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Antero Greco
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Muralhas contra o humor

Brincadeira de jornal carioca com apelido de goleiro do Fla escancara a sisudez nacional

O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2017 | 03h00

O brasileiro desaprendeu a rir? Pelo visto, sim. Está certo que os tempos são bicudos e não há muita razão para brincadeiras a torto e a direito. Difícil sorrir como se a vida não passasse de um eterno carnaval. Também não precisávamos virar povo taciturno, sisudo, melindrado, que transforma qualquer palavrinha em questão de honra. 

Tome-se o caso de Extra x Muralha. Sabe do que se trata? Explico.

Na sexta-feira, esse jornal carioca, famoso por seguir a tradição de linha editorial popular, como os antigos Luta Democrática, Notícias Populares, estampou na capa artigo no qual afirmava que não chamaria mais o goleiro reserva do Flamengo pelo apelido. Passaria a tratá-lo apenas pelo nome de batismo, Alex Roberto Santana Rafael. Só mudaria de postura quando voltasse a justificar o apodo.

O motivo para atitude tão “séria”? As falhas nas defesas das cores rubro-negras. Não é de hoje que Muralha tem sido infeliz em lances importantes, a ponto de as escorregadas deixarem em segundo plano as defesas bonitas que rotineiramente faz. A torcida pega no pé dele, exige a saída do elenco, bem como a de outros jogadores caídos em desgraça. O de sempre no futebol...

O Extra embarcou na onda e fez artigo de fundo supostamente vetusto contra o moço. Leitura sensata, e sem a necessidade de forçar neurônios, escancara o objetivo leve da publicação. Nela fica evidente que não há intenção de desdém tampouco de expor um profissional à execração pública. O “editorial” está inserido no espírito do próprio quotidiano. Leitores habituais do quotidiano não se alarmaram.

Pois bem, foi um deus nos acuda. Houve torcedores que não levaram ao pé da letra, no que fizeram bem. Assim como houve os que viram afronta inominável no episódio. Muralha ficou aborrecido e acionou advogados. O presidente do Flamengo, numa entrevista em tom grave, alertou para os riscos que corre a integridade do atleta.

Entende-se a reação de Muralha. Ninguém gosta de críticas e nem todos estão abertos a bom humor nesta fase, repito, estranha que estamos a viver. No entanto, sem ser analista de imprensa nem advogado do jornal ou corporativista, há exagero na interpretação.

Grave é quando a imprensa destrói reputação, como no episódio da “Escola Base”, rumoroso caso nos anos 90, em São Paulo, em que uma instituição de ensino infantil foi arrasada por denúncia falsa de abuso sexual contra crianças. Perigoso quando se distorcem fatos que podem gerar comoção social. Irresponsável se parte para a calúnia, como já ocorreu tantas vezes.

No caso do Muralha houve tentativa de tornar menos pesado tema que torcedores tratam como questão de estado. Em vez de debates acalorados, cara fechada, teses sobre papel da imprensa, bastava uma pitada de autoironia e fim de papo. Despertou mais indignação esse artigo do que o desequilibrado que assediou uma moça em ônibus na avenida Paulista.

Pode-se alegar que a brincadeira do Extra não foi engraçada. Daí, vai de interpretação e idiossincrasias de cada um. Fora de propósito é fazer disso cavalo de batalha. Então, jornais não podem mais publicar, por exemplo, charges. Porque de alguma maneira sempre “ofenderão”. Imagine dar apelidos, como “Edilson Capetinha”, “Edmundo Animal”, “Gilmar Fubá”, “Marcelinho Pé de Anjo” e por aí vai?! Acintes!

Ao mesmo tempo em que se vislumbram danos a Muralha, por conta de uma atitude jocosa, se endossa carga pesada sobre Márcio Araújo, colega de clube. Jogador mediano e esforçado, que conta com simpatia de diversos técnicos com os quais trabalhou, é tratado como vilão, espezinhado todo dia. Não há clemência nem protestos. E faz sentido: é malhado com “seriedade” – e o brasileiro não está mais pra brincadeiras.

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