Felipe Oliveira
Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

Na contramão, Bahia 'ignora' YouTube e aposta no seu aplicativo para 'substituir' receita

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

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O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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José Colagrossi, diretor do Ibope Divulgação|Arquivo Pessoal

'Streaming chegou para ficar, mas por enquanto é apenas complemento da TV', diz diretor do Ibope

José Colagrossi projeta o futuro das transmissões de jogos com a nova MP e o crescimentos dos canais de internet para ajudar clubes a fazer mais dinheiro

Daniel Batista e Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

José Colagrossi, diretor do Ibope Divulgação|Arquivo Pessoal

A transmissão do futebol brasileiro vai passar por transformação nos próximos anos, é o que garantem especialistas. Resta saber o que terá de positivo e de negativo nessas mudanças, principalmente quando o assunto for streaming, a transmissão de jogos ao vivo pela internet. O assunto ainda está aberto, sem todas as respostas. O diretor-executivo do Ibope Repucom, José Colagrossi, acredita que é uma tendência que chega para ficar no Brasil, mas é preciso olhar para ela com cautela.

Em entrevista ao Estadão, o especialista em audiência e marketing esportivo afirmou que acha pouco provável que os jogos pela internet substituam as exibições pela TV, e também o seu dinheiro. Qualidade do sinal, velocidade de internet e até o fato de o usuário usar o celular como multitarefas estão entre os pontos que ele destacou. Colagrossi projeta que haverá uma diminuição no valor dos direitos de transmissão com a "popularização" das transmissões para vários canais e mídias. O clube terá de fazer as contas. Ele ainda destacou que se os clubes quiserem maior visibilidade, não podem jamais abandonar a televisão, maior canal de comunicação de massa no Brasil. 

O que esperar das transmissões de futebol a partir de agora?

A curto e médio prazo, pouca coisa vai mudar. A MP não tira os direitos adquiridos dos contratos em vigor. Existem três clubes que podem fazer alguma coisa no Brasileirão: o Athletico-PR, o Red Bull Bragantino e o Palmeiras, que podem passar suas partidas na internet. Em 2021, temos de ver como vai ficar o contrato da Globo com o Carioca. Se realmente houve uma rescisão, todos os clubes do Rio estão livres para fazer o que quiser. Em 2022 termina o contrato do Mineiro e do Paulista e a situação é a mesma. O Brasileiro termina em 2024. O torcedor achar que mudou tudo não é verdade. Se você não for torcedor do Athletico, do Bragantino e do Palmeiras, vai continuar vendo jogos do seu time apenas na TV.

Negociação individual é o melhor caminho para os clubes?

Vamos olhar para as ligas de maior sucesso de audiência e de arrecadação no mundo: NFL, MLB, NHL, NBA, Campeonato Espanhol, Italiano, Inglês e Alemão. Todas negociam direitos de transmissão em conjunto. O exemplo internacional que temos o contrário é a Federação Portuguesa, que optou por negociação individual e os resultados não são bons. Se o exemplo internacional serve para alguma coisa, é para mostrar que a negociação coletiva funciona melhor.

Alguns clubes pretendem investir em transmissões próprias. Esse é o melhor caminho?

Produção de conteúdo custa caro. Ter estrutura, equipamento, equipe, é um investimento pesado para fazer com o padrão que o torcedor está acostumado a ver. Para fazer um conteúdo de qualidade, é preciso alto investimento e como pagar por isso? É preciso uma audiência muito grande e de torcedores que estejam dispostos a pagar. Brasileiro está acostumado a assistir jogo de graça ou pagando para ter todos os jogos. Nunca testamos esse modelo de pagar para ver só o seu time. Quando poderia ser testado, no jogo do Flamengo no Carioca, deu problema no site e podemos ver que houve uma gritaria enorme na internet, de gente criticando a cobrança.

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Se o exemplo internacional serve para alguma coisa, é para mostrar que a negociação coletiva funciona melhor.
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José Colagrossi, diretor do Ibope

Você acredita que os clubes conseguem ter estrutura para transmitir jogos?

De jeito nenhum. Quantos clubes no Brasil tem tamanho de torcida suficiente para gerar uma demanda que pague as contas? Se falar que os dez clubes de maior torcida do País conseguem fazer, eu digo que não é verdade. E tem um outro ponto. A gente vê nos dados de audiência que a aderência da torcida depende muito do resultado em campo. Se você torce para um time que está ganhando tudo, como o Flamengo, a torcida lota estádio, compra, apoia. Mas já vi jogo do Flamengo com seis mil torcedores no estádio e estamos falando do time de maior torcida do País. Precisa avaliar tudo isso.

A experiência de assistir futebol no celular pode interferir na evolução do streaming?

Por enquanto, a experiência de assistir futebol no celular, comparada a ver na TV, é muito frágil. A tela é pequena, você não vê os mesmos detalhes e tem o delay. No celular, o gol acontece 36 segundos depois. O seu vizinho está ouvindo o jogo pelo rádio e grita gol, você não sabe nem de que time foi ainda. Tem uma outra questão que é o valor investido para assistir um jogo. Hoje, 60% das contas de celular do Brasil são pré-pagas. Você resolve assistir ao jogo com seu pacote de dados, acaba sua internet e você precisa comprar mais crédito. Bom, o clube diz que a transmissão é de graça, mas você paga para ter créditos de internet. Logo, não é de graça. E pesquisas mostram que o usuário gosta de usar o celular para multitarefas. Ficar com o aparelho parado, assistindo ao jogo, não agrada boa parte das pessoas.

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Ficar com o aparelho parado, assistindo ao jogo, não agrada boa parte das pessoas.
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José Colagrossi, diretor do Ibope

Com tudo isso, podemos imaginar que a visibilidade dos clubes cairá, certo?

Vou te dar um exemplo. Teve Flamengo x Boavista, foi recorde no YouTube, com 2,2 milhões de visualizações simultâneas, com o link para todo o Brasil assistir. Na mesma hora, a Globo passou Portuguesa x Botafogo para 13 Estados (Rio de Janeiro, Espírito Santo, Juiz de Fora (MG), Distrito Federal, Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe) e deu 7,9 milhões de pessoas assistindo. Olha que o jogo não passou para praças que têm muitos telespectadores como São Paulo, Bahia e Minas Gerais. O jogo do Flamengo, por tudo que aconteceu, talvez tenha sido uma das partidas mais comentadas do futebol brasileiro em 2020 e teve 2,2 milhões. Portuguesa x Botafogo, sem apelo nenhum, que passou para uma parte do Brasil, teve 7,9 milhões. Isso mostra o alcance e a popularidade da televisão. O streaming chegou para ficar, alguns clubes podem aproveitar, mas por enquanto e pelos próximos anos, é apenas um complementar da televisão.

Isso é o poder de alcance da TV aberta ou da TV Globo? Jogos na Globo geralmente têm mais audiência do que em qualquer outro lugar...

Um pouco dos dois. Mas o fato é que os clubes hoje dividem audiência com outros esportes que estão chegando forte no Brasil, como o futebol americano, e também tem os campeonatos europeus. Além disso, boa parte dos torcedores olham o futebol como uma forma de entretenimento e o coloca em disputa com outras formas de distração. Vamos ver como será a partir de 2024. Os valores dos direitos de transmissão devem cair. Antes, existia um monopólio de uma emissora, mas também dos clubes. Agora, vários canais e mídias vão competir pelo mesmo conteúdo e estudos mostram que isso tende a desvalorizar o produto.

