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Morumbi

O São Paulo mostrou que, sim, é possível encher um estádio conservando suas antigas e veneráveis instalações

O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2018 | 04h00

Quando se pretende falar ou escrever sobre um estádio lendário, querido por todos, reverenciado por inúmeras torcidas, todos se lembram do Pacaembu. Aliás, com grande justiça. Queria acrescentar, porém, que o Morumbi não fica atrás em carga poética e lembranças inesquecíveis, mesmo para quem, como eu, não é são-paulino. Lá vi um Palmeiras 1x0 Corinthians, com Neto jogando pelo Palmeiras, se não me engano, na companhia de 110 mil torcedores, sem nenhum problema, em total segurança.

Me liguei mais fortemente ao Morumbi, quando fui chamado por um ex-dirigente do São Paulo, que na época se encarregava de vender as cadeiras cativas do estádio. Ele me chamou para lhe dar algum apoio publicitário na empreitada. O nome dele era Mário Naddeo, e por vários anos estive próximo dele e - pasmem senhores ! - ajudei a vender as cativas do Morumbi.

As reuniões eram em geral nos fins de tarde na Morumbi Publicidade, uma pequena agência que o “seu Mário” tinha no prédio do Conjunto Nacional onde, aliás, também, trabalhava José Poy, antigo e lendário goleiro tricolor. Passei muitos fins de tarde ouvindo Poy e Mário Naddeo contando feitos do Tricolor, partidas épicas, batalhas sensacionais. Gostava muito deles e me deliciava com seus relatos.

O São Paulo na época não andava bem. Era a segunda metade dos anos 60, antes que terminasse o jejum de títulos paulistas que só ocorreu em 1970. Eu brincava bastante com “seu” Mário sobre essa má fase do tricolor, inclusive no material de campanha para a venda das cadeiras. Lembro que criei um anúncio, para ser veiculado em jornais, cujo título era: “Compre uma cadeira cativa no Morumbi. Afinal é lá que você pode ver Corinthians x Santos”. É claro que a brincadeira se aproveitava do grande momento dos duelos célebres, anos do tabu corintiano, anos das multidões contra e a favor de Pelé e companhia.

Seu Mário deu risada, engoliu a brincadeira com a classe habitual, mas não publicou o anúncio. Era uma grande pessoa, muito amigável, que formava com o Poy uma dupla de rara simpatia. As cadeiras acabaram por ser vendidas e pouco a pouco fui me afastando da Morumbi Publicidade até que o afastamento foi total, sem nenhum motivo a não ser a vida nesta cidade que muito mais afasta do que reúne as pessoas.

O fato é que, terminado seu estádio, o São Paulo, exatamente como ocorre com o Palmeiras hoje, ganhou imenso impulso. Não que não tivesse grande público antes. É bom lembrar que, para ver a estreia de Leônidas de Silva no tricolor em 1942, o Pacaembu abrigou 70 mil pessoas.

Hoje o velho Morumbi voltou a me alegrar profundamente. Invejo suas arquibancadas lotadas de gente comum, torcedores com cara e aspecto de torcedores como sempre conheci. Gente sentada nas mesmas velhas cadeiras ou no cimento, mostrando que torcedor não precisa de luxo, mas de alegria e preço de ingresso justo. O resultado disso é o time em primeiro lugar no campeonato. Se vai ser campeão não sei, nem importa. Importa o fato de que o clube colocou em seu estádio a grande massa de seus torcedores, e não apenas alguns deles.

O clube mostrou que, sim, é possível encher um estádio conservando suas antigas e veneráveis instalações. É só querer. É só lembrar que o futebol nasceu e ganhou prestígio a partir das classes populares, dos vencidos da vida, não dos vencedores. E que fazê-los retornar ao seu estádio era um dever. Um dever democrático de fazer conviver ricos e pobres no mesmo espaço, e não separá-los.

Desde o ano passado o São Paulo vem se ligando cada vez mais à sua massa. Foi eficiente quando escapou dos últimos lugares. Este ano pode ter a mesma eficiência para levá-lo, talvez, ao título.

Nota irônica: pensar que tudo isso é realizado pelo clube que, por muitos anos, foi acusado de ser o clube da elite!

 

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