Rafael Arbex
Chris Lima, locutora oficial da Arena Corinthians, desbrava um segmento dominado pelos homens: a locução esportiva Rafael Arbex

Mulheres começam a soltar a voz nos estádios brasileiros

Pioneira, Chris Lima é a locutora oficial da Arena Corinthians

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 17h00

Essa é a primeira vez de Chris. Ela está preparada, sabe o que fazer, mas está nervosa, frio na barriga. Silêncio. Chris respira fundo e fala. “Bem vindos à Arena Corinthians para mais uma jornada esportiva”. A frase abre o jogo entre Corinthians e Coritiba pelo Campeonato Brasileiro do ano passado, no dia 1º de novembro. Com essas palavras, Chris fez sua estreia como a locutora oficial da arena. 

Ela é uma das primeiras vozes femininas dos novos estádios brasileiros, rompendo uma tradição de décadas de domínio masculino. “Não sabia qual seria a reação das pessoas, mas, na primeira frase, tive uma resposta positiva. É possível uma mulher passar a informação no estádio”, diz a locutora de 32 anos.

Chris não trabalha sozinha. Até sua voz tomar conta da Arena, uma equipe entre 12 e 15 pessoas trabalha nas áreas técnica, operacional, produção e edição. Tudo começa no gramado. No caso de uma substituição, por exemplo, uma pessoa da produção fica atenta à numeração de quem entra e quem sai. Ela avisa para a cabine que busca os nomes na escalação. Enquanto isso, o editor das imagens do telão separa as fotos dos jogadores. Chris fala 23 vezes desde a abertura dos portões até o final do jogo. 


Tudo segue um roteiro cronometrado. Se o jogo é domingo, ela começa a ensaiar na sexta. “A gente trabalha com uma semana de antecedência preparando o roteiro”, afirma Gil Latoreira, coordenador da equipe.O roteiro está alinhado aos regulamentos das competições. Em sua pasta, Gil anda com duas cartilhas, uma da Conmebol e outra da Federação Paulista. Estão lá várias regras. Até 30 minutos antes da partida, o clube tem de informar as escalações. Até os 30 minutos do segundo tempo, é obrigatório divulgar a renda e o público. Obrigatório. Se isso não acontece, o clube é multado. Os hinos têm de ser executados por 1 minutos e 20 segundos. 

O roteiro deixa espaço para a criatividade e a sensibilidade, como uma peça de teatro: os atores sabem o texto de cor, mas têm liberdade – e talento – para improvisar. Nos últimos jogos, por exemplo, o roteiro traz um pedido para que as pessoas devolvam as bolas que vão para a arquibancada. Nas últimas partidas, 16 foram para o beleléu. 

No jogo contra o São Paulo, pela Libertadores, o volante corintiano Ralf recebeu uma homenagem pelos 300 jogos. No momento da festa do camisa 5, os jogadores do São Paulo entraram em campo. A vaia tomou conta do estádio, e a homenagem ficou mais curta.

Gil explica que o som é tão importante porque ajuda a compor e até controlar o clima. Se as torcidas estão se provocando, o hino do Corinthians sobe e acaba a discussão. Se o telão flagra algum torcedor fumando, a voz de Chris entra em seguida, em tom de não-faz-mais-isso, e diz que é proibido fumar. Se o Corinthians está perdendo nada de mensagens descontraídas. 


Chris conquistou a simpatia do público. Em todos os jogos, os torcedores gostam de tirar selfies com ela ao fundo, na cabine blindada localizada no setor leste superior. 

Sim, a cabine é blindada para evitar dores de cabeça. Chris acaba sendo culpada de tudo o que der errado dentro de campo. Se Tite tira o Guerrero, mas o atacante está bem, ela também ouve desaforos. O caldo entornou quando ela citou o jornalista Celzo Unzelte em um dos informativos. Um torcedor desatento pensou que ela tivesse dito Zetti, ex-goleiro do São Paulo. O corintiano ficou alucinado e o assunto foi parar na Ouvidoria do clube.

A presença de Chris é o resultado da valorização do trabalho dos locutores após a Copa. É uma espécie de legado, que exige profissionais especializados. Chris é formada em Rádio e TV e tem experiência na antiga Rádio Curingão. “Não queríamos imitar os locutores tradicionais e decidimos inovar com uma mulher”, revela Gil.

Em julho de 2014, quando Chris foi chamada para um teste de locução, ela era a única mulher entre 16 candidatos. Na hora de sua participação, os membros do Conselho Editorial do clube perceberam que havia ali algo novo e aprovaram a sugestão de Gil.  

Antes da locução esportiva, Chris usava sua voz de uma forma ainda mais inspiradora. Foi cantora profissional por mais de dez anos e conquistou prestígio nos bares paulistanos com um repertório sofisticado, marcado pela MPB.  A voz suave harmoniza com as canções de voz e violão, como as de Marisa Monte, sua preferida. Ela adora o samba dolorido “De mais ninguém” e acredita que as duas coisas – locução e o canto – têm lá suas semelhanças. “Nós estamos sempre expressando emoções com a voz”.

É um barato ver as diferenças na prática. Na hora da escalação do Corinthians, Chris solta a voz, com entusiasmo, na paixão do torcedor. Para o rival, um timbre correto, neutro, quase triste. E quando ela diz “até a próxima jornada”, sua missão está cumprida. 

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O carisma de Edson Sorriso e 'o meu, o seu, o nosso Pacaembu'

Locutor é especialista na criação de bordões

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 17h00

Perguntar pelo funcionário Edson Tadeu da Silva no Pacaembu é como procurar agulha em um palheiro. É muito mais fácil chamar por Edson Sorriso ou ainda pelo criador da frase “O meu, o seu, o nosso Pacaembu”. 

O locutor oficial do Estádio Paulo Machado de Carvalho desde 2011 começou a fazer locuções por improviso. Vários funcionários fracassaram no teste para substituir o falecido Milton Silva Carvalho, o seu Milton, voz histórica da arena. Pelo vozeirão, carisma, simpatia e criatividade, Sorriso acabou na cabine em uma partida da seleção brasileira feminina, mas ele não se lembra do rival. “Foi Canadá, México ou Holanda”, afirma. “Deu tremedeira, não sabia o que falar, mas deu certo. Sou um improvisado que deu certo”, diz o chefe técnico de Esportes. 

Sorriso não controla quantas vezes fala na partida. Afirma que não existe uma lógica nos informativos. Além do seu bordão mais famoso – quando ele deixou de falá-lo em alguns jogos foi cobrado pelos profissionais de rádio que trabalham nas coberturas esportivas –, Sorriso se orgulha de criar e lançar mensagens sobre o consumo de água muito antes da crise hídrica. “Água é vida. Preservar a vida é dever de todos. Não desperdice água”, diz. Outra frase famosa alerta para a violência: “na racionalidade da vida, a paixão é pelo futebol”. 

Desde 2011, Edson só deixou de fazer a locução uma vez. Tinha de fazer uma prova no curso de Direito e não podia faltar. Ele acabou trancando o curso por causa da namorada e do filho, que está com dois anos. Pretende e retomar a graduação no ano que vem. “Talvez eu não exerça a profissão, mas quero crescer”, diz, aos 54 anos. 

Além de funcionário da Prefeitura há 30 anos, Sorriso também é cantor e compositor de samba e coordenador dos desfiles de carnaval do grupo de acesso.

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