Pela forma como se deu a exibição de jogos do Flamengo para o streaming, algumas pessoas tiveram a sensação de um confronto entre essas modalidades de transmissão. Mas além de ser complementar à TV, o streaming tem desafios. Quais são os principais?

O streaming dá a oportunidade ao fã que não está em casa e não tem acesso à televisão possa ver o jogo ao vivo. A função é essa, em qualquer esporte. 60% das pessoas têm telefone celular no Brasil em um plano pré-pago. Se você consome os dados, você fica sem acesso às outras funções. E o celular é uma plataforma multifunção. Se você usa o celular para ver o jogo, tira o apelo da plataforma. Então isso tira alcance, pois a experiência da TV é muito maior.

O acordo de transmissão do Brasileirão só terminará em 2024, então é impossível pensar em streaming nesse momento. O que os clubes devem fazer até lá para que esse modelo seja viável e atraente?

Isso dá aos clubes o tempo necessário para se prepararem. Os fãs estão acostumados a um padrão de transmissão. Se o padrão oferecido pelo clube for inferior, o torcedor só vai tolerar quando for novidade. Os clubes maiores terão transmissão própria. Os menores vão fazer parcerias com empresas que já possuem streaming, dividindo as receitas.

A transmissão por streaming poderá se tornar um concorrente ao sistema de pay-per-view?

Para concorrer com o pay-per-view, a experiência e a qualidade precisam ser semelhantes. É difícil pagar por algo de qualidade inferior. O fã quer uma experiência satisfatória. O fã só tem paciência quando é novidade. Isso pode mudar com o 5G, pela qualidade, com estabilidade de rede e velocidade. Quando chegar ao Brasil, a experiência será superior. Mais para frente, poderá haver uma concorrência direta, mas não no curto prazo.

É possível imaginar que campeonatos relevantes do futebol brasileiro não tenham exibição pela TV, especialmente a aberta?

As dez maiores ligas do mundo privilegiam a TV aberta, menos a Premier League (o Campeonato Inglês), que está na paga. E na Inglaterra, a penetração é quase igual. Cinco delas vendem pacotes pela internet, mas você não assiste ao jogo do Giants (time da NFL) no streaming em Nova York. É bloqueado para que você assista pela TV. Todos usam a televisão como principal modo de divulgação do conteúdo.

Como clubes e patrocinadores podem compensar o menor alcance do streaming para minimizar a redução da exposição das marcas?

O apelo da rede social é o engajamento através da interatividade. A televisão é uma experiência fantástica, mas passiva, com busca pela interatividade na segunda tela. O streaming deve ser usado pelo patrocinador para se conectar aos fãs, para que se tornem fãs das marcas. Tão importante quanto o jogo é o que se faz durante a semana. E aí o clube precisa criar conteúdo para fomentar a paixão e o consumo do torcedor. E isso se faz com conteúdo de fã, de bastidores, de gamificação.

Durante a pandemia, alguns canais apostaram na transmissão de jogos antigos. É um caminho interessante para a audiência?

Temos de olhar com cuidado para esses números. Antes, existia uma demanda de gente que queria ver futebol e não tinha o que assistir. Aí passavam jogos antigos. O resultado foi bom. Se analisar a audiência de 2020 e comparar com a de 2019, 47% das pessoas assistiram pelo menos um minuto de transmissão de jogo antigo, enquanto 86% assistiram a um jogo ao vivo ou um VT recentemente, no mesmo período do ano passado. O que fica como dúvida é se oferecer esse conteúdo histórico no momento em que já existem os jogos ao vivo é uma boa. O que deu para tirar de lição é que canais que não possuem esporte agora, como a Band, podem apostar nesse conteúdo que já está pago e guardado na gaveta. Talvez, não vá liderar a audiência, mas vai ter o seu valor.

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Pedro Daniel Divulgação

'Estamos em um momento de transformação da indústria e de mentalidade', diz Pedro Daniel

Especialista em marketing esportivo acredita que nova MP fará com que clubes tenham mais força para negociar contratos

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Pedro Daniel Divulgação

O futebol brasileiro está em um momento de mudanças profundas e ela pode ser acelerada por fatores externos e internos. Essa é a avaliação de Pedro Daniel, diretor-executivo da EY, que aponta a medida provisória editada pelo presidente Jair Bolsonaro que dá aos clubes mandantes o direito de negociar a transmissão os jogos em que são mandantes como um passo importante para uma alteração bem maior: a negociação coletiva dos contratos, especialmente por se dar em um período de transformação digital.

Essa mudança, na visão do executivo, também tem ocorrido na indústria esportiva e na mentalidade dos dirigentes, hoje mais maduros e conscientes da necessidade de que os acordos sejam coletivos. Ele pondera, no entanto, que a mudança no formato de negociação dos contratos pelos direitos de transmissão não deveria ter vindo através de uma medida provisória, mas após amplas conversas que possam permitir um modelo que aumente o alcance e a receita do futebol brasileiro.

Como um fator externo, Pedro Daniel aponta que a crise do coronavírus forçou os times a acelerarem a produção de conteúdo digital. E pode conduzir outros a se transformarem em clube-empresa, um processo que ele vê com potencial para o crescimento de equipes médias, e que faz parte da necessária reestruturação do futebol nacional.

Confira a entrevista completa com o executivo da EY abaixo:

Qual é o tamanho da perda para os clubes pela crise do coronavírus?

No pacote do jogo, a redução é de 60%, aproximadamente. A pandemia chegou em março, então alguns jogos haviam acontecido, e ainda tem os planos de sócio-torcedor para mitigar isso. Mas bilheteria, não tem como existir mais neste ano. E também haverá um impacto sobre a receita dos planos de sócio-torcedor, porque no Brasil há uma grande ligação com o ingresso, ao contrário de outros países.

E o impacto sobre outras receitas? Já é possível estimar essas perdas?

É um impacto indireto, porque a pandemia trouxe uma crise de liquidez que também afetou as empresas. Por outro lado, a desvalorização do câmbio torna os atletas mais baratos no mercado estrangeiro, e os brasileiros não são “artigos” de primeira linha, então funciona como uma substituição, como um produto de segunda linha, para os clubes que não vão conseguir contratar grandes estrelas. Isso pode beneficiar os brasileiros.

Com a redução das receitas recorrentes, os times brasileiros vão depender ainda mais da venda de jogadores para fechar suas contas?

Com a crise econômica, as pessoas vão investir menos, vão assinar menos o pay-per-view. A pandemia não foi específica de uma indústria ou uma região, ou seja, o PIB do futebol também foi afetado. As empresas também estão com problemas de liquidez, toda a cadeia. E os clubes, que já estavam em dificuldade pré-pandemia, terão de honrar seus compromissos e a venda de atletas, historicamente, é a solução deles.

Como os clubes podem agir para obter novas receitas em um período de crise econômica?

Os clubes deveriam se unir para regular a indústria para faturar mais, com o clube-empresa, o fair-play financeiro. Como a indústria está estruturada, você não vai conseguir recursos novos. Essa é uma chance de mexer no setor como um todo.

É possível acreditar que os clubes têm a mentalidade de união para aumentar as receitas do futebol brasileiro e não apenas de suas equipes?

