Mustafá é o alvo da revolta palmeirense

O que restava do Palmeiras, desde o rebaixamento no ano passado, se esfacelou nesta quarta-feira à noite no Palestra Itália. Sobrou apenas o verde da camisa. Nada ficou de pé. História, o pentacampeão Marcos, os esforçados rapazes do técnico Jair Picerni, a mística do Palestra Itália, tudo virou pó depois da goleada por 7 a 2 que o time sofreu para o Vitória. O jogo era pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil mas se transformou em um treino de luxo do time baiano. Há muito tempo não se via tamanha humilhação. E o campeonato da Segunda Divisão ainda nem começou. No jogo de volta, quarta-feira, em Salvador, o Palmeiras garante a vaga à próxima fase se vencer por seis gols de diferença. A dúvida: o Palmeiras irá a Salvador? A torcida desistiu do time, mas não de beber o sangue do presidente Mustafá Contursi. Ao final do jogo, o Major Marinho, responsável pelo esquema de segurança, disse que foi abordado por torcedores com pedidos inusitados: prender Mustafá. ?Alguns mais exaltados brincaram com isso. O fato é que os protestos foram pacíficos e a Mancha Verde prometeu que não faria atos de violência. Todo mundo foi embora para casa de forma ordeira." Quase uma hora antes do início do jogo, também não havia tensão no estádio. Havia desconfiança de que seria uma noite dura. Dirigentes do Palmeiras, preocupados com uma possível reação da torcida, reforçaram a segurança. Cem policiais foram espalhados pelas alamedas do clube.Na rua Turiaçu, principal via de acesso ao estádio, torcedores consumiam engradados de cerveja. Bares entupidos. A Mancha Verde distribuía panfletos com uma caricatura de Mustafá Contursi, no cérebro do presidente um vaso sanitário. Outros planfetos, divulgados pela oposição, que se intitulou Governo Pararelo do Palmeiras, pedia a renúncia já de Contursi. O torcedor comum chegava ao estádio querendo empurrar o time. Não havia clima de hostilidade, apenas desconfiança de que nada adiantaria apoiar os jogadores. O serviço de som do Palestra despejava Zeca Pagodinho. ?Estou feliz porque estou amando você", dizia o refrão do pagode. As pessoas nas arquibancadas também concordavam com Pagodinho. O Palmeiras era amado naquele momento. Quando o time entrou em campo, havia muito entusiasmo, disposição para incentivar os atletas. Marcos calorosamente aplaudido, apesar da rima pobre da torcida. ?PQP, o Marcos é o melhor goleiro do Brasil", saudaram das arquibancadas. ?Vamos jogar com vontade, garra, porque a torcida vem com a gente", imaginou Magrão. Bola em jogo e a tragédia anunciada. Marcos, o pentacampeão mundial, o melhor goleiro do Brasil que a torcida tanto cantou, falhou duas vezes. Nadson e Zé Roberto não perdoaram: 2 a 0, com 17 minutos de jogo. ?Tive duas falhas gritantes, jogador do meu nível não pode falhar assim. O time olhou para trás e viu que eu não estava bem e se perdeu", se penitenciou Marcos. Quando Nadson marcou o terceiro gol do Vitória, aos 21, o pingo de paciência que ainda havia na torcida escorreu. Dali para frente, o Parque Antártica seria um inferno. ?Mustafá, seu imbecil, pega esse Conselho e vai pqp", berravam. Neném recebia a bola e a raiva tomava conta das arquibancadas. Revoltados, o pessoal das tribunas sociais, também soltava a voz: ?Conselho vendido. Vergonha!" Nos camarotes reservados aos dirigentes, apenas dois conselheiros de segundo escalão. A poltrona reservada a Mustafá Contursi estava vazia, continuou vazia até o final do jogo. No campo, o time verde continuava zonzo. Gentil, em um repente, diminuiu para o Palmeiras. Nâo deu nem tempo para comemorar. Nadson fez o quarto gol em seguida. ?Não é mole não, Mustafá é o maior ladrão, tá roubando a torcida do verdão." Esse refrão tomou conta o estádio até o árbitro encerrar o primeiro tempo. No intervalo, facções organizadas da torcida, em procissão, rumaram sob os corredores do estádio até à frente do camarote reservado às autoridades do Palmeiras. E repetiram que Mustafá era um ladrão. Na repetição do bordão contra o presidente, não perceberam que o jogo havia recomeçado e o Vitória já espetava o quinto gol. Envergonhados, os torcedores mais exaltados abandonaram o Palestra. Restavam ainda pelo menos mais 40 minutos. Ficar ali a troco de quê? O Palmeiras se esborrachava na sala da casa. E vinha mais. Marcos, furada espetacular, e o sétimo gol dos baianos. Foi de dar dó. ?Estou com pena do Mustafá, o presidente que mais conquistou títulos no Palmeiras. Já vivi essa situação. Respeito o Mustafá", disse Paulo Carneiro, presidene do Vitória. ?Seo" Manolo, de 77 anos de idade, funcionário da Federação Paulista de Futebol, que cuida da tribuna da imprensa no Palestra, encerrou o assunto: ?Nos meus 45 anos de trabalho nos estádios, nunca vi um clube numa situação como essa."

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