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Mundial do Oriente Médio será usado para melhorar a imagem do Catar

Objetivo é aproveitar o Mundial para diversificar suas fontes de renda e ficar menos dependente do petróleo

JAMIL CHADE E LEONADO MAIA, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2013 | 08h30

RIO - Nos anos 60, o Catar promoveu uma revolução no futebol árabe: construiu o primeiro gramado da região, caracterizada pelos desertos. Para inaugurar o campo, levou o melhor time e o melhor jogador do mundo na época: o Santos e Pelé. Cinquenta anos depois, o país se prepara para se projetar ao mundo graças à bola.

Sem a capacidade de ter um exército, mas sentado em uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o Catar escolheu o futebol para comprar seu lugar no mundo, garantir-se politicamente e projetar o minúsculo país. Diante de tal meta, todos os recursos valem, como indicam as suspeitas de compra de votos para garantir a Copa do Mundo de 2022.

Nos últimos anos, o Catar comprou clubes de futebol e redes de televisão, abriu sua marca de artigos esportivos para competir com as gigantes americanas e europeias e, em 2022, culminará a estratégia com a realização da primeira Copa do Oriente Médio.

Para especialistas, nada desse investimento é apenas uma loucura de príncipes árabes que não sabem o que fazer com tanto dinheiro. A meta é criar uma rede de dependência no mundo que, em uma eventual invasão ou em qualquer questionamento do regime, afetaria a estrutura mundial do esporte.

Outro objetivo dos catarianos é aproveitar o Mundial para diversificar suas fontes de renda e tornar o país menos dependente do petróleo. “O Catar é muito dependente economicamente dos hidrocarbonetos. Estamos procurando diversificar nossa economia, ter outras fontes além do óleo e do gás. E um dos pontos estratégicos do nosso grande planejamento até 2030 é investir no turismo”, destaca Nasser Al Khater, diretor de marketing e comunicação do Comitê Supremo Catar 2022.

O Catar tem a terceira maior reserva de gás do mundo, mas, com apenas 1,1 milhão de habitantes, não pode formar um exército. Assim, buscou no esporte um meio de se promover e fazer diplomacia. Com a realização da Copa, o diminuto país árabe quer abrir suas fronteiras e a mente do resto do mundo e desfazer a imagem de que a região é dominada pelo fanatismo religioso e pelo terrorismo.

“Você pode mudar drasticamente o perfil e a imagem de um país com um evento como este”, comenta Al Khater. “É muito fácil olhar o noticiário e ver guerras, revoluções. Este é um momento único na história do Oriente Médio. Com a Copa do Mundo, queremos um renascimento da região, o ressurgimento de uma nova vida.”

Esse desejo culminou em um plano faraônico de mais de R$ 400 bilhões. Se muita gente questiona a razão de o Brasil gastar R$ 28 bilhões para organizar a Copa do Mundo do ano que vem, esse valor é uma migalha em comparação com o que será investido no projeto do Catar.

Acusado de ter comprado votos e de não ser um local ideal para a prática de esportes no verão, época da Copa, o Catar enfrenta sérias resistências para manter seu projeto de organizar o primeiro Mundial da próxima década, mas, no plano para 2022, a bola é apenas um detalhe. Segundo um informe da consultoria Deloitte, o projeto envolve obras no valor de US$ 200 bilhões (R$ 453 bilhões), incluindo estradas, portos, aeroportos, a renovação de cidades inteiras e, claro, a construção de estádios com refrigeração - ideia atacada por ambientalistas.

Só em infraestrutura de transporte, a meta é gastar US$ 140 bilhões (R$ 317 bilhões) com estradas e um metrô para permitir o fluxo de torcedores entre os estádios, que ficarão em uma área só duas vezes maior do que o Distrito Federal. Outros US$ 20 bilhões (R$ 45 bilhões) serão gastos em hotéis. Em 2022, o Catar espera receber 3,7 milhões de turistas.

SOBREVIVÊNCIA

No Catar, as críticas aos gastos gigantescos com a Copa são solenemente ignoradas. E o motivo é simples: para as autoridades do país, apropriar-se do futebol não é um exercício para satisfazer o ego do emir, mas uma maneira de garantir a sobrevivência como país em uma das regiões mais instáveis do mundo, com vizinhos temidos como Arábia Saudita e Irã.

“O Catar encarna, mais do que qualquer outro estado, o que se pode chamar de diplomacia do esporte”, declarou Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais em Paris, considerado o maior pesquisador da relação entre a bola e a política internacional. “O investimento no futebol é produto de uma análise astuciosa de uma nova relação de força no mundo e de uma vontade profunda de existir num ambiente turbulento.”

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