Sou otimista por estarmos em um momento de transformação, pelo contexto da indústria e pela mentalidade dos dirigentes. Nos distanciamos muito do mercado externo. A discussão é como se fazer, pois já temos o diagnóstico. Há casos, ainda que isolados, de união de clubes. O conteúdo é o campeonato não existe internacionalização de uma marca de um clube sem o campeonato, sem o escopo em que está inserido.

Como você avalia a medida provisória que alterou o modelo de negociação dos direitos dos jogos, deixando esse direito com os clubes mandantes?

Deveria ter havido uma discussão mais ampla, com todos os entes envolvidos. É uma discussão muito importante, sobre o maior faturamento de todos os clubes do Brasil. E estamos em um momento de transformação digital em todos os segmentos. Pode trazer inovações para a indústria. Mas essa é só uma parte do processo, porque o produto é o campeonato e não o clube. A gente não compra o jogo do Real Madrid ou do Manchester City, mas o Campeonato Inglês, o Espanhol e a Liga dos Campeões. Então, pode ser importante para levantar o debate da negociação coletiva. O produto é o Campeonato Brasileiro e é esse bolo que precisa crescer. Depois, você discute o modelo de distribuição. O do Brasil é muito desigual, com seis vezes de diferença entre o que mais ganha e o que menos na ganha. Na Inglaterra, por exemplo, são dois.

Iniciativas como o Clubes dos 13 e a Primeira Liga ficaram pelo caminho no futebol brasileiro. É possível acreditar que a mentalidade das equipes mudou para que uma negociação coletiva pelos direitos dos jogos avance?

O mercado mudou. Antes, no Clube dos 13, a discussão era sobre um produto local. Hoje, o Brasileirão disputa mercado com as ligas europeias, não existe fronteira. Forçado ou não, ocorreu um amadurecimento, não só dos dirigentes, mas também do mercado. Acho que atingimos o grau de maturidade necessário para estruturar o produto como um todo, e não com o clube pensando apenas dentro do seu conselho.

O modelo de transmissão adotado pelo Flamengo é viável financeiramente ou foi apenas um improviso como resposta imediata para a MP e a falta de acordo para transmitir seus jogos do Campeonato Carioca?

Mesmo sendo novidade, a transmissão não atingiu os números financeiros e de alcance que teria com a Globo. A discussão é mais ampla do que ser disruptivo. Não vejo como algo interessante para o mercado local que cada clube negocie seu conteúdo isoladamente.

A negociação individual dificultaria a entrada do futebol brasileiro no mercado externo?

Se você individualizar, vai ser criado um grande problema. Na Espanha, há estratégias de internacionalização dos mercados, com um Barcelona x Real sendo à noite, em um domingo, para atingir outros países. É preciso pensar no coletivo, como, em outro exemplo, na Inglaterra, onde um dos seis grandes sempre joga na hora do almoço do domingo.

Como os clubes devem enxergar a Rede Globo nesse cenário de mudança no modelo de negócio?

A disrupção em qualquer indústria vem antes do arcabouço jurídico. A Globo se posicionou bem, vinha fazendo isso, tenho construído, por exemplo, o pay-per-view via aplicativo. E os clubes deveriam vê-la como um parceiro importante e usá-la mais assim.

Como transformar produção de conteúdo em receita?

Os clubes foram clube social, depois se tornaram empresas de entretenimento. Hoje são criadores de conteúdo. A pandemia acelerou essa transformação digital dos clubes. O jogo é o meio e não o fim, é gerador de conteúdo. A gente vê isso com as séries de clubes na Netflix. A maior parte do consumo do Campeonato Espanhol não é mais pelo jogo, mas em plataformas, com o fantasy game e os aplicativos.

A lógica de 12 times grandes no futebol brasileiro está se alterando?

Há uma correlação muito clara entre os aspectos financeiros e a performance. Quando teve o crescimento do bolo financeiro do futebol, a distância aumentou. A história não garante mais a performance, mas a gestão. O mais rico tende a ganhar o campeonato de 38 rodadas. É assim com o Bayern na Alemanha, a Juventus na Itália... O clube que fatura R$ 700 milhões não compete mais com o de R$ 200 milhões, a não ser em um mata-mata. No Brasileirão, há uma consolidação de candidatos ao título nos últimos três anos, especialmente com Flamengo e Palmeiras, ainda que com alguns clubes próximos. Isso já aconteceu e vai se aprofundar com as novas receitas

O clube-empresa é uma solução ou um paliativo para os times?

É uma solução em alguns casos. Nem todos querem virar e não vão virar. A inovação não vem do topo da pirâmide, mas do meio para baixo, em qualquer indústria. Acho propício para clubes de Série B, como o caso do Bragantino, que chegou muito rápido na Série A. E chega sem o passivo para disputar, então vai furar a fila. O Athletico-PR é um caso interessante, tem estrutura e com aporte de capital vai para o primeiro bloco.

A crise financeira provocada pelo coronavírus pode levar clubes endividados a fechar?

Muitos clubes já teriam fechado se fossem empresas ou estariam em recuperação judicial. A gente fala em falência esportiva e já está começando a ocorrer. A pandemia impacta muito mais quem já estava com dificuldade financeira, que se torna mais vulnerável.

O Flamengo foi o primeiro time brasileiro a ter suas contas auditadas pela EY e é visto como exemplo de reorganização financeira, que contribuiu para o êxito esportivo. O que pode ser replicado em outros clubes?

A recuperação foi focada em três pilares. O primeiro foi o retorno da credibilidade, o que fez com gestos simbólicos de antecipar o pagamento de dívidas, além de uma comunicação eficiente. Depois, houve o aumento de receita, se torando o clube que mais faturava, em um crescimento orgânico. A partir disso, focou em performance, com investimento em jogadores e treinadores renomados e infraestrutura. O plano deixava claro que performance esportiva não era uma causa, mas uma consequência. Você não é campeão a qualquer custo e se é campeão não consegue se manter. Mas clubes em situação pré-falimentar não conseguem mais o crescimento orgânico para mitigar o passivo, por isso o clube-empresa pode ser interessante nesses casos. 

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'É uma contribuição do Flamengo ao futebol', diz vice rubro-negro sobre MP que muda direitos de TV

Luiz Eduardo Baptista afirma que clubes do País estão presos a 'paradigmas do passado'  

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2020 | 12h00

Ao negociar e conseguir com o governo Bolsonaro a publicação da Medida Provisória 984, que permite agora aos clubes vender os direitos de transmissão dos seus jogos quando forem os mandantes das partidas sem mais ter contrato com a mesma emissora do adversário, o Flamengo quer dar um "salto para o futuro", segundo o vice-presidente de Relações Externas, Luiz Eduardo Baptista, mais conhecido como Bap. "Hoje, estamos presos a paradigmas do passado", diz o dirigente, sem se importar com as críticas dos rivais de que o MP foi editada quase que exclusivamente para beneficiar o Rubro-negro. "Dizer que esse assunto não estava sendo discutido antes da MP é uma mentira descarada", ataca.

Bap também defende que, como as finanças dos clubes no Brasil depende dos jogos, foi fundamental retomar as partidas do Campeonato Carioca o mais rápido possível. "Quem bota dinheiro no futebol, que são os patrocinadores, quer previsibilidade."

Como o senhor avalia o impacto financeiro da Medida Provisória 984 que altera as regras de direitos de transmissão?

