Molecada perde espaço com KIA

Um por um, eles vão sendo eliminados. Os garotos do Corinthians, até pouco tempo supervalorizados, já não seduzem a torcida, viraram subproduto ao lado de estrelas internacionais como Carlos Tevez, Roger, entre outros. Alguns contribuíram para se apagar, como o lateral-esquerdo Fininho, que antecipou a saída do time titular ao fazer gestos obscenos para os torcedores. Outros, foram simplesmente relegados a segundo plano, ou terceiro. Os antes badalados meias Dinelson e Elton não têm sequer sentado no banco de reservas desde a chegada do técnico argentino Daniel Passarella. O ex-treinador Tite fez o possível para segurar e fortalecer os jovens talentos. Tanto que iniciou o Campeonato Paulista escalando entre os titulares nove pratas da casa. Tirando o goleiro Fábio Costa, ex-Santos, e o meia Renato, ex-Guarani, iniciou o jogo com Anderson, Betão, Wendel, Coelho, Edson, Rosinei, Fininho, Jô e Gil, todos ex-juniores do Corinthians. A equipe perdeu para o Mogi Mirim por 2 a 1, era dia 20 de janeiro, época em que os meninos ainda sonhavam em virar ídolos do time mais popular do Estado. "Está acabando o espaço para os mais antigos daqui. Vem ficando cada dia mais difícil para gente", comentou o meia Elton. O alagoano, do alto de seus 1,57 m e 19 anos de idade, tinha o status de mascote nos grupos comandados por Oswaldo de Oliveira e Tite. Entrava de vez em quando e prometia ter futuro brilhante, pelo menos até a apresentação de Passarella. "Ele não me conhece e não tenho nome no exterior, fica mais complicado", lamenta Elton. Situações semelhantes vivem o baiano Dinelson, astro da equipe de juniores campeã da última Copa São Paulo, e também o paulista de Lavrinha Rosinei, cada vez mais esquecidos. O iraniano Kia Joorabchian, chefão da MSI, quer um time forte, competitivo e capaz de atrair marketing mundial para o Corinthians, daí a escolha por estrelas nacionais e argentinas. Trouxe nove atletas, quer ainda um lateral-direito e um atacante: Vágner Love, do CSKA, de preferência. "É natural que com a vinda de vários reforços ocorra esse afunilamento. Muitos vão ser dispensados e a hora agora é de mostrar em campo que podemos continuar", diz o zagueiro Betão, de 21 anos. Ele briga por vaga com Sebá para o clássico de domingo, contra o Palmeiras. Com o tempo, no entanto, a lógica é a de que o argentino, considerado um dos maiores defensores da América Latina por Kia, divida a zaga com outra cara nova, Marinho, ainda fora de forma. O até então dono absoluto da posição, o capitão Anderson, vai para o Benfica no meio do ano. Para a MSI, as portas são serventia da casa em casos como os de Anderson, Gil, Fininho e etc. Até o fim do ano, Coelho, Marquinhos e Fabrício também podem ser dispensados. Sem Fininho, afastado após ofender os torcedores em jogo contra o Sampaio Corrêa, pela Copa do Brasil, e não tendo mais Renato, vendido ao Flamengo, Coelho foi improvisado na lateral-esquerda, mas a porta foi logo fechada após a vinda de Gustavo Nery. A contratação de um lateral-direito para o Campeonato Brasileiro, como busca Kia, acabaria de vez com as chances do jogador no lado contrário do campo. E, por tabela, com as de Edson, mais um lateral forjado nas categorias de base. SUPERTIME - Fazendo projeções, o supertime da MSI no Nacional não teria nenhum atleta revelado no Corinthians: Fábio Costa; um lateral-direito ainda não definido, Sebá, Marinho e Gustavo Nery; Marcelo Mattos, Mascherano (que se apresenta em junho), Roger e Carlos Alberto; Tevez e o sonhado Vágner Love. Os atacantes Jô, 18 anos, e Gil, 24, sobreviveram à acirrada disputa travada no ano passado com Alberto e Marcelo Ramos. Em 2005, não teriam mesmo sucesso contra Tevez e Vágner Love. Antes da peleja, porém, acabaram sacados em favor de outro prata da casa, Bobô, de 20 anos. "No futebol é normal acontecer mudanças, vamos ver o que vai acontecer", disse, descrente, o garoto Jô. Gil tem contrato até o fim do ano e já deu declarações falando em despedida. Após virar reserva, no último confronto, diante do Santo André, pôs a boca no mundo, reclamou estar sendo desprezado pela diretoria. "Se não me quiserem, vou ter de ir embora para outro clube, o que posso fazer?" E o novo titular, se mostra feliz em relação ao futuro? Não parece. "Se não acreditarmos na gente mesmo, quem vai acreditar?", questiona Bobô. O raciocínio, longe de ser óbvio, demonstra a sensação de solidão na qual a "molecada" se encontra desde a chegada dos milhões de dólares da MSI. Assim como outros jovens do elenco, Bobô se agarra ao que resta de otimismo e entende que se mostrar bom futebol poderá continuar no time. "Não penso muito no que vai acontecer no futuro, mas em continuar atuando bem", diz. "Com o Passarella, quem estiver melhor, vai jogar", acredita.

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