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Proponho um esforço conjunto de esquecimento. Vamos nos esquecer, pelo menos no fim de semana, dessas caras patibulares que infestam o futebol. Não sei por que gastam tanto dinheiro investigando gente que podia ser condenada só pela cara. É gente saída diretamente de O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros, Cassino ou Família Soprano.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2015 | 03h00

Para esquecer isso tudo sugiro procurar nos canais ESPN as transmissões das finais da NBA, que estão começando.

Elas prometem ser empolgantes, sobretudo pela participação de uma equipe singular e diferente. Trata-se do Golden State Warriors. Não sei se tinha visto antes basquete parecido. Nunca vi gente jogar tão alegremente. Porque os Warriors não jogam, dão show. Têm alguma coisa dos velhos Globetrotters. O que não quer dizer que ganhem sempre. Mas o show é garantido.

Jogam com uma velocidade impressionante. O objetivo é chegar à cesta no menor tempo possível. Para isso utilizam constantemente arremessos de três pontos, e o placar de seus jogos raramente é menor do que 100. Jogam sempre do mesmo jeito, arremessando bolas de três pontos sempre que possível, e, às vezes, quando não é. Se a bola entra, ótimo. Se não entra continuam a arremessar como se nada fosse, até voltar a acertar. Não importa se nesse meio tempo o adversário encurtou a vantagem, ou mesmo emparelhou. É um jogo um pouco maluco.

Subverteram a função de armador, por exemplo. Em todos os times o armador é alguém que organiza, prepara e abre a defesa adversária servindo um companheiro mais bem colocado. Raramente é um grande pontuador. Nunca vi nenhum que fosse o maior pontuador de sua equipe. Sua função é exatamente fazer os outros pontuarem. Nos Warriors o armador serve frequentemente a si mesmo, isto é, ameaça organizar e ele mesmo arremessa. E quase sempre acerta.

Que me lembre é o único armador que faz, em média, mais de 30 pontos por jogo. Outro dia fez 40. Os outros jogadores também arremessam e correm como loucos. Nesse time joga o nosso Leandrinho. Nunca o tinha visto tão bem na sua carreira na NBA. Caiu como uma luva nesse time. Sempre o vi como um jogador muito veloz, mas que frequentemente escolhia a jogada errada. Sempre achei que seus movimentos eram mais rápidos do que o raciocínio. Como sempre considerei que pensar é fundamental no basquete, desconfiava dele. Mas nesse time de “malucos maravilhosos”, um outro “maluco” se encaixa perfeitamente.

Vejam bem, malucos em termos. Esse time tem método e sabe o que faz. Nunca muda, jogando dentro ou fora de seus domínios. Esse time encantador, cheio de malabarismos, jogadas de efeito e estilo, vai enfrentar o Cleveland Cavaliers um time de basquete bem mais tradicional, baseado num fenômeno técnico e físico chamado LeBron James. Esse Cleveland é um belo time, mas LeBron James não é mais uma novidade, embora genial. Os Warriors são. Não há favorito, mas e vou torcer para o Warriors.

Quem quiser ver um belo espetáculo veja essas finais. Mesmo que não goste de basquete, mesmo que não entenda nada do jogo. Acompanhe apenas os movimentos de certos jogadores. Vão fazer você lembrar, por distante que pareça, do nosso antigo e perdido futebol arte. Não importa se é com a mão e não com os pés. Quando você presenciar as fintas eletrizantes de Stephen Curry vai se lembrar de muita gente que fazia isso com os pés. Quando você vir os movimentos de uma elegância de tigre feitos por Clay Thompson, fabricando um espaço impossível para executar seus arremessos de três pontos, vai entender que esportes diferentes se comunicam misteriosamente entre si e não há mais basquete ou futebol, mas arte.

Esqueça o que é ruim, fique com a NBA na companhia de gente que conhece, como o grande Agra e Zé Boquinha.

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