A gente discute essa questão dos direitos de transmissão há pelo menos 21 anos. Desde a aprovação da Lei Pelé ninguém concordou que aquela seria a melhor legislação. Em pelo menos três ocasiões tivemos a oportunidade de reabrir essa discussão no Congresso Nacional, mas, por uma série de razões, isso não aconteceu. Quando a Lei Pelé foi redigida, em 1998, não existia Amazon, Google, Facebook, Netflix, WhatsApp, YouTube, Uber... A lei não poderia ficar estática e a estrutura de transmissão esportiva no Brasil mudou. Do que jeito que estamos hoje, não conseguimos dar um salto para o futuro porque estamos presos a paradigmas do passado que não foram atualizados dentro da revolução tecnológica que vivemos nos últimos 15 anos. Isso precisava ser ajustado.

Mas nem são todos os clubes estão elogiando a MP.

Esse é um problema que estava demandando atenção há mais de dez anos. Dizer que esse assunto não estava sendo discutido antes da MP é uma mentira descarada. Não à toa, sete clubes da Série A do Campeonato Brasileiro resolveram assinar contrato com o Esporte Interativo. Se o negócio estava tão bom como estão dizendo aí, sete de 20 clubes da Primeira Divisão não teriam feito o que fizeram. Levantamos esse assunto por causa especificamente do Campeonato Carioca. É uma contribuição do Flamengo ao futebol. O Brasil inteiro não estaria discutindo a questão dos direitos de transmissões esportivas se não fosse a Medida Provisória. Todo mundo pode vir a público dizer o que acha sobre o assunto. Essa é a oportunidade para todo mundo se engajar. Agora é a hora.

Como o senhor vê as críticas de que a MP foi feita quase que exclusivamente para o Flamengo?

O único clube que não tinha contrato para transmitir os seus jogos é o Flamengo. Por isso estão chamando de MP do Flamengo. O que o Flamengo conseguiu vai durar 120 dias, é provisório. Nenhum outro clube tem direito de TV para vender agora. Tem clube com contrato assinado até 2024. Do que eles estão reclamando? Eu consegui vender limão em Marte. Os outros clubes não estão em Marte e não têm limão. Estão se queixando do quê?

A MP não vai acabar beneficiando só os grandes clubes?

Todo mundo tem acesso ao mercado. Alguns clubes souberam se adaptar muito bem sem ter o tamanho do Flamengo. Vejam o trabalho de Bahia, Ceará, Fortaleza, Red Bull, Athletico Paranaense, Goiás... Com o dinheiro que eles têm, são motivo de exemplo para nós. A gente olha e aplaude. Competência não tem relação com tamanho ou faturamento. A beleza do negócio está na competência associada às multiplataformas que permitem que você exponha o seu produto.

A volta do Campeonato Carioca não foi precipitada?

Sabemos que não vai ter uma solução definitiva a covid-19 em menos de um ano. Então, a gente vai ficar em casa, vendo a vida passar, sem fazer nada? A vida tem de continuar porque não temos a vacina. Muita gente confundiu planejamento para a retomada com uma forma açodada de querer voltar aos jogos. Avaliamos o futebol na Europa e aprendemos que não adiantava ficar sentado esperando o plano perfeito porque o conhecimento pleno da covid-19 ainda não está concluído. Aqui, hospitais de campanha e toda estrutura que, em tese, deveria ser montada já começaram a ser desativados.

O que chama atenção é que o Flamengo liderou esse processo para retomada praticamente sozinho.

Lideramos, convencemos, mas dentro da federação do Rio tiverem 16 clubes participando desse processo, sendo que 14 concordaram e somente dois não. Queríamos voltar a jogar e fomos atrás da autorização das autoridades para montar um protocolo. O fato de a gente ter sido proativo e planejado não significa que somos insensíveis ou estávamos descumprindo alguma lei. Fizemos tudo em conformidade com as autoridades.

Financeiramente também era importante voltar com os jogos?

Quem bota dinheiro no futebol, quem paga salário de jogador, que são os patrocinadores, quer previsibilidade. Dizer para quem lhe ajuda financeiramente que você não sabe quando vai entregar o produto que ele espera acaba em cancelamento de contrato.

Mas, antes mesmo da volta do Carioca, o Flamengo teve de recorrer a empréstimo bancário. O clube está em dificuldades financeiras?

Não sabíamos quanto tempo duraria a paralisação dos jogos. É como entrar em um avião e não saber quanto tempo você vai voar. Nós, então, resolvemos colocar o máximo de combustível que cabia no tanque para não sermos pegos de surpresa. Ainda bem que pegamos esse dinheiro porque conseguimos pagar salários e impostos. Foi uma decisão para proteger o caixa, e não um problema de natureza econômica. Do ponto de vista financeiro, o Flamengo vai muito bem, obrigado.

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Rui Costa conta como as lições da tragédia da Chapecoense podem servir para os clubes na pandemia

Diretor de futebol responsável pela reestruturação da equipe catarinense em 2016 é o terceiro entrevistado da série sobre a retomada financeira dos clubes

João Prata, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 14h00

O diretor de futebol Rui Costa foi um dos responsáveis pela reconstrução da Chapecoense após o trágico acidente de avião em 2016. Em meio ao luto pela morte de 77 pessoas, em 25 dias, o dirigente montou um elenco praticamente do zero com capacidade para erguer o troféu do Campeonato Catarinense do ano seguinte e terminar na honrosa oitava colocação do Campeonato Brasileiro, o que garantiu vaga para a Libertadores.

Rui Costa é o terceiro entrevistado do Estadão da série sobre a retomada financeira dos clubes após a pandemia. O dirigente atualmente está desempregado. Seu último trabalho teve duração de dez meses no Atlético-MG. Foi demitido em fevereiro após duas eliminações consecutivas - para o Unión-ARG (primeira fase da Copa Sul-Americana) e Afogados-PE (segunda fase da Copa do Brasil).

Na conversa sobre os novos caminhos do futebol, ele conta como a experiência no clube catarinense pode servir de exemplo para as equipes evitarem a crise e aponta também a transformação dos clubes em empresa como uma solução para financiar as dívidas e atrair novos investidores.  

O que os clubes podem fazer neste momento para evitar uma crise financeira?

Não quero ser mau interpretado, mas é a oportunidade de os clubes serem muito transparentes com seus torcedores. Infelizmente alguns clubes vão ter que admitir que não disputarão títulos, mas lutarão por sua reconstrução, essa é a palavra. O momento seria para muitos clubes chegarem ao torcedor e avisar: 'a gente vai pagar a conta'. Isso afeta o nível de popularidade de um dirigente estatutário, claro, mas será necessário esse nível de coragem.

Como ser sincero assim sem desestimular o torcedor? 

Quem não for profissional vai sucumbir rapidamente. Será necessário um diretor de marketing extraordinário, um CEO extraordinário, um cara para desenvolver novos conteúdos... O executivo de futebol terá que ser capacitado para ser muito transparente com os atletas. Vai ter que saber explicar, por exemplo, por que o clube está contratando com redução de salário. Terá que ter um bom profissional para esclarecer essas coisas. Isso demanda credibilidade, lealdade. 

Acha que os clubes vão conseguir contratar?

