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Na dúvida, a alegria

Talvez tenha sido na Itália que Pato apreendeu o ofício de encantar para viver bem

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2017 | 05h00

Por um momento hesitei entre escrever sobre um episódio odioso, brutal, que rebaixa o futebol e a sociedade brasileira até profundidades, e algo alegre, o lado bom do brasileiro, que nos redime um pouco. Optei pelo lado alegre, ainda que corra o risco de me repetir, porque já uma vez me ocupei do personagem. Como ele não cessa de me fascinar, não consigo deixar de voltar à ele, muitas vezes forçado por amigos.

Esta semana recebi de Ricardo Dias, conhecido documentarista e pesquisador, uma noticia que confesso não sabia. Alexandre Pato, desde 30 de janeiro de 2017, foi incorporado à equipe chinesa Tianjin Quanjian, deixando o Villarreal da Espanha, seu ultimo clube. Não me preocupei em saber quanto o Pato ganhava no Villarreal. Não devia ser pouco – ele jamais ganha pouco. Fui então direto ao Tianjin Quanjian, onde soube que a transferência foi de 15 milhões de euros e o Pato vai receber 100 mil euros por semana – por semana.

Há algum tempo desisti de tentar decifrar os segredos do Pato. Seu futebol é bom, mas sempre abaixo do que ganha. O problema é que, quando se percebe o fenômeno, ele sai, mas é imediatamente contratado por outro time pelos mesmos valores, ou por maior salário, para logo em seguida constatarem que está ganhando acima do que joga. Então, tudo recomeça. Vez ou outra penso que é uma combinação de simpatia irresistível, charme e um pouco de futebol. Até mesmo bom futebol. Só que o futebol perde sempre para a simpatia, a alegria natural e o astral.

Acaba de postar na internet fotos onde aparece saudando seu novo clube com o conhecido sorriso simpático e honesto de sempre. Abraçado afetuosamente ao seu treinador, nada menos que o lendário Fabio Canavarro, com quem deve ter compartilhado momentos de glória na Itália, nos grandes dias em que ele, Pato, desfilava pelas noites de Milão, em companhia da filha do ex-presidente do Milan e ex-primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi, um dos homens mais ricos da Europa.

Talvez tenha sido na Itália, terra de tantos viajantes irresistíveis, que Pato apreendeu o ofício de encantar para viver bem. Realmente parece um daqueles aventureiros italianos do século XVIII, talvez um Lorenzo da Ponte ou um Giacomo Casanova, mestres na arte de fascinar homens e mulheres, onde quer que estivessem. Nunca ouvi uma única palavra contra o Pato. Todos só falam bem do seu caráter e quando é desafiado joga bem. Faz parte de sua estratégia de vida não se indispor com ninguém. No Corinthians, só faltou ser linchado depois de um pênalti perdido contra o Grêmio, em uma cobrança em que aliou incompetência, displicência e arrogância.

Não reagiu, aceitou tudo calado até dar com os costados no São Paulo, sem, porém, abrir mão de um só centavo dos polpudos salários que recebia do Corinthians. No Morumbi até que jogou muito bem. Precisava de alguma forma se redimir um pouco. Mas não fez nenhuma força para ficar por aqui. Se quisesse teria cedido em alguma coisa e ficado, o clube estava interessado, mas ele não. Tinha feito sua obrigação de se mostrar ainda um bom jogador o que certamente o levaria de volta aos seus lugares queridos, onde se pode andar à noite sem medo de ser assaltado e morto, onde se pode parar o carro à beira da estrada e assistir ao nascer do sol sobre o mar, em boa companhia.

E lá foi ele para o Villarreal sempre mantendo, é claro, o salário nas alturas. Agora está na China. Vale a pena sua foto na internet ao lado de Canavarro, com a seguinte mensagem: “Estou feliz de fazer parte dessa nova família Tianjin Quanjian”. E, em italiano, ao treinador: “Andiamo, Mister!” Ou, numa tradução livre: “Estamos juntos, professor!”. É ou não é um gênio?

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