leite e Gonçalo Junior, Enviados especiais a Los Angeles

24 de maio de 2016 | 05h00

Miranda se apresentou nesta segunda -feira à seleção brasileira da maneira que melhor o define. Discreto. Desceu do ônibus no bolo de jogadores, cumprimentou funcionários da CBF com apertos de mão e sorriso contido e rapidamente acessou o interior do hotel. O zagueiro de 31 anos sempre foi assim. Dentro e fora de campo não é dado a atos e gestos espalhafatosos. É tranquilo, mas firme, determinado e tem liderança. Tais características, aliadas a grande dose de confiança no atleta, levaram Dunga a optar por Miranda como novo capitão da equipe.

O treinador tem evitado dizer claramente. Mas, apesar de ter afirmado recentemente que Daniel Alves e Filipe Luis são boas alternativas, sua disposição é fixar definitivamente Miranda no posto que inicialmente ele deu ao craque do time. Neymar perdeu espaço, por não conseguir lidar bem com a condição de capitão.

O jogador da Inter de Milão já está familiarizado com a tarja e as demandas que ela exige. Tem sido o capitão do time na ausência de Neymar - como o ocorreu na Copa América de Chile depois da suspensão do ex-santista pela confusão em que se meteu no jogo com a Colômbia e também no último jogo da seleção pelas Eliminatórias, em março contra o Paraguai, quando o camisa 10 estava suspenso - e a tendência é que seja agora na Copa América.

A diferença é que assumirá o posto definitivamente, a não ser que ocorra uma reviravolta que não parece possível no momento. Ou seja, será o capitão da seleção principal e também da olímpica (se puder disputar os Jogos do Rio) mesmo com a presença de Neymar.

Dunga define Miranda como 'um cara tranquilo, que se comporta de uma maneira que todos os outros jogadores gostam e que está sempre disposto a ajudar um companheiro'. Esse espírito de grupo tem grande peso para o treinador.

DECEPÇÃO

Ao reassumir o cargo em 2014, após o fracasso da seleção na Copa do Mundo, Dunga alçou Neymar à condição de capitão por acreditar que o jogador do Barcelona poderia aliar sua 'liderança técnica' à experiência adquirida apesar da curta carreira e encarar de maneira positiva o desafio.

Dunga achou que Neymar cresceria com a promoção. Não foi o que se viu. O craque tornou-se um jogador ainda mais irritadiço, passou a questionar as arbitragens mais por motivos próprios (faltas e jogadas violentas de que entendia ser vítima) do que pela seleção e trouxe mais tensão para o grupo.

O destempero no jogo com a Colômbia que custou sua expulsão após o término da partida - apesar de ter sido bastante provocado - e o fato de ter ido a uma festa após ser suspenso do jogo de março com o Paraguai e ter se desligado antecipadamente da delegação - irritaram Dunga e integrantes da comissão técnica.

Publicamente, o treinador defende as atitudes de Neymar. Mas reservadamente, ele ficou bastante decepcionado com o craque. Por isso, a disposição de tirá-lo do posto de capitão, embora não admita claramente. 'Tem algumas coisas em relação ao Neymar que precisamos rever', comentou.

Além de Neymar e Miranda, dois outros jogadores foram capitão com Dunga. David Luiz, num amistoso com o México antes da Copa América do Chile, e Thiago Silva. Mas o zagueiro do PSG só vestiu a faixa porque Neymar a passou para ele ao ser substituído em um amistoso. Dunga não teve participação.

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Dunga foi um dos mais emblemáticos capitães da seleção

Atual treinador levantou a taça do tetra em 1994

ALMIR LEITE E GONÇALO JUNIOR, ENVIADOS ESPECIAIS A LOS ANGELES

24 de maio de 2016 | 05h00

Como jogador, Dunga foi um dos mais marcantes capitães da seleção brasileira. Um dos cinco que tiveram a honra de levantar a taça de campeão do mundo (1994, nos Estados Unidos), o então volante se destacou na função pelo modo duro como cobrava os juízes, companheiros de time e adversários e pela defesa fora de campo que fazia da seleção e do futebol brasileiro.

Em 1995, por exemplo, durante a Copa América disputada no Uruguai, quando o Brasil venceu a Argentina nos pênaltis após um 2 a 2 no tempo normal em que Túlio ajeitou a bola com a mão antes de fazer o segundo gol da seleção, Dunga entrou na canela dos jornalistas argentinos, que reclamavam do 'roubo'. 'O Maradona fez um gol com a mão numa Copa do Mundo (em 1986, contra a Inglaterra) e não vi um argentino reclamando. Ao contrário, todos comemoraram como se fosse a coisa mais natural do mundo.'

Na sala de entrevista, os jornalistas argentinos emudeceram, ficaram pálidos, enquanto vários brasileiros aplaudiam Dunga.

O hoje treinador da seleção também passou do ponto algumas vezes. Na Copa de 1998, num jogo com o Marrocos (Brasil 3 a 0), ao reclamar de Bebeto que não voltou para ajudar a defender num lance de falta contra a seleção, disparou uma saraivada de palavrões e chegou a dar uma cabeçada do atacante.

A atitude foi bastante criticada por ex-jogadores e pela imprensa. 'Eu extrapolei', admitiu Dunga no dia seguinte. Mas não engoliu as críticas. No jogo em que veio a seguir, ele não abriu a boca contra os companheiros. Não cobrou, não orientou, limitou-se praticamente a tirar o 'cara e coroa'. Por ironia, o Brasil perdeu da Noruega por 2 a 1.

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