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Mudança de imagem

Está surgindo um tipo de treinador destinado a ditar moda; às vezes, você suspeita que jamais chegaram perto de uma bola

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 04h00

Venho seguindo através dos anos uma inegável e certamente não surpreendente mudança no aspecto de alguns personagens do futebol. Digo não surpreendente porque o tempo exige que se mude com ele, e é inútil pensar que costumes e hábitos permaneçam os mesmos enquanto muda só o tempo. Os técnicos de futebol, por exemplo. Tenho observado mudanças constantes em seus aspectos pessoais. Sempre tivemos os diferentes, que fugiam do padrão vigente em seu momento. Há muitos anos, Zezé Moreira dava treinos no Corinthians de paletó e gravata. Era uma exceção. 

Por muitos anos os treinadores, em geral ex-jogadores, se portavam de um modo que lembrava sua antiga carreira e seus antigos papéis no gramado. Quem era elegante ao jogar, por exemplo, continuava elegante com treinador. Falcão é um exemplo disso. E, em tempos ainda mais recuados, Didi. Sentado no banco, ele também de terno, como seu mentor Zezé Moreira, era impossível não vislumbrar naquele gentleman o elegante meia que encantou o Brasil, e a partir de 1958, o mundo.

Havia outros que não se preocupavam com elegância alguma e, ao contrário, faziam questão de ostentar barrigas inteiramente conflitantes com suas imagens enquanto jogadores. Os barrigudos não se preocupavam com sua má forma nem do que poderiam pensar os comandados ou torcedores. A barriga era uma espécie de recompensa pelos sacrifícios do futebol.

Há remanescentes de todos os tipos ainda por aí. Cada vez que revejo Adílson, o antigo e excelente zagueiro de Cruzeiro e Corinthians em suas andanças como treinador, parece sempre o mesmo. Ou melhor, a barriga parece a mesma. Adílson é um tipo imutável de treinador que preferia estar no campo jogando. Suando em bicas sob uma camiseta não consegue, ou não quer, diminuir a barriga. É como se ela fizesse já parte dele como um braço ou um pé. Nada disso o impede de ser um treinador muito inteligente como está provando com o seu Ceará. 

Agora, porém, está surgindo um tipo de treinador, um exemplar único e inconfundível, destinado a ditar moda. Trata-se de Tiago Nunes, que o Corinthians acaba de contratar. Nunca vi alguém mais distante de um campo de futebol, como aspecto. Há treinadores que você suspeita que jamais chegaram perto de uma bola, outros você tem certeza. Mas todos lembram de alguma maneira o futebol. Algo neles acaba por trair a profissão.

Tiago Nunes parece não só não ter se aproximado nunca de bola alguma como dá impressão disso lhe ser completamente indiferente. A sensação é de que caiu na profissão por várias razões, menos vocação de criança como é o futebol. Veja bem, isso nada tem a ver com seu mérito profissional, fala só do aspecto. Parece mais um detetive particular, um professor de canto, um enfermeiro-chefe, daqueles que sabem exatamente a hora de o paciente tomar o remédio e não atrasa nem um segundo. Alto, magro, jovem, mas de cabelos precocemente brancos, confiável e direto como um chefe de vendas, geralmente imperturbável como um piloto de jato.

Tenho observado a figura por várias vezes e em várias situações. Seja na Arena do Furacão, seja em plena Bombonera lotada, parece igual. Mesmo quando protesta, reclama e gesticula como qualquer outro treinador tem alguma coisa nas atitudes, não de falso, absolutamente, mas de deslocado. Seu elemento, quando se sente realmente à vontade, é durante as entrevistas depois do jogo. Convincentes e claras, sem serem chatas, lembra um Tite, sem monotonia nem tom sacerdotal.

Talvez Tiago seja o único treinador que – sou capaz de apostar – realmente gosta das entrevistas depois do jogo. É, ou parece, um profissional na mais aguda e extrema acepção da palavra. Gostaria imensamente vê-lo um dia conversando, digamos, com Muricy Ramalho. Seria um raro momento de ver dois mundos do futebol frente a frente. 

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