Mutirão para salvar a pele de Tardelli

Com belos gols, como aquele chute de fora da área contra o River Plate, na final da Copa Sul-Americana, Diego Tardelli terminou 2003 como uma das mais luminosas promessas do São Paulo, que no mesmo ano vendeu Kaká para o Milan e Júlio Baptista para o Sevilla. Mas com o ?esquecimento? para se apresentar ao time que disputaria a Copa São Paulo de Juniores e denúncias de atraso de pagamento do aluguel da sua casa, Diego Tardelli passou a ser considerado um jogador com futuro incerto. Seria mais alguém bom de bola, mas ruim de cabeça. ?Ah, se ele tivesse na cabeça a mesma inteligência que tem nos pés. Seria imbatível?, chegou a dizer o diretor de Futebol Juvenal Juvêncio. O jogador rejeita o rótulo de problemático e rebelde. ?Tenho 18 anos e sou apenas um menino carente. Fiz coisas erradas, mas estou mudando bastante. Até achei que o Cuca me escalaria contra o Juventus, mas ele preferiu o Jean. Não faz mal, minha hora vai chegar.? Em julho do ano passado Diego Tardelli deixou os aspirantes para estrear nos profissionais, em uma vitória por 2 a 0 sobre o Coritiba. Jogou bem e, quatro dias depois, fez um gol de bicicleta, no Maracanã, contra o Fluminense. O salário de R$ 700 rapidamente mudou para R$ 6 mil e agora está em R$ 8 mil. ?Sou de família pobre e nunca tive dinheiro. Quando vi aquilo tudo, comecei a gastar. Gastei bastante, não nego.? Só de celular eram R$ 1 mil por mês. E o carro Golf lhe custa R$ 2 mil mensais. ?O dinheiro que ganho é para curtir. Quando ganhar um salário maior, vou comprar um apartamento para a minha mãe. Por enquanto não dá.? Com tantos gastos, alguma coisa teria de ser ?esquecida?. O aluguel da casa onde morava, por exemplo. ?Viajei de férias para Camboriú, me confundi e fiquei dois meses sem pagar o aluguel. Fizeram então uma confusão enorme, para aparecer às minhas custas.? Foi então que o ?xerife? Marco Aurélio Cunha entrou em cena. ?Ele começou a pegar no meu pé com tudo. Eu tinha dois celulares e ele mandou que eu vendesse um e diminuísse as contas. Acho que ele faz isso porque eu tenho bom potencial como jogador?, diz o atacante. ?Sou o carrasco dele. Um padrasto, se quiseram falar. Jogo duro mesmo, é o único jeito?, diz Marco Aurélio, que atesta um comportamento exemplar do jogador no centro de treinamentos. ?O problema é fora do CT, quando ele se transforma. Gasta muito e demora para voltar. Outro dia chegou atrasado na concentração e veio com a desculpa batida que tinha passado por uma blitz. Ninguém acredita.? Cuca, que é citado por Diego Tardelli como alguém interessado em seu futuro, preferiu outra atitude contra o ?rebelde sem causa?. ?Dou dicas para ele como se comportar em campo e tenho tido boas respostas. Ele tem futuro como jogador. O resto a vida vai ensinar. Se não aprender, não vai ter futuro. Já vi ele gritando aí que gostaria de ir embora e não me intrometi?. Marco Aurélio também ouviu. ?Ele gritou mesmo, falou que gostaria de ir embora e eu falei que não ia. Se fosse, seria um prêmio. Ele vai ficar e tem tudo para aprender com os outros jogadores.? O técnico confirma. ?Já vi o Luís Fabiano e o Rogério Ceni darem uma dura nele?, afirma. ?O Luís disse que se eu tiver cabeça vou ser melhor do que ele?, conta Tardelli. O preparador físico Carlinhos Neves diz que Tardelli é um jogador aplicado nos treinos. ?Ele é rápido, ágil e obediente. Nosso papel com ele é como o de educar um filho.? E o ?filho? promete empenho. ?Não sou mais deslumbrado. Mudei e quero brilhar no São Paulo.? Promessa de ?menino carente? ou mentira de ?rebelde sem causa??

Agencia Estado,

17 de março de 2004 | 09h26

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