As relações humanas serão preponderantes nessa pós-pandemia. Vai ter que ter muita conversa com os agentes, com os jogadores e com o mercado. O mercado vai viver de troca. Aquela cultura que existe de não emprestar para o rival... Aquele jogador que não está sendo muito aproveitado no seu elenco e pode servir para o rival... Azar, porque ele vai diminuir sua folha, valorizar seu ativo e você vai conseguir vender depois. Esse mercado de troca, de alternativa internada vai ser muito aquecido. Vai ser um processo de reconstrução de conceito de gestão.

Acabou a contratação de 'baciada'?

Vai diminuir porque não vai ter quem contratar. Também será necessário estabelecer critérios muito claros: por que contratou? Por quanto? Quem vai pagar? Como assumir o endividamento de um novo jogador se o nível de endividamento já é muito grande? Fora Grêmio, Flamengo e Palmeiras, os clubes terão de fazer realinhamento de estratégia de mercado. Se tem uma profissão que vai ser valorizada hoje é a de scout de clube. Vai ter que ter uma inteligência no clube, inclusive de apoio para o diretor executivo de achar aquilo que ninguém acha. 

As vendas para o exterior também devem diminuir.

Os clubes vivem da venda dos direitos de transmissão e venda de atleta. O mercado europeu, que é o grande comprador, vai pagar menos pelos nossos produtos. Isso é inegável. Na ordem de 30% a 40%. O mercado europeu vai se abastecer muito do seu mercado interno.  

O Cruzeiro é o case a não ser seguido?

O case Cruzeiro transcende a má gestão. Ali não é só gestão temerária, tem também código penal. Mas começa por uma gestão temerária. Os caras contrataram sabendo que não poderiam pagar. Ganharam títulos, comemoraram, mas acabaram com o clube. Agora os dirigentes que assumiram estão junto os cacos. Mas a cada dia abre um armário e sai um esqueleto. 

Você acredita que esse cenário abre ainda mais o caminho para muitos clubes virarem empresa?

Se pensar que 39% do endividamento dos clubes é fiscal e, portanto, os outros tantos são dívidas de médio e longo prazo, a opção por transformar o clube em Sociedade, separar o estatutário e possibilitar ampla renegociação da dívida fiscal e fazer recuperação judicial das dívidas não tributárias é o melhor dos mundos. Tem clubes com dívidas de R$ 600, 700, 800 milhões. São dívidas impagáveis. 

Pode dar o exemplo de algum clube que esteja nessa situação?

Vou pegar um exemplo próximo que tive. Isso posso falar porque está no balanço do clube. O Atlético-MG paga de juros de dívida R$ 66 milhões por ano. Imagina poder colocar isso no futebol anualmente. Investir na base. Salvo todas as interpretações que existem e eu tenho questionamentos em termos legais, pois também sou advogado, essa proposta de clube-empresa está aí. A maioria os clubes hoje não consegue ter fluxo de caixa. Qualquer gestor de curso de primeiro ano de administração sabe que uma empresa sem fluxo de caixa não anda.

O que discorda dessa legislação sobre clube-empresa?

Acho que muitas vezes aproveita cases de outros lugares sem respeitar as nossas idiossincrasias. Não dá para comparar o cenário daqui com o da Inglaterra, onde o dono de um clube lá bota 1 bilhão de euros por ano. O Manchester City tem de orçamento anual somente para contratação R$ 1 bilhão. O X da questão por aqui e, isso posso dizer porque trabalhei no Athletico Paranaense, que é o clube mais empresa da América do Sul. O que o Athletico busca? Busca um investidor, o aporte de fora. Tem muita gente querendo botar dinheiro no futebol. Mas ninguém vai botar dinheiro em um negócio que está quebrado, sem crédito, sem patrimônio. 

Há exemplos também de clubes que devem seguir como associação? 

O Grêmio, de forma estatutária, conseguiu criar mecanismos absolutamente profissionais. Ele pode optar por ser o Real Madrid do Brasil. O Real Madrid é um clube estatutário. Tem que buscar meio legal para parar de perder dinheiro e atrair investimento.

De que forma a experiência que você teve na Chapecoense te ajuda a enxergar o futebol na pandemia?

Sempre tomo cuidado ao tocar nesse assunto porque o fato gerador de tudo toca muito as pessoas. Respeitada a tragédia e como foi devastadora em um clube emergente, que não tinha dívida tributária, mas que tinha orçamento limitado. De uma hora para outra aquilo terminou. Foi para mim uma experiência única em vivência de adversidade. Sem fazer comparação, porque não há nada mais adverso do que aconteceu com a Chapecoense. Somente dois jogadores sobreviveram e em 25 dias tinha que colocar um time em campo novamente. Ninguém vai passar por isso. Esse episódio me mostrou que no futebol quando há clareza de propósito, autonomia, respeito as questões orçamentárias e competência funcional é possível superar qualquer crise. 

Que lição você tirou daquele momento?

A ação do torcedor que está direcionada para o ganhar pode ser direcionada para permanecer. Foi o que fizemos na Chapecoense. Ele entendeu que naquele momento não deveria cobrar. As paixões dos torcedores podem ser direcionadas. Como? Com a verdade. Informar que no ano não serão feitos grandes investimentos e que é importante a fidelização. Se o torcedor entender que o time dele está enfrentando uma adversidade com transparência ele vai apoiar. 

Basicamente, afinar a comunicação com o torcedor.

O ambiente do futebol é muito direcionado para o ganhar e perder. Se ganha está tudo ótimo e se perde é um imbecil. O pós-pandemia deve deixar mais claro que esse não é o caminho. Não estou defendendo a derrota, de maneira nenhuma. Também acho que é possível investir mesmo endividado. Lembro o Barcelona de 2008 que era um clube quebrado. Mesmo assim fez investimento porque entendeu que precisava dar um passo à frente para ir adiante e deu tudo certo. A transparência a que me refiro deve ser feita desde o início. Por exemplo, no início da temporada o presidente vai dar seu recado em entrevista coletiva. O CEO do clube vai dar seu recado. O diretor executivo... Aí vai ficar claro para o torcedor o planejamento. Uma parte vai entender e outra não.

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Amir Somoggi, diretor da Sports Value. Acervo Pessoal

Produção de conteúdo é a solução inicial para recuperação financeira dos clubes, diz Fábio Wolff

Especialista em marketing esportivo, Amir Somoggi, diz que clubes deveriam se unir para evitar crise pós-pandemia e não tentar negociatas exclusivas

João Prata , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Amir Somoggi, diretor da Sports Value. Acervo Pessoal

Os clubes da elite do futebol brasileiro bateram recorde de faturamento no ano passado. Segundo dados da Sports Value, as 20 equipes mais ricas do País faturaram juntas R$ 6,1 bilhões. O número foi alavancado pelo Flamengo, que sozinho teve R$ 950 milhões de receita - esse valor inclui toda a arrecadação do time, com venda de jogador, patrocínio, bilheteria, sócio-torcedor....

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus acabou com qualquer possibilidade de o gráfico manter essa ascensão. A expectativa é que os valores encolham em até 60%, de acordo com o diretor de marketing esportivo Amir Somoggi, proprietário da Sports Value. No quarto capítulo da série sobre finanças do futebol, Amir diz que somente a união dos clubes será capaz de contornar essa crise que se anuncia. Para isso, opina, será necessário o Flamengo mudar a ideia de crescer sozinho e olhar mais para o todo. "Tem de haver união. O produto futebol só vale porque ele é complementar. É um jogo de todo mundo". 

O que motivou o recorde de receitas no ano passado?

