Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

Na alegria e na tristeza

Onde desafogar a virilidade se não nos estádios?

Maitê Proença*, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2018 | 04h00

Como os homens são felizes quando cercados de outros homens. E plenos, inteiros na sua macheza. Na Copa, dá gosto ver os rapazes orgulhosos das vitórias, e livres, desarmados, exibindo lágrimas públicas na frustração das derrotas. Quando o contingente de mulheres é imperceptível, eles parecem se soltar mais, permitindo-se liberdades habitualmente represadas. Um amigo enviou-me, da Rússia, um vídeo que celebrava nossa vitória contra a Sérvia. Eram uns 40 marmanjos cantando a música Evidências, de Chitãozinho e Xororó. Estavam em estado borbulhante de alegria. Vou colar trecho da letra:

+ Ugo Giorgetti - É da África

+ Tá russo! Russos se dão conta da saudade que sentirão desses dias tão diferentes

Quando eu digo que deixei de te amar é porque eu te amo/Quando eu digo que não quero mais você é porque eu te quero/Eu tenho medo de te dar meu coração e confessar que eu estou em tuas mãos/Mas não posso imaginar o que vai ser de mim se eu te perder um dia (...)

Pois é. Os rapazes do vídeo cantavam embevecidos. E riam. Quando associo essa imagem quase romântica com as cusparadas que os jogadores expelem em campo numa cobrança de falta, antes de um escanteio, numa substituição, depois de uma queda, ao entrar ou sair do gramado, e assim por diante, percebo nos meninos maior complexidade. O cuspe em si já me é difícil decifrar.

Jogadores de basquete não cospem, tenistas tampouco. Mas, no futebol, se baníssemos o gesto, seria como amarrar os pés. Pergunto-me se seria uma marcação de território: os machos de outras espécies usam a urina, e os futebolistas se utilizam da saliva.

Será isso? Será que, ao entrar em campo, com o mundo a lhes admirar, os líquidos corpóreos se entopem de testosterona e, como a glória dos gols não acontece na mesma frequência do que no tênis, basquete ou vôlei, eles então lançam aquelas cuspidas pra mostrar quem é que manda ali? Respostas para a coluna. Seja como for, independentemente de quem domina, o futebol em si é dos meninos. Basta ouvir a voz dos estádios. Os islandeses imitam o trovão e não deixam dúvida, o som das arquibancadas, o brado, o canto da torcida, tudo é fundo, grave, e másculo. As câmeras buscam mulheres e há repórteres cobrindo o esporte – de que nós gostamos muito –, mas, para os rapazes, o jogo parece sobre vivencial. Não há mais caçadas, não há lanças nem flechas, não há bois pra derrubar, não há duelos para o homem moderno. Onde desafogar a virilidade se não nos estádios?

 

Pra piorar, as mulheres resolveram inventar a “sororidade”, essa palavra que não existe na língua portuguesa. Decidimos repudiar a misoginia com um esforço pessoal e coletivo para destruir a cultura da opressão. Sempre funcionamos juntas, mas não tínhamos a consciência de como são poderosas nossas alianças. Agora temos. Na organização das aldeias, as regras eram deles, mas a prática era nossa. Eles saíam para caçar e nós lidávamos com o dia a dia, moldando as circunstâncias à realidade. Aprendemos assim a lidar melhor com a diversidade das questões cotidianas coletivas. Sempre achei que os meninos nos depreciam por inveja. Não dão conta dos seres substantivos que somos e por isso nos diminuem com adjetivos e gestos. Como competir com criaturas que sabem gerar e parir crianças? Como conviver com a ideia de que todo homem saiu de dentro de uma barriga feminina? Fica difícil, né meus boys?

Ainda assim, gostamos de vocês. O termo fraternidade sempre fez parte de qualquer dicionário. No futebol, dentro e fora do campo, esta harmonia resplandece em apogeu. Que belo talento para se mover atrás de um objeto que se desloca, quanta destreza territorial há nas origens caçadoras, quanta rapidez e inteligência nas escolhas de cada lance.

Já imaginaram tudo isso a salvar o planeta? Vamos juntar forças?

 

*ATRIZ E ESCRITORA

 

 

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