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Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Muricy Ramalho: 'Alguns técnicos jovens assumiram muito cedo os clubes grandes'

Comentarista do SporTV e ex-técnico analisa o momento dos jovens treinadores no futebol brasileiro

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 09h50

Ex-técnico e atual comentarista de futebol do SporTV, Muricy Ramalho comentou o que ele pensa sobre a mudança que tem ocorrido no futebol brasileiro. O Brasileirão de 2020 reforça uma tendência inesperada em comparação aos últimos anos. Em vez de apostar em jovens treinadores, os clubes estão atrás de outros perfis. Se até pouco tempo atrás os comandantes novatos eram considerados a saída para o futebol nacional evoluir, agora eles têm sido preteridos pelos mais experientes e pelos estrangeiros.

Para Muricy, o problema maior é que alguns técnicos assumiram grandes clubes de forma muito prematura e essa 'queima de etapas' por ter feito com que os dirigentes tenham decidido que não vale mais apostar em novatos brasileiros no comando de suas equipes. Confira a análise do ex-treinador. 

Eu acho que os jovens técnicos foram colocados muito cedo para dirigir alguns grandes. Por isso eles perderam espaço. Deveriam ter passado por uma preparação maior, mais intensa e direta no dia a dia, começando de baixo para cima, lá com o trabalho ainda na base. Foi isso que ocasionou que essa safra de técnicos jovens, que é boa, perdesse espaço. Essa geração vai ficar melhor um pouco mais no futuro, com a experiência. O conhecimento eles têm, só que ainda falta a vivência.

Temos uma lacuna atualmente que os mais experientes também estão parando e saindo do futebol. Então vivemos um buraco. E aí nesse espaço que chegam os treinadores estrangeiros. Anos atrás, os clubes chegaram a trazer alguns técnicos de fora que não deram certo. Mas agora estão escolhendo bons nomes, profissionais com capacidade e que têm conseguido ótimos resultados no nosso futebol.

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Para dirigir um time você precisa ter muita bagagem. Não é problema de conhecimento, mas é questão de comando e de liderança. Nem sempre um jovem se impõe
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Muricy Ramalho, Ex-treinador

Quando comecei minha carreira de treinador, na década de 1990, eu fazia parte de um projeto do São Paulo. O clube definiu que tinha de ser preparado algum treinador para assumir quando o Telê Santana parasse. O Telê havia definido que pararia em até cinco anos e me escolheu para ficar no lugar dele. Mas ele ficou doente antes desse prazo e teve de sair. Então eu tive de assumir, mas não estava 100% preparado para essa missão. Eu fui jogado no lugar porque não tinha como. O clube precisava. Por mais tempo que tive com ele e com o Carlos Alberto Parreira, eu ainda não estava totalmente apto para conduzir um elenco. Para dirigir um time você precisa ter muita bagagem. Não é problema de conhecimento, mas é questão de comando e de liderança. Nem sempre um jovem se impõe.

Agora alguns clubes estão mais profissionais e cuidadosos para contratar o treinador, com setores específicos para avaliar nomes de treinadores. Mas a maioria ainda não. Ainda se vive do modismo. Alguns times jogam na imprensa o nome do treinador pretendido para ver se tem aceitação da torcida. Falta muito ainda.

Nem todo técnico dá certo em qualquer time. Existem perfis mais adequados. Um exemplo é o Santos. É um clube que gosta de futebol ofensivo, de molecada, então não adianta levar um treinador como o português Jesualdo Ferreira. Ele falava que gosta de time equilibrado, então não estava no lugar certo. O Santos gosta de postura ofensiva e de correria. Então, faltou esse critério para contratar. 

A CBF tem organizado mais cursos para a formação de treinadores, com a presença de mais especialistas. No meu tempo não haviam tantos cursos assim. Agora é um curso mais longo, mais elaborado, com profissionais de várias áreas. O problema é que precisa ser reconhecido fora também. O diploma daqui não vale lá fora ainda. Nisso temos de melhorar. Mas é um começo. A gente percebe que bons profissionais têm conseguido se aprimorar com esses cursos.

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