Nunca faturamos tanto como no ano passado por causa de alguns fatores como Flamengo, por exemplo, que teve ótima performance em venda de jogador, bilheteria, sócio-torcedor, patrocínio, premiação... O Santos teve a venda do Rodrygo para o Real Madrid. O Athletico-PR foi muito bem. Em termos de receita era o melhor momento da história mesmo com a crise de alguns clubes. Cruzeiro, Botafogo, Fluminense não precisaram do coronavírus para entrar em crise. Entraram muito antes. Corinthians e São Paulo também tiveram grandes prejuízos em 2019, mas estamos falando das receitas, do que entrou.  

Quanto esse cenário vai mudar por causa da pandemia?

Vivemos um cenário brutal de corte de receita. No mínimo, 30% vai cair, mas a gente imagina que seja muito mais. Não dá para saber ao certo. Quando o mercado de transferências voltar, a gente vai ver o rombo. Pode ser que chegue a R$ 3 bilhões. 

Como os clubes podem amenizar essa crise?

A ultradependência de poucas fontes de renda foi destruidora para os clubes. A pandemia obrigou os clubes a entrar para a era digital. E digo isso não só pensando em criar formas para engajar o torcedor, mas para pensar como fazer esse torcedor colocar a mão no bolso. É preciso buscar patrocinador não só para estampar a camisa. Uma empresa pode usar o banco de dados do sócio-torcedor, criar campanha, vender produto, fazer divulgação nos jogos... 

Algum clube já faz isso com eficiência?

Podemos pegar o exemplo do Barcelona. A cervejaria espanhola Estrella Damm patrocina o Barcelona e renovou contrato. Deve pagar por volta de 5 milhões de euros, talvez um pouco mais. A Rakuten paga 40 milhões para expor a marca na camisa. A Estrella Damm conseguiu criar enorme identificação com a torcida do time com essas ações. Hoje, se perguntar para o torcedor, a cervejaria tem muito maior identificação do que a Rakuten que acabou de chegar. Existem formas de investir no futebol sem ter a marca na camisa que custa caro e não é para todo mundo. 

Quais são essas formas?

Está todo mundo convergindo para o digital, para o ecomerce. As receitas dos clubes estão voltadas para as formas analógicas ainda, não há interação dos negócios e engajamento. As entregas digitais para patrocinadores são muito discretas. A solução é fazer vídeo com o jogador, criar websérie, desenvolver todo um mundo digital que interesse ao torcedor e o faça consumir. 

A Medida Provisória que muda regras sobre direito de transmissão de eventos esportivos pode ajudar?

A MP tem um fator positivo que é liberar para o time mandante os seus conteúdos. Não falo o jogo em si, mas usar o conteúdo do jogo, os melhores momentos, os lances para produção de conteúdo digital. Os clubes deveriam ter o direito de expor as marcas dos seus patrocinadores durante os jogos. Só que a forma como foi colocada foi péssima e as discussões que se seguiram... Alguns clubes viram como uma MP para ajudar o Flamengo. Cada clube está lendo de uma maneira. O Bahia, que é um clube a favor, viu a oportunidade para criar sócio digital. O Grêmio é contra, que tem mais receita de sócio e tem contrato com a Globo até 2024.

O que vê de negativo nessa MP?

A forma como encontram para tocar nos pontos fundamentais são sempre as piores possíveis. Houve a sugestão de institucionalizar a discrepância. Fala-se em tornar a diferença dos direitos de TV em no máximo cinco vezes. Está certo, hoje é mais de cinco vezes. Mas não pode regular assim. Na Premier League é hoje de 1,5. A cada renovação de contrato nos últimos anos essa diferença está diminuindo. Cresce o bolo, cresce ainda mais para os menores. Na NFL também é de 1,5. Como regularizar 5 para um? É um disparate. O Manchester United, o Chelsea, o Manchester City já têm receitas enormes no mundo todo. Tem de haver união. O produto só vale porque ele é complementar. É um jogo de todo mundo.

Como vê os clubes que assinaram com a Globo até 2024 nessa discussão?

Quem tem contrato com a Globo deveria chegar na Globo, sentar e criar um modelo híbrido. Criar um aplicativo do clube, chamar a Globo e falar: 'você vai ser minha empresa jornalística, produz o conteúdo, eu comercializo e nós ganhamos dinheiro junto. Eu monetizo seu conteúdo digital'". Na minha opinião o aplicativo tem que ser do clube e não da Globo como é hoje. 

Ou seja, mudar completamente o que foi assinado?

O clube tem que ter direito as imagens e a Globo tem que mudar o contrato, na minha opinião, para salvar o futebol brasileiro. 

No Brasil, é sempre discutido soluções individuais para os clubes. Não chegou o momento de haver um pensamento coletivo?

Essa é a grande questão. O Flamengo tomou uma atitude parecida com a do Corinthians quando rompeu com o clube dos 13. Se colocou como a grande estrela da companhia e esqueceu de que para a companhia existir precisa de todos para funcionar. Se aqui houvesse uma liga estruturada a Amazon investiria nas transmissões por streaming. O desunião enfraquece. 

Qual é o papel da CBF nesse cenário?

A CBF nunca foi tão rica. Está com R$ 1 bilhão de faturamento, R$ 700 milhões em caixa. E os clubes achando que ela é parceira, quando o que se vê é que ela não está preocupada com os times. Não tem outro caminho. É fundamental essa união dos clubes. Talvez uma união inicial, não como foi a "Primeira Liga", mas união em cima dessa MP. Não precisam ser todos. Mas uma união por exemplo de 12 grandes marcas. Flamengo, Corinthians, Grêmio e Inter não querem. Tudo bem. Mas você tem lá: Bahia, Ceará, Fortaleza, Goiás, Sport, Santa Cruz, Náutico... Monta um bloco unindo esses clubes de Série A e B. Está quase feito. A mídia tem que transmitir Série A e Série B. É um começo. 

O Flamengo não parece disposto a mudar seu planejamento...

Em uma união como essa, por exemplo, O CSA seria mais ou menos como o sócio do Flamengo. O Flamengo tinha que entender o papel dele na sociedade, que ele não entende. O Barcelona e o Real Madrid demoraram para entender. Eles entenderam há uns anos. Congelaram os ganhos durante um ano com TV para que os clubes menores pudessem crescer e agora sim competir melhor. O Athletic Bilbao, o Sevilla, Mallorca faturam muito mais com TV do que há cinco anos. E o Barcelona e o Real Madrid continuam gigantes.

 

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Marcos Motta: 'Crise vai retirar quase 2 bilhões de euros do mercado de transferências'

Advogado acredita que negociações sofrerão forte queda nos valores em razão do novo coronavírus

Entrevista com

Marcos Motta, advogado

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 13h00

Advogado atuante no esporte há mais de duas décadas, Marcos Motta usa a sua experiência para apontar que a crise financeira provocada pela pandemia do coronavírus servirá para ajustar o mercado de negociações e acelerar processos e mudanças de hierarquia em função da diminuição dos recursos financeiros.

Em sua avaliação, a próxima janela de transferências no futebol europeu, a que antecede o começo da temporada e costuma ser a mais movimentada, terá seu fluxo reduzido em quase 2 bilhões de euros (R$ 11 bilhões) nas principais ligas, o que trará efeitos danosos especialmente para clubes mal organizados, como alguns brasileiros, que dependem da receitas dessas transações para sobreviver.

