Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Museu em Moscou traz a conquista do espaço pela visão dos russos

Espaço dispõe de simulador de voo e acervo com uma réplica do macacão de Yuri Gagarin e até a cadela Laika empalhada

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 04h00

Na manhã quente de sexta-feira, a cientista social brasileira Gabriela de Donatti decidiu dar uma pausa na programação da Copa para fazer um passeio cultural. Arrastou o pai Renê, a mãe Bete, a irmã Paula e o cunhado Fernando e foram ao Museu do Cosmonauta Russo. O passeio atendia a um desejo que ela tinha desde a infância: conhecer o lado russo da corrida espacial, aquela disputa com os EUA pela supremacia no espaço entre 1950 e 1960. “Sempre recebemos informações sobre as conquistas norte-americanas. Queria equilibrar a balança e ver o que dizem os russos”, afirmou a brasileira gremista. 

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Durante a Copa, muita gente está fazendo como Gabriela e dando ouvidos aos russos nesse tema. Um dos pontos turísticos mais importantes de Moscou, o museu está sempre cheio. Nos dias de semana comuns, são mil visitantes; aos sábados e domingos, cerca de 2.500. Agora, na Copa, o número chega a 5 mil visitantes diariamente, o dobro. O ingresso custa 200 rublos (R$ 12), mas é preciso mais 200 para poder fotografar. Vale a pena. Ali dentro existem coisas que não podem ficar só na memória. É preciso levá-las nas câmeras fotográficas e celulares, compartilhá-las e postá-las. É um tributo à contribuição russa à conquista do espaço. 

O acervo é riquíssimo. Dá para entrar no simulador de voo que é usado hoje no Centro de Treinamento de Cosmonautas, ver uma transmissão ao vivo da estação espacial internacional atualmente orbitando a Terra e conhecer os detalhes da Estação Espacial MIR. Os curadores se preocupam em mostrar o cotidiano no espaço, como eram guardados os alimentos, como tomavam banho e usavam o banheiro. O telefone para falar com a Terra em 1965 é um achado. Há fotos históricas com a Praça Vermelha lotada quando Yuri Gagarin voltou - mas ainda não é a hora de falar dele. 

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Recebemos as informações sobre as conquistas dos EUA. Queria equilibrar.
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Gabriela de Donatti, cientista social brasileira

CORRIDA ESPACIAL

Primeiro, é preciso refrescar a memória sobre a corrida espacial. Ela começou na disputa armamentista entre União Soviética e EUA, as potências emergentes da Segunda Guerra. O pioneirismo espacial era um símbolo da superioridade tecnológica e ideológica de cada país. Guerra Fria. O espaço sideral era o campo de jogo. Foram várias realizações de um lado e do outro, como o lançamento de satélites artificiais, voos em torno da Terra e viagens tripuladas à Lua. A competição começou com o lançamento do satélite Sputnik em outubro de 1957. 

 

O primeiro ser vivo terrestre no espaço foi a cadela russa Laika. Ela está empalhada, em destaque. Laika subiu ao espaço em novembro de 1957 na Sputnik 2, mas morreu poucas horas depois por causa do superaquecimento. As crianças adoram tiram foto ao lado de Laika. “Decidi vir aqui porque essa é uma parte importante da história. É interessante para todos, não importa se foram russos ou americanos”, diz Omar Moreno, vendedor de automóvel colombiano. 

O destaque do museu é o astronauta Yuri Gagarin, primeiro homem no espaço. Ele realizou voo orbital de uma hora e 48 minutos a bordo da nave Vostok 1 em 12 de abril de 1961, data que os russos sabem de cor. Neste voo, ele disse: “A Terra é azul”. Sua foto estampa a entrada do museu. Uma réplica suspensa do seu macacão é a instalação mais importante do primeiro andar. 

Em 5 de maio de 1961, menos de um mês depois, Alan Shepard se tornaria o primeiro americano e o segundo homem a viajar ao espaço, mas seu voo levou apenas 15 minutos. Em 1969, os Estados Unidos chegaram à Lua com Neil Armstrong. 

Gagarin está em todos os lugares na Rússia. O Monumento aos Conquistadores do Espaço é o destaque do lado de fora do museu e foi feito em 1964, para homenageá-lo. Trata-se de uma torre fininha de 110 metros de altura, de titânio e aço, que reproduz a decolagem de um foguete. 

Gagarin está em estátuas, chaveiros, louças, bonés, camisetas, miniaturas e ímãs de geladeira. Ele é tema obrigatório na faculdade de preparação, uma espécie de curso de introdução sobre a História da Rússia aos estrangeiros que decidem fazer qualquer curso universitário por aqui. “Gagarin é um ícone e nos incentiva a saber sobre o cosmos. Desde a infância fui educado para me interessar pelo assunto. É incrível estar aqui”, diz Danis Zakirov, formado em Direito. 

Danis faz a visita com o pai Dzhaudat Zakirov, doutor em Física. Para ele, a disputa entre russos e americanos é coisa distante, apenas no meio político e que não se refere às pessoas comuns. Os dois quiseram espontaneamente falar sobre futebol. Contam que acompanharam a derrota da Argentina para a Croácia. Foi a primeira vez que o filho foi a um estádio. Estava emocionado. “Futebol e física são empolgantes”, diz o pai, orgulhoso por ter acertado na escolha dos passeios. 

 

 

 

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