Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Na estrada no primeiro jogo da final da Libertadores, de Lanús a Porto Alegre

Torcedores enfrentaram 44 horas de viagem de ônibus na decisão do torneio sul-americano

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2017 | 07h00

O autodenominado maior clube de bairro do mundo cabe num ônibus e gosta disso. O Lanús, que recebe o Grêmio para o jogo que decidirá a Libertadores, orgulha-se de sua dimensão. A usa como arma. Exalta o fato de ser o time da vizinhança, mas exala uma confiança do tamanho da América.

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O prazer em derrubar gigantes, sem fazer questão de ser considerado um, é o primeiro que transpira, e muito transpira, num dos ônibus que levou seus torcedores por terra a Porto Alegre, 44 horas rodando, em uma viagem iniciada às 18h39 da última terça-feira e concluída 50 horas e 2.610 quilômetros depois.

O veículo leva 40 passageiros. Entre eles, 39 são "granates" (referência à cor grená do uniforme). O 40º é um gremista ao que, não havendo conseguido ingresso para o lado tricolor, restou infiltrar-se. Todos, granates e gremista, pagaram 4.300 pesos (R$ 824) por um pacote com transporte em ônibus leito e ingresso. 

Assim que o veículo se move, no pátio do estádio La Fortaleza, 14,4 quilômetros ao sul do Obelisco onde os torcedores celebram suas conquistas, surge um refrão dos mais básicos. O "dá-lhe, dá-lhe Lanús" dura 10 segundos e é substituído por silêncio constrangedor, como se a um samba-enredo faltasse puxador. Surgem as piadas. "Guardemos um pouco de fôlego", grita um. "Faltam só 40 horas", brinca outro, visionário. 

Os primeiro cânticos parecem abafados pelo choque de responsabilidade. Quando este e os 24 ônibus que o seguem começam a cruzar as ruelas de