Isso provocará mudanças de patamar, com a ascensão de clubes médios e a queda de nível de equipes tradicionais, mas endividadas, além do aumento do protagonismo de gigantes como o Flamengo e os maiores times da Europa, aumentando a desigualdade da disputa.

Com a experiência de ter participado diretamente da aquisição de Neymar pelo Paris Saint-Germain em 2017, por 222 milhões de euros(R$ 817 milhões, na cotação da época) junto ao Barcelona, ele diz que uma transação por aquele valor nunca mais será fechada no mercado do futebol.

Motta, que iniciou sua carreira no esporte como dirigente do Flamengo em 1997, trabalha como consultor jurídico em centenas de casos e arbitragens perante tribunais em questões como disputas contratuais, comerciais, disciplinares e regulamentares. Ele aponta que o modelo de atuação no mercado será de frente daqui para a frente no esporte - e em todos os setores.

Confira a entrevista completa com ele ao Estadão

Como o mercado do futebol vai se comportar ao fim da crise do coronavírus?

O mercado vai beneficiar aqueles que tiverem inteligência e educação administrativa, como Flamengo e Grêmio, no Brasil. Os grandes europeus vão passar por essa. Quem não está preparado, vai ter muita dificuldade. No Brasil, ainda mais, porque nós somos vendedores. O mercado vai se ajustar. Vai ter mercado, mas ele vai mudar. É preciso calma. Não faz sentido no momento em que corpos estão sendo contados, um clube que cortou salários, não renovou contratos, fazer uma contratação de 100 milhões de euros. Seria ruim até para a sua imagem pública.

Há uma previsão sobre quanto o mercado de transferências vai encolher na próxima janela?

Com as contas estranguladas nesse momento, há previsão de uma queda de 28% no valor das transferências das cinco grandes ligas. Veja o caso do Icardi. Ele foi comprado agora pelo PSG por 50 milhões de euros, sendo que o seu valor de mercado na outra janela era de pelo menos 70 milhões de euros. Isso vai retirar do mercado quase 2 bilhões de euros na compra dos jogadores.

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O mercado vai beneficiar aqueles que tiverem inteligência e educação administrativa, como Flamengo e Grêmio
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Marcos Motta, advogado

Qual será o efeito desse encolhimento do mercado europeu para os clubes brasileiros?

A única vantagem é o câmbio. Mas tem clube acabando com as divisões de base. Preferem apostar em medalhão. Vai ter clube ficando pelo caminho, que não vai conseguir superar a crise, principalmente se o futuro financeiro depender da venda de jogador. Os clubes menores vão estar à mercê dos maiores. E não vejo isso como uma abordagem oportunista. Os clubes estavam valorizando os seus jogadores. O mercado estava inflacionado. Só que a bolha estourou. O mercado vai retomar valores realistas.

Como os principais clubes do mundo vão adequar seus investimentos?

A gente vai ter o mercado mais sofisticado, pontual, muito mais exigente. Não dá mais para testar. A transação precisa ser certeira. Vai haver mais demanda do scout. O modelo será realinhado. Mas o mercado será retomado porque o futebol conjuga bem os aspectos sociais, econômicos e culturais. Todo mundo investe no marketing esportivo porque dificilmente tem esse poder de comunicação e capilaridade do esporte em outros setores.

Os tipos de negociações entre os clubes podem mudar?

A gente vai ver operações de empréstimo com opção de compra ou obrigação de compra, muitas operações criativas, como venda com opção de recompra. Isso se dará pela necessidade de se realizar ajustes contábeis. Mas o topo da pirâmide precisa das grandes movimentações, dos ídolos. A personalização é importante, e é ela que faz a comunicação com o mercado, converte e engaje. Vai ter grandes contratações, mas com a transformação do tipo de negócio. O acesso ao crédito está muito mais difícil. Vai demandar gente com visão holística e não apenas aqueles que enxergam o jogador como mercadoria.

Quanto tempo levará para o valor recorde da venda do Neymar ao PSG ser superada?

Esse recorde não será batido, por uma série de mecanismo de controle do mercado, como o fair-play financeiro. E agora tem a covid. O mercado apertou o botão “reset”, vai ter um reajuste, uma deflação. O mercado vai se reajustar por perda de receitas de direitos de transmissão, da receita do “matchday”. E a retração de uma temporada leva reflexos para as seguintes.

Internamente, como você imagina que passará a se comportar o mercado brasileiro?

Haverá troca de jogadores, empréstimo com opção de compra. Clubes com mais finanças, mais organizados, como Bahia, Flamengo, Athletico-PR, vão se destacar. Vai acentuar a mudança da dinâmica da hierarquia brasileira. Clubes tradicionais vão dar espaço para outros que eram de meio de tabela, como o Fortaleza. E o Flamengo despontará e vai mostrar mais força.

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Clubes com mais finanças, mais organizados, como Bahia, Flamengo, Athletico-PR, vão se destacar
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Marcos Motta, advogado

Como o futebol brasileiro pode se tornar mais competitivo em um cenário de crise?

Quando a Uefa flexibiliza o fair-play financeiro e o Brasil não faz nada, você tem muito mais dificuldade. Eu defendo que seja permitida a volta do terceiro investidor nos direitos (econômicos) do jogador. Não pode ser completamente aberto sem regras, mas algo controlado e transparente. É preciso oxigenar o mercado, acabar com gargalos que impeçam investimentos no futebol brasileiro. Ou a gente estoura a bolha ou vai continuar perdendo. Só que agora vamos perder de muito. Aqui não tem o ambiente corporativo e seus gatilhos para ajudar como ocorre na Europa.

O modelo de clube-empresa pode ser uma solução para o futebol brasileiro?

Os três clubes mais ricos do mundo são Barcelona, Real Madrid e Manchester United, o único desses que é clube-empresa. Clube-empresa não é fim, é meio. No Brasil tratam como fim e vão quebrar a cara. O que importa não é a estrutura, mas a mentalidade. A administração desses três clubes é completamente diferente, mas eles tratam o futebol como negócio e têm uma mentalidade corporativa, estão sujeitos a regras de transparência e compliance. O Flamengo já tem essa mentalidade e não precisou virar empresa.  

Como advogado, o que mudou no seu trabalho desde o início da crise do coronavírus?

Mudou o tipo de ligação. Nesse período do ano, estaria recebendo ligações para assessorar transferências, para ajudar com contratos de TV e mídia, para ajudar em campanhas de varejistas. Hoje, as ligações são de reajuste de mercado, renegociações de contrato, papos sobre perspectivas, participação em comitês de crise, de inovação. Tem sido assim nesses 75 dias e vai continuar por um bom tempo nessa pegada, porque as mudanças vão ficar. Ninguém voltará a ser como antes, todos estão revisando o modo de operação no mercado, seja clubes, empresas de varejo, de audiovisual, artistas ou atletas. 

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Amir Somoggi, diretor da Sports Value. Acervo Pessoal

'Flamengo esquece que precisa de todos funcionando bem', diz Amir Somoggi

Especialista em marketing esportivo, Amir Somoggi, diz que clubes deveriam se unir para evitar crise pós-pandemia e não tentar negociatas exclusivas

João Prata , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Amir Somoggi, diretor da Sports Value. Acervo Pessoal

Os clubes da elite do futebol brasileiro bateram recorde de faturamento no ano passado. Segundo dados da Sports Value, as 20 equipes mais ricas do País faturaram juntas R$ 6,1 bilhões. O número foi alavancado pelo Flamengo, que sozinho teve R$ 950 milhões de receita - esse valor inclui toda a arrecadação do time, com venda de jogador, patrocínio, bilheteria, sócio-torcedor....

