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Renata Xavier de Brito  foi assistente em um jogo do Santos neste ano e em partidas do Corinthians e Palmeiras no ano passado Djalma Vassão/Gazetaesportiva.net

Mulher na arbitragem vira algo raro em São Paulo

Paulista teve apenas três assistentes femininas na Série A-1

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2016 | 17h00

As mulheres perderam participação na arbitragem do Campeonato Paulista deste ano em relação aos de 2015. Nesta temporada, as mulheres estiveram presentes no quarteto de arbitragem em apenas 11 dos 156 jogos, dos quais, apenas um com participação de um dos grandes clubes de São Paulo. 

Renata Xavier de Brito foi a exceção do ano. Ela atuou como auxiliar no dia 25 de fevereiro, quando o Santos derrotou o Mogi Mirim por 4 a 1, no Pacaembu. No ano passado, elas estiveram presentes em 19 dos 158 jogos sendo 10 deles envolvendo Corinthians, São Paulo, Palmeiras ou Santos.

Segundo Dionísio Roberto Domingos, coordenador de Desenvolvimento de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF), a entidade sofreu baixas antes de iniciar o estadual. “O quadro feminino de assistentes aptas a atuar em jogos da Série A1 diminuiu por conta de desistências de duas profissionais (alegaram questões pessoais). Mesmo com a inclusão de uma nova profissional, o quadro atual passou de quatro para três mulheres”, explicou. 

Além de Renata, também trabalharam na elite estadual Márcia Bezerra Lopes Caetano e Tatiane Sacilotti dos Santos Camargo. Dos 452 árbitros registrados no quadro da FPF, apenas 19 são mulheres, ou 4,2% do total. Este ano, elas estiveram presentes em 7% dos jogos. No ano passado, foram 12%.

O coordenador da FPF explica, ainda, que Tatiane Sacilotti ficou quase três semanas afastada do estadual para atuar no Sul-Americano feminino, organizado na Venezuela, entre fevereiro e março. “Além disso, as assistentes têm sido mais requisitadas para competições organizadas pela CBF, o que gera conflitos de agenda”, disse.    

Programa. Para tentar aumentar o número de mulheres já no ano que vem, a FPF criou um programa especial voltado para treinamento específico das árbitras, com trabalho físico, técnico e psicológico que permitam aumentar a performance nas diversas competições paulistas no ano que vem. 

A dificuldade em conseguir acompanhar o ritmo dos homens faz com que muitas mulheres acabem desistindo de seguir carreira ou mesmo de evoluir a ponto de ter condições para trabalhar em grandes jogos. O lado psicológico também tem recebido atenção especial e a maioria das federações nacionais já possui um psicólogo responsável pelos árbitros. Estes profissionais recebem a recomendação para ter um cuidado especial com as mulheres.

Para Ana Paula Oliveira, ex-assistente e atual professora da Enaf (Escola Nacional de Árbitros de Futebol), a tendência é que no ano que vem haja mais mulheres preparadas não só para serem assistentes como árbitras no Campeonato Paulista. “Agora existe um departamento de desenvolvimento da federação paulista, que dá maior atenção à arbitragem feminina. A questão da condição física é complicada, pois as meninas continuam fazendo os mesmos testes físicos dos homens e além de ter que passar por um teste complicado, precisam estar habilitadas tecnicamente”.

Novas apostas. Se no futebol paulista as mulheres ainda buscam se firmar, em outros estados elas têm muito mais oportunidades. A Federação de Santa Catarina, por exemplo, é uma das que mais dá atenção para elas. Nadine Schramm Câmara e Neuza Inês Back têm participação constante como assistentes no Campeonato Catarinense. 

Em Pernambuco, Deborah Cecília Cruz Correia já apitou partidas do Náutico e do Sport e foi elogiada. Ela esta no quadro de aspirante a FIFA. As três, inclusive, aparecem como favoritas para serem escaladas em alguns jogos da Série A do Campeonato Brasileiro e também da Copa do Brasil. 

Quem são as assistentes que trabalharam na Série A-1 deste ano:

Renata Ruel Xavier: Assistente de 37 anos, esteve presente em quatro jogos na Série A-1, entre eles, Santos 4 x 1 Mogi Mirim, em fevereiro, e mais cinco da Série A-2. No ano passado, teve boas atuações em jogos de Corinthians, Santos e Palmeiras.

Márcia Bezerra Caetano: Assistente de 41 anos, foi assistente Fifa, e neste ano, trabalhou em três jogos na Série A-1, três da Série A-2, além de partidas da Copa São Paulo e de futebol feminino. Até 2014, fazia parte do quadro de arbitragem de Rondônia

Tatiane Sacilotti Camargo: Assistente de 30 anos, é apontada como a melhor assistente do Estado. Trabalhou apenas em quatro jogos da Série A-1, pois foi convocada para trabalhar no Sul-Americano feminino e em partidas de competições nacionais.

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'A crítica em cima do erro de uma mulher tem sempre maior dimensão'

Ex-assistente e professora na ENAF fala sobre a arbitragem feminina

Entrevista com

Ana Paula Oliveira

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2016 | 16h59

Como está a arbitragem feminina de São Paulo comparada com o Brasil?

São Paulo está passando por uma transição. Mudou o comando e agora existe um departamento de desenvolvimento da federação paulista, que dá maior atenção para a arbitragem feminina e passou a ter uma maior preocupação em relação a isso. A questão da condição física é algo complicado, pois as meninas continuam fazendo testes físicos masculinos e além de ter que passar por um teste complicado, precisam estar habilitadas tecnicamente. Tudo isso faz com que tenhamos poucas assistentes aptas para trabalhar em jogos grandes no estado. 

Existe muita procura de mulheres para trabalharem com arbitragem?

Tem sim e hoje, apesar de toda a dificuldade existente para as mulheres na arbitragem brasileira, existem exemplos de mulheres que conseguiram ganhar espaço entre os homens e isso faz com que elas acabem tendo uma referência. Na minha época, não existia isso. Hoje, tem a Silvia Regina (ex-árbitra e atual Membro da Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol e instrutora da CBF e FIFA) e eu, por exemplo. 

Depois de tantos anos, sente que existe preconceito com as mulheres? 

A mulher deixou de ser algo novo no futebol e isso é bom, mas, para avançarmos, temos que traçar um comparativo e ver que a crítica em cima de um erro de uma mulher tem sempre maior dimensão, o que não é justo. Além disso, ainda existe a questão da mulher se destacar pela beleza e muitas vezes isso ficar à frente de sua qualidade. 

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