FABIO MOTTA/ESTADAO
FABIO MOTTA/ESTADAO

MODELO EUROPEU EXPLICA SUCESSO DE TITE NO CORINTHIANS

Treinador implantou conceitos que aprendeu no Bayern e no Real

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2015 | 07h00

Aos 39 minutos do segundo tempo, Tite esqueceu do jogo em São Januário. Rodeado pelos jogadores, ao lado do banco do Corinthians, finalmente o treinador explodiu: pulou e gritou “é campeão!” Em seguida, dirigiu o olhar para o céu e agradeceu. O jogo do São Paulo terminara. O título brasileiro estava conquistado, independentemente do resultado que estava acontecendo ali, a poucos metros dele, no jogo com o Vasco.

Quando o juiz apitou, Tite correu para o campo. Abraçou um a um os jogadores, fez nova rodinha, desta vez com quem estava em campo. Foi jogado para o alto, sorria como uma criança. “Não dá para descrever’’, disse sobre a sensação de ser campeão, logo após ir até a torcida agradecer pelo apoio.

Tite definiu o título como merecido. E agradeceu também todos os dirigentes com que trabalhou em suas passagens pelo clube, com deferência especial ao presidente Roberto de Andrade. E foi humilde ao falar de sua importância. “Não é pela minha competência. É pela forma como eu trato os adversários, eu respeito, não tripudio’’, disse.

O treinador considera que os méritos dos jogadores foram imenso, e lembrou a força que tiveram após o fracasso no Paulista e na Libertadores. “Eles lamberam as feridas num momento que durante o ano foi cruel. Este time não precisa dar porrada, não precisa ser expulso. Precisa jogar bola, passar para a sociedade toda um exemplo que transcende o futebol.’’

O título foi mesmo especial para Tite. Até porque ele nunca deixou de acreditar nessa possibilidade. As feridas da eliminação na Libertadores ainda estavam abertas quando Paolo Guerrero e Emerson Sheik foram embora para o Flamengo e Fábio Santos acertou a sua transferência para o Cruz Azul, do México. O mês de junho foi o mais crítico de toda a temporada corintiana.

Pressionado, Tite resolveu convocar os líderes do elenco alvinegro para uma reunião. Foram chamados Cássio, Gil, Renato Augusto e Vagner Love. Somente Elias não participou do encontro, porque estava no Chile com a seleção brasileira disputando a Copa América. O treinador queria saber se mais alguém iria deixar o clube, mas ouviu o que mais desejava naquele momento. Todos disseram que continuariam pelo menos até o fim do ano.

Aquele pacto sacramentou a “virada” corintiana na temporada. Foi ali que o Corinthians começou a, de fato, ganhar o título brasileiro.

Incomodados com as críticas que vinham recebendo (depois das derrotas para Palmeiras e Grêmio o time despencou para a 11.ª colocação e chegou a ser apontado como possível candidato ao rebaixamento), os jogadores não prometeram o título, mas garantiram a Tite que tirariam o Corinthians daquela situação.

Assim como a vitoriosa equipe que montou em 2011 e que ganhou tudo que disputou até 2013, desta vez Tite também formou um time sem um líder em campo. Já não havia mais Guerrero para concluir praticamente todas as jogadas criadas pelos companheiros. Sem um único jogador para carregar o time nas costas, foi a soma de estrelas como Jadson, Renato Augusto, Elias e Cássio que fez do Corinthians um time sem rivais à altura no Brasileiro.

Se antes Tite tinha fama de retranqueiro ou de “empatite”, agora a equipe passou a jogar mais no ataque, pressionando o adversário. A mudança foi fruto do ano sabático que o treinador teve em 2014. Desempregado após ser demitido por Mário Gobbi no fim de 2013, ele resolveu que era hora de se reciclar. À espera de um convite para assumir a seleção após a Copa do Mundo, recusou propostas de clubes do País e foi à Europa estudar. Visitou clubes como Real Madrid e Arsenal e assistiu ao lado do filho Matheus a uma dezena de jogos de potências do continente. “As minhas informações táticas foram muito mais acionadas”, conta o treinador.

Apesar de já ser um técnico multicampeão, Tite admitia que lhe faltava montar times mais ofensivos. Por isso, dedicou-se principalmente a analisar vídeos e estratégias de ataque na Europa. Quando assumiu o Corinthians, em janeiro deste ano, resolveu adotar o esquema tático 4-1-4-1 inspirado no Real Madrid do técnico Carlo Ancelotti, com quem se encontrou durante a sua passagem pela Espanha.

O Real, no entanto, não foi o único modelo para o Corinthians de Tite. O treinador também se espelhou no Bayern de Munique. O posicionamento de Emerson Sheik (e depois de Malcom), por exemplo, veio depois de o treinador observar a maneira como Robben atuava aberto pelas beiradas do campo no time alemão. 

Os seus métodos de trabalho também mudaram. Tite agora realiza apenas treinos em campo reduzido, a exemplo do que acontece nas principais equipes da Europa. O treinador pediu, inclusive, que fossem pintadas linhas horizontais em um dos campos do CT para que os jogadores tivessem mais noção de espaço e atuassem de maneira mais compacta. O pedido é sempre para que os atletas troquem passes curtos e rápidos e busquem triangulações. Até mesmo para os zagueiros. Chutão só em última instância.

Também veio da Europa a inspiração para instalar uma grua no CT. O equipamento pode alcançar até 12 metros de altura e lá do alto profissionais do Cifut (Centro de Inteligência do Futebol) gravam as imagens dos treinos. O Bayer Leverkusen usou esse tipo de recurso durante a pré-temporada que realizou em janeiro nos Estados Unidos e, como o Corinthians ficou hospedado em Orlando no mesmo hotel que o time alemão e as duas equipes dividiram os campos de treinamento, Tite gostou da ideia e resolveu implantá-la no CT. Segundo o treinador, as imagens áreas o ajudam a analisar melhor a movimentação dos jogadores e a corrigir possíveis falhas de posicionamento.

Outro mérito do treinador foi colocar na cabeça dos jogadores que não haveria diferenciação entre titulares e reservas. Todos seriam tratados da mesma maneira e deveriam estar bem preparados para quando aparecessem as oportunidades. Assim, Tite conseguiu com que os efeitos de baixas por lesões ou suspensões fossem minimizados. Esse é o estilo Tite de ser.

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