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus acabou com qualquer possibilidade de o gráfico manter essa ascensão. A expectativa é que os valores encolham em até 60%, de acordo com o diretor de marketing esportivo Amir Somoggi, proprietário da Sports Value. No quarto capítulo da série sobre finanças do futebol, Amir diz que somente a união dos clubes será capaz de contornar essa crise que se anuncia. Para isso, opina, será necessário o Flamengo mudar a ideia de crescer sozinho e olhar mais para o todo. "Tem de haver união. O produto futebol só vale porque ele é complementar. É um jogo de todo mundo". 

O que motivou o recorde de receitas no ano passado?

Nunca faturamos tanto como no ano passado por causa de alguns fatores como Flamengo, por exemplo, que teve ótima performance em venda de jogador, bilheteria, sócio-torcedor, patrocínio, premiação... O Santos teve a venda do Rodrygo para o Real Madrid. O Athletico-PR foi muito bem. Em termos de receita era o melhor momento da história mesmo com a crise de alguns clubes. Cruzeiro, Botafogo, Fluminense não precisaram do coronavírus para entrar em crise. Entraram muito antes. Corinthians e São Paulo também tiveram grandes prejuízos em 2019, mas estamos falando das receitas, do que entrou.  

Quanto esse cenário vai mudar por causa da pandemia?

Vivemos um cenário brutal de corte de receita. No mínimo, 30% vai cair, mas a gente imagina que seja muito mais. Não dá para saber ao certo. Quando o mercado de transferências voltar, a gente vai ver o rombo. Pode ser que chegue a R$ 3 bilhões. 

Como os clubes podem amenizar essa crise?

A ultradependência de poucas fontes de renda foi destruidora para os clubes. A pandemia obrigou os clubes a entrar para a era digital. E digo isso não só pensando em criar formas para engajar o torcedor, mas para pensar como fazer esse torcedor colocar a mão no bolso. É preciso buscar patrocinador não só para estampar a camisa. Uma empresa pode usar o banco de dados do sócio-torcedor, criar campanha, vender produto, fazer divulgação nos jogos... 

Algum clube já faz isso com eficiência?

Podemos pegar o exemplo do Barcelona. A cervejaria espanhola Estrella Damm patrocina o Barcelona e renovou contrato. Deve pagar por volta de 5 milhões de euros, talvez um pouco mais. A Rakuten paga 40 milhões para expor a marca na camisa. A Estrella Damm conseguiu criar enorme identificação com a torcida do time com essas ações. Hoje, se perguntar para o torcedor, a cervejaria tem muito maior identificação do que a Rakuten que acabou de chegar. Existem formas de investir no futebol sem ter a marca na camisa que custa caro e não é para todo mundo. 

Quais são essas formas?

Está todo mundo convergindo para o digital, para o ecomerce. As receitas dos clubes estão voltadas para as formas analógicas ainda, não há interação dos negócios e engajamento. As entregas digitais para patrocinadores são muito discretas. A solução é fazer vídeo com o jogador, criar websérie, desenvolver todo um mundo digital que interesse ao torcedor e o faça consumir. 

A Medida Provisória que muda regras sobre direito de transmissão de eventos esportivos pode ajudar?

A MP tem um fator positivo que é liberar para o time mandante os seus conteúdos. Não falo o jogo em si, mas usar o conteúdo do jogo, os melhores momentos, os lances para produção de conteúdo digital. Os clubes deveriam ter o direito de expor as marcas dos seus patrocinadores durante os jogos. Só que a forma como foi colocada foi péssima e as discussões que se seguiram... Alguns clubes viram como uma MP para ajudar o Flamengo. Cada clube está lendo de uma maneira. O Bahia, que é um clube a favor, viu a oportunidade para criar sócio digital. O Grêmio é contra, que tem mais receita de sócio e tem contrato com a Globo até 2024.

O que vê de negativo nessa MP?

A forma como encontram para tocar nos pontos fundamentais são sempre as piores possíveis. Houve a sugestão de institucionalizar a discrepância. Fala-se em tornar a diferença dos direitos de TV em no máximo cinco vezes. Está certo, hoje é mais de cinco vezes. Mas não pode regular assim. Na Premier League é hoje de 1,5. A cada renovação de contrato nos últimos anos essa diferença está diminuindo. Cresce o bolo, cresce ainda mais para os menores. Na NFL também é de 1,5. Como regularizar 5 para um? É um disparate. O Manchester United, o Chelsea, o Manchester City já têm receitas enormes no mundo todo. Tem de haver união. O produto só vale porque ele é complementar. É um jogo de todo mundo.

Como vê os clubes que assinaram com a Globo até 2024 nessa discussão?

Quem tem contrato com a Globo deveria chegar na Globo, sentar e criar um modelo híbrido. Criar um aplicativo do clube, chamar a Globo e falar: 'você vai ser minha empresa jornalística, produz o conteúdo, eu comercializo e nós ganhamos dinheiro junto. Eu monetizo seu conteúdo digital'". Na minha opinião o aplicativo tem que ser do clube e não da Globo como é hoje. 

Ou seja, mudar completamente o que foi assinado?

O clube tem que ter direito as imagens e a Globo tem que mudar o contrato, na minha opinião, para salvar o futebol brasileiro. 

No Brasil, é sempre discutido soluções individuais para os clubes. Não chegou o momento de haver um pensamento coletivo?

Essa é a grande questão. O Flamengo tomou uma atitude parecida com a do Corinthians quando rompeu com o clube dos 13. Se colocou como a grande estrela da companhia e esqueceu de que para a companhia existir precisa de todos para funcionar. Se aqui houvesse uma liga estruturada a Amazon investiria nas transmissões por streaming. O desunião enfraquece. 

Qual é o papel da CBF nesse cenário?

A CBF nunca foi tão rica. Está com R$ 1 bilhão de faturamento, R$ 700 milhões em caixa. E os clubes achando que ela é parceira, quando o que se vê é que ela não está preocupada com os times. Não tem outro caminho. É fundamental essa união dos clubes. Talvez uma união inicial, não como foi a "Primeira Liga", mas união em cima dessa MP. Não precisam ser todos. Mas uma união por exemplo de 12 grandes marcas. Flamengo, Corinthians, Grêmio e Inter não querem. Tudo bem. Mas você tem lá: Bahia, Ceará, Fortaleza, Goiás, Sport, Santa Cruz, Náutico... Monta um bloco unindo esses clubes de Série A e B. Está quase feito. A mídia tem que transmitir Série A e Série B. É um começo. 

O Flamengo não parece disposto a mudar seu planejamento...

Em uma união como essa, por exemplo, O CSA seria mais ou menos como o sócio do Flamengo. O Flamengo tinha que entender o papel dele na sociedade, que ele não entende. O Barcelona e o Real Madrid demoraram para entender. Eles entenderam há uns anos. Congelaram os ganhos durante um ano com TV para que os clubes menores pudessem crescer e agora sim competir melhor. O Athletic Bilbao, o Sevilla, Mallorca faturam muito mais com TV do que há cinco anos. E o Barcelona e o Real Madrid continuam gigantes.

 

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