Hélvio Romero/Estadão
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Mourinho e o Brasil

É preciso sintonizar a bola que jogamos com o que vimos nos melhores times do mundo

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2018 | 04h30

O futebol brasileiro segue mergulhado no passado, atrelado a um estilo rústico, que impera nesses tempos confusos. O jogo é, por muitos, jogado sem a ferramenta fundamental. Sim, ela, a bola. Raras vezes na história do esporte bretão em terra brasilis tivemos tantos times rejeitando a pelota, inclusive os mais caros, técnicos, recheados de camarões, ou seja, de bons jogadores.

Joga assim o Palmeiras, campeão brasileiro, sob comando de Luiz Felipe Scolari. Atua assim o Cruzeiro, bicampeão da Copa do Brasil com Mano Menezes. Não, em 2017 o Corinthians de Fábio Carille não tinha esse mesmo perfil. Embora se defendesse bem, era uma equipe que trabalhava a bola, tinha posse, não por acaso terminou o campeonato da Série A como a que mais passes trocou.

O nível técnico é baixo, com jogos fracos e times ditos “reativos”, modismo linguístico do dialeto “tatiquês” que define algo próximo da retranca. Mas dizer que uma equipe tecnicamente forte joga retrancada soa mal, pode causar incômodo em alguns, então partem para expressões que amenizam os ouvidos. O São Paulo de Muricy Ramalho, tricampeão em 2006, 2007 e 2008, cansou de ser “reativo”.

Sim, isso significa que uma década depois não evoluímos, na realidade regredimos, apesar de exemplos animadores. Como o Corinthians de 2015, que cresceu durante a competição, terminando como melhor ataque, defesa menos vazada, saldo de 40 gols e um dos quatro com maior posse. O atual campeão tem números que se assemelham, mas não aparece entre os dez que mais trocaram passes.

Há diversas maneiras de se jogar futebol. No entanto, é preciso sintonizar a bola que rola (ou voa?) por aqui com o que de melhor mostram os melhores times do mundo. Nas principais ligas europeias, times mais ricos, técnicos e dominantes têm a pelota, não abrem mão dela. Atacam, agridem, se propõem a jogar futebol. Cabe aos mais fraquinhos o jogo fechado, acuado, por pura falta de opção.

Nas cinco últimas edições de Libertadores, dos dez finalistas cinco foram argentinos, com direito a uma decisão entre os dois mais populares do país, Boca Juniors e River Plate. Três títulos eles conquistaram. A isolada derrota em final foi sofrida pelo Lanús, em 2017. E para o único brasileiro que foi tão longe no período, o Grêmio, justamente aquele que, há algumas temporadas, é a equipe do país que mais gosta de ter a bola.

O retrospecto ruim além-fronteiras, a disparidade técnica entre o que se joga aqui e na Europa, a diferença entre a evolução rápida do esporte e suas estratégias lá fora diante de nossa estagnação precisa ser encarada, discutida. Mais um ano se encerra e, no que vem aí, o presente mais esperado seria o surgimento de times que tenham mais futebol. Não confunda com a balela do tal “jogo bonito”.

Sim, pois a expressão foi criada por marqueteiros, que chegaram a “tatuá-la” na camisa da seleção brasileira. Nos referimos a jogo bem jogado, ao jogar bem, algo que pode ser resumido a ter a bola, não a rejeitar, atacar bem, defender bem, marcar muitos gols, sofrer poucos. Sem depender drasticamente dos chutões, das bolas esticadas para centroavantes grandalhões e pontinhas rápidos resolverem.

As estratégias dominantes aqui são as que o Primeiro Mundo do futebol repele. Algo simbolizado por José Mourinho, demitido após pífia meia temporada à frente do Manchester United, um dos mais ricos clubes do planeta de elenco caro, talentoso. Seus métodos não cabem mais na Premier League, ele precisará se reinventar. Ou vai parar aqui, desde que no Brasil o jogo siga estagnado, reservando lugar para o treinador português.

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