Na cara dura

Sinceridade deveria ser comportamento corriqueiro, tão natural quanto respirar, comer, beber, dormir; função básica e instintiva para qualquer sujeito. Mas, no cotidiano, não é assim. Como a vida se pauta muito em hipocrisia, agir com transparência virou qualidade, elogiada quando alguém a pratica. No futebol, não é diferente.

Antero Greco , O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2015 | 03h00

O maravilhoso mundo do esporte bretão deu ontem, por aqui, duas provas de como a sinceridade anda por baixo. A primeira, para ficar em tema ligado a bola rolando: o presidente da Comissão Nacional de Arbitragem considerou acertada a decisão de Luiz Flávio Oliveira de ignorar pênalti de David Braz sobre Lucas Barrios no clássico entre Santos e Palmeiras pela Copa do Brasil. Na avaliação de Sérgio Corrêa, o palmeirense tropeçou nas próprias pernas no momento em que entrava na área e ficaria cara a cara com o goleiro Vanderlei. 

A segunda demonstração de prestígio da cara de pau surgiu na reunião da Conmebol realizada no Rio. Após o encontro da nata da cartolagem sul-americana, veio o anúncio de que Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, renunciou ao cargo que ocupava no Comitê Executivo da Fifa. A justificativa para tal? O dirigente anda ocupadíssimo com os afazeres no futebol doméstico. Não dá nem para viajar mais.

No primeiro caso, há briga com as imagens. Barrios dominou a bola, ganhou de Braz na corrida e, de repente, um leve toque do defensor faz com que o paraguaio caia. Se foi intencional ou não o choque, é outra história; mas ocorreu. Se o pênalti mudaria o rumo do placar também fica só no terreno das hipóteses e igualmente não interessa para a discussão. (Ressalte-se que o Palmeiras jogou mal pra caramba, com uma covardia de envergonhar.)

Conta a postura oficial, o corporativismo da turma do apito. Ninguém é tolo de ignorar o quanto existe de pressão - muitas vezes forçada e falsa - sobre os árbitros. A choradeira rola solta em toda derrota, e o Brasileiro deste ano serve de exemplo. No entanto, há episódios em que a reclamação cabe e deve ser considerada. Não para alterar o marcador, fato consumado e irrevogável. Mas para servir de parâmetro para análises do desempenho dos juízes e o aprimoramento deles. A falha de anteontem se encaixa nesse contexto.

No entanto, se o chefe do pessoal vem a público dizer que foi tudo certo e normal - como em outras ocasiões -, então não se pode esperar progresso. Os homens de preto continuarão a sentir-se acima do bem e do mal, seres inatingíveis e infalíveis. Confunde-se gritaria tosca com constatação correta, sem discernimento, como agora. (E, se alguém não entendeu os parênteses de dois parágrafos acima, repito: os palestrinos mereceram perder, têm de levantar as mãos para o céu que não tomaram surra. Mas foi pênalti.)

A troca de representante brasileiro no Comitê da Fifa segue rematado roteiro picaresco. Del Nero não põe os pés fora do Brasil por nada, coincidentemente desde quando saiu às carreiras de Zurique, em maio, ao mesmo tempo em que seu grande (e, pelo visto, ex) amigo e mentor José Maria Marin era preso sob acusação de corrupção. Dali em diante, foi tomado de fobia aguda por avião e faltou a todas as reuniões da casa mãe do futebol. Não foi sequer à Copa América. Nem à premiação do Corinthians, domingo, em Itaquera.

Para driblar constrangimentos, sugere o nome de Fernando Sarney, um dos vices da CBF, e seus pares da Conmebol prontamente aceitam. Pronto, para consumo externo fica a explicação de que, assim, Del Nero pode concentrar-se na lida estafante de manter a pujança do futebol brasileiro, com conceito em alta e sem ranhuras desde os 7 a 1...

Difícil acreditar em evolução com atitudes como estas. Não há como confiar em aperfeiçoamento na CBF - “exemplo do Brasil que deu certo”, segundo Parreira -, se a arbitragem é afagada nos erros e o presidente, ao se ver acuado, age como se nada fosse com ele. Bom, esse filme passa em outras esferas também...

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