Motorola aposta no futebol feminino

Treinar em um campo profissional, estudar gratuitamente em uma faculdade, ter casa com todas as despesas pagas são alguns dos privilégios que 25 garotas do interior de São Paulo recebem da Motorola para jogar futebol em Jaguariúna (região de Campinas), onde fica a sede da empresa.Para se manter no time Grêmio Motorola FAJ, as meninas têm de estudar. "Quem não tiver nota boa na escola ou faculdade, mando de volta para a casa dos pais", afirma Carlos Pagoti, presidente do clube e supervisor de qualidade da empresa.O projeto do time de futebol surgiu em 2000, quando Pagoti pensou em aproveitar o campo da empresa, que havia sido construído naquele ano. No começo, o local recrutava meninos e meninas. "Mas senti que as meninas precisavam de um espaço só delas", explica.As peneiras foram abertas e a procura foi enorme. No começo deste ano, a empresa fechou parceria com a Faculdade de Jaguariúna e a Prefeitura da cidade para dar bolsa de estudo às atletas e encaminhar as mais novas para a rede pública de ensino. Além disso, elas irão disputar os Jogos Regionais, os Jogos Abertos do Interior e o Campeonato Paulista.Das 25 jogadoras, que são das cidades vizinhas, 16 moram juntas em uma casa mantida pela Motorola, com todas as despesas pagas. A campineira Josiane Azevedo, centroavante de 16 anos, é uma das que se mudaram para o local. Chegou ao time em 2003, graças ao irmão Josimar, que a levou para fazer o teste. "Ele leu no jornal e me levou lá", conta.Antes de entrar para a equipe, a garota, que chuta forte com as duas pernas, era indisciplinada e ?cabulava? aula. No sobrado amplo com as novas companheiras, sonha com um futuro melhor. Órfã de pai, Josiane é filha de uma faxineira que insistia para que ela deixasse a escola para trabalhar com ela. "Em Campinas eu pegava no pesado para ajudar o namorado da minha mãe, que é pedreiro. Trabalhava como ajudante, carregava uns tijolos pesados, preparava a massa..." E também brigava muito com a mãe e com o irmão, que batia nela.Agora, Josiane corre atrás do tempo perdido, porque perdeu dois anos por faltas na escola. "Se não for jogadora de futebol, vou ser professora de matemática. Todo mundo que pratica esporte deve pensar no estudo, para ser alguém na vida", acredita. Com chutes fortes e bons dribles, ela busca inspiração em Ronaldinho Gaúcho. "Já pensou se um dia eu conseguir driblar como o Ronaldinho?! Vai ser da hora."Outro destaque do time é a meia-direita Karen Aline Peliçari, 15 anos, de Americana. No dia do teste, ela passou mal antes de sair de casa, porque não havia comido nada e a pressão caiu. Foi o professor da escola que a levou na semana seguinte ao clube."Na hora fui aprovada", conta Karen, especialista em cobrar falta. "Outro dia ela fez um gol do meio-de-campo que ninguém acreditou, chutou forte igual a um menino. Ela tem um potencial incrível", elogia o presidente. A garota está no time desde o ano passado, quando foi bronze nos Jogos Regionais, em Limeira.

Agencia Estado,

24 de fevereiro de 2005 | 10h12

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