Orlando Kissner/AE
Orlando Kissner/AE

Morto em 1994, Dener está de volta nas livrarias

Craque da Portuguesa ganha primeira biografia 22 anos após morte trágica

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2016 | 17h00

Dener está de volta vinte e dois anos após ter levado um carrinho violento da morte em um acidente com seu Mitsubishi Eclipse branco no Rio de Janeiro quando estava no auge de sua carreira. Não é um milagre da ciência. É o milagre da literatura. Foi lançada na semana passada a primeira biografia do craque: "Dener - Deus do Drible". Tudo vai assim, em caixa alta mesmo: Dener, Deus e Drible. 

Quem usa essa imagem do retorno é o próprio autor do livro, o filósofo, geógrafo e historiador Luciano Ubirajara Nassar. "Dener nunca foi reconhecido como deveria. Agora está eternizado pela literatura e tenho certeza que virão outros livros sobre ele. Depois de Pelé, só Dener. Em seguida, vem o Garrincha", diz o autor de obras como Rei Enéas, um gênio esquecido e Julinho Botelho, um herói brasileiro. "O que ele fez em três ou quatro anos foi genial. É difícil entender as razões desse esquecimento. Talvez o imediatismo da imprensa ou o sistema de mercado que produz sempre novos entretenimentos", arrisca.

Leia Também

20 anos sem Dener

Alguns dizem, entre eles, o ex-técnico Pepe, que Dener foi melhor que Robinho e ocuparia o mesmo nível de Neymar. O Canhão da Vila, que treinou Dener na Portuguesa nos início dos anos 1990, nos ensina que as posições são diferentes. Neymar cai pelos lados do campo; Dener pegava a bola na linha central e ia enfileirando os rivais com dribles em zigue-zague. Era um craque com repentes de Pelé. No livro, Dener define assim seu talento. "Sem técnica e habilidade, a bola não tem graça".

Desse jeito, driblando em direção à meta, fez o gol mais bonito da história do Canindé. Foi contra a Inter de Limeira. O gol valeu a criação de uma camiseta comemorativa em 2012 com a inscrição "Reizinho do Canindé". Outro tento histórico foi marcado contra o Santos em 1993. Ele driblou três, além do goleiro Edinho, antes de marcar. A breve carreira começou em 1991, na própria Lusa. Dois anos depois, foi para o Grêmio e se tornou campeão gaúcho. No ano seguinte, conquistou a Taça Guaranabara pelo Vasco. Dener era o mais alto investimento da equipe para o tricampeonato carioca de 1994. Estava no radar de Carlos Alberto Parreira para a convocação da seleção que seria tetracampeã nos Estados Unidos.

Ironicamente, sua morte ocorreu dias após uma reunião entre dirigentes da Portuguesa e do Stuttgart, da Alemanha, para tratar de uma possível transferência para o futebol europeu. Ele não estava ao volante e morreu dormindo. O saudoso jornalista Armando Nogueira escreveu que, se Dener estivesse acordado na hora do acidente, teria driblado a morte.

O livro também resgata a sintonia fina do negro franzino de 1,68 m e 60 kg, que gostava de um bigode ralo e tinha canelas finas, com as arquibancadas. "Pela etnia, história de vida, ligação com o samba, o estilo de jogo, baseado na imprevisibilidade e no ziguezague do drible, ele foi um representante legítimo do torcedor e do provo brasileiro", opina Nassar.

O olhar do escritor tem também o viés de quem jogou bola. Nassar foi centroavante nos anos 1980, com passagens pelo Linense, Independente de Limeira, Campinense e até o Andene, da Bélgica. Ele se define como valente e talentoso, mas conta que não tem saudade desses tempos por causa das lesões. Conheceu Dener pessoalmente e conviveu com ele.

Todos os três filhos tentaram a carreira no futebol, mas acabaram desistindo. À época, diziam que todos só falavam do pai, fazendo comparações. É isso que o livro pretende: que todos voltem a falar de Dener.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.