Laurent Gillieron/EFE
Laurent Gillieron/EFE

Na Copa do Mundo dos refugiados, dramas do passado vêm à tona

Casos como a comemoração gols suíços contra a Sérvia mostram como os jogadores não se esqueceram dos problemas passados

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

Eles chegaram como refugiados, fugindo da morte. Hoje, entram em campo na Rússia representando um novo país. Mas incidentes nesta Copa do Mundo revelam que esses atletas não se esqueceram dos dramas passados nem do que seus familiares sofreram em conflitos. 

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O caso mais claro foi o incidente com os jogadores da seleção da Suíça, mas que de fato eram imigrantes e refugiados do Kosovo e Albânia. Na partida contra a Sérvia, Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri usaram a comemoração de seus respectivos gols para fazer, com as mãos, o símbolo de uma águia, presente na bandeira da Albânia e também uma referência aos kosovares. A Fifa não aprova esse tipo de manifestação política dentro de campo. 

Por isso, um procedimento disciplinar foi aberto pela entidade contra os dois jogadores, que podem pegar até duas partidas de suspensão. A Fifa ainda anunciou que investiga o suíço Stephan Lichtsteiner, pelo mesmo motivo. O presidente da federação sérvia, Slavisa Kokeza, e o treinador Mladen Krstajic também passaram a ser alvos de investigações da Fifa por conta de seus comentários. 

Ainda que o Kosovo tenha declarado sua independência em 2008, portanto, há dez anos, a região vive em um limbo. A Sérvia não reconhece a separação de sua província e, para isso, conta com o apoio de países como a Rússia, anfitriã da Copa. 

 

MEMÓRIAS

Shaqiri usou a partida como instrumento para dar um recado aos sérvios, que nos anos 80 chegaram a colocar seus pais numa prisão por três anos depois de um protesto contra Belgrado. “Nunca vou esquecer que nasci no Kosovo”, disparou o jogador. “Minha família não tinha muito. A casa do meu tio foi incendiada e tudo de nossa casa foi roubado e as paredes também foram pichadas.” 

Um terço da seleção suíça, que está no grupo do Brasil, é composta por filhos da guerra dos Bálcãs, dos anos 90. Drmic e Gavranovic têm raízes croatas. Seferovic é bósnio e Dzemaili vem da Macedônia. Além de Shaqiri e Xhaka, Valon Behrami também é albanês. 

Não por acaso, quando a Suíça bateu a Sérvia com dois gols “albaneses”, o presidente do país dos Bálcãs se apressou em comemorar a façanha. Mais do que os gols, festejou a festa de seus compatriotas. “Vimos águias voando pelo estádio de Kaliningrado”, declarou Ilir Meta, presidente albanês.

Os refugiados não estão apenas na seleção suíça. Luka Modric tinha cinco anos quando sua casa foi incendiada e seu avô assassinado na Guerra dos Bálcãs. Sua família fugiu para a cidade costeira de Zadar, vivendo em um modesto hotel por nove anos. Foi no estacionamento de cimento do local que o jovem croata passaria parte de seu tempo, se transformando num dos principais craques da atualidade. O mesmo ocorreu com o croata Dejan Lovren. Sua família se mudou para Munique, na Alemanha, depois que seu tio foi morto a facadas. Foi na Alemanha que o garoto se revelou um talento e hoje defende sua seleção. 

Além da guerra, uma leva inteira de jogadores é fruto das migrações em busca de melhores condições de vida. Mais da metade do time do Marrocos nasceu na França, Bélgica ou Holanda, países que receberam seus pais ou avós nos anos 70 e 80. Muitos eram ilegais. No caso de Senegal, 40% dos atletas não nasceu no país. 

Outro que conheceu o futebol enquanto fugia de conflitos foi Victor Moses. Em 2002, seus familiares foram assassinados depois de confrontos religiosos na Nigéria. Os órfãos da família foram enviados para Londres. Moses ganhou asilo e começou a jogar no juvenil do Crystal Palace. Participou da seleção sub-16 da Inglaterra. Agora, atua pela Nigéria e busca um segundo milagre: a classificação às oitavas. Nesta terça-feira, do outro lado, não estará um inimigo. Apenas a Argentina.

 

 

 

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