Morto ?salvou? o Guarani em 1997

Em 51 anos de participação do grupo de elite do futebol paulista, o Guarani nunca foi rebaixado para a segunda divisão. Uma história de sucesso que pode ser quebrada, neste sábado, na última rodada do Paulistão. É nesta hora que alguns voltam ao passado e lembram histórias que entraram para os anais do clube. Uma das histórias mais fantásticas envolvendo o Guarani é a série de peripécias realizadas por sua diretoria para livrar o time do rebaixamento do Campeonato Brasileiro de 1997. O time se salvou do pior, segundo muitos, por conta de um morto.O presidente da época, o polêmico Beto Zini, não se conformava em ver seu time de coração numa situação tão humilhante. Tentou de tudo: missa de senhoras católicas no estádio Brinco de Ouro, grupos de orações, aconselhamentos espirituais e consulta com pai-de-santo e muita vela queimada. Nada dava certo, a ponto do time ficar 13 jogos sem vencer sob o comando do técnico Lula Pereira. Em seguida, o técnico foi substituído por Oswaldo Alvarez, o Vadão, agora no São Paulo, que também passou por momentos muitos ruins à frente do elenco.No meio da turbulência, a surpresa. Vadão acabara de entrar na sala da presidência, sendo entusiasticamente saudado por Zini. O momento era de tensão máxima, bastante contrário ao que via na sala. E teve que se segurar no batente da porta para não cair de costas, quando ouviu de Zini: "Vadão, estamos salvos. Falei com o Bolão e ele vai nos tirar dessa enrascada".O técnico pálido, não acreditava no que estava ouvindo. Bolão era o apelido de Luis Carlos de Oliveira, supervisor de vários clubes do interior como Noroeste de Bauru e Ponte Preta, que no final de vida tinha se tornado empresário apoiado pelo amigo Oscar Bernardi, ex-zagueiro central da Ponte, São Paulo e seleção brasileira. O problema é que Bolão já tinha morrido há dois anos."Não acreditei em nada. Gelei e fiquei arrepiado, pensando por instantes que estava delirando", lembra Vadão, que agora ri do fato. Mas ele reconhece que o fator psicológico é importante num momento de desespero e que, no futebol, vale todo tipo de crença. O mais incrível é acreditar a que ponto o dirigente chegou para "conversar" com Bolão. Mandou um diretor e um assessor direto para Bauru, no cemitério municipal, onde estava enterrado Bolão. E alertou aos auxiliares que ligassem, pelo celular, assim que encontrassem o túmulo do "salvador". A ordem foi seguida à risca. O celular foi na lápide do jazigo, ao lado da foto de Bolão, amarelada pelo tempo, quando Zini iniciou seu contato com a outra dimensão, cobrando do amigo uma promessa antiga, feita à beira da morte. Diabético, cego e acamado, certo dia Bolão ligou para Beto Zini para fazer seu último pedido: queria ser enterrado em Bauru, sua terra natal, com a promessa de ajudá-lo eternamente. E o fiel amigo fez sua parte, na despedida do velho companheiro de tantas aventuras na bola. "Bolão, por tudo que é mais sagrado, não deixa a gente ser rebaixado. É o meu fim...", murmurava Zini na outra ponta do celular.Há quase dois anos, Zini deixou a presidência do Guarani, que comandou por longos 11 anos. Se tornou evangélico, freqüenta cultos regularmente duas vezes por semana e prega aos amigos a palavra de Deus. "Aquilo foi um momento de loucura, que a gente é levado por tanto desespero e pressão no cargo. Hoje não faria isso. Só acredito no poder de Deus", afirma, reticente.O trêmulo Vadão preferiu voltar aos treinos. E o time, por razões desconhecidas, voltou a vencer, conseguindo resultados expressivos, como a goleada sobre o Grêmio, por 4 a 1, em pleno estádio Olímpico. Encerrou a campanha com uma vitória sobre o Vasco da Gama, por 3 a 2, num sábado à noite, contando ainda com a ajuda do então, diretor de futebol do clube carioca, Eurico Miranda, que mandou um time misto para Campinas. O Guarani terminou a competição em 21º lugar, escapou do rebaixamento por verdadeiro milagre e Beto Zini mandou rezar um missa ao velho e bom amigo do peito, que cumpriu a promessa mesmo estando além do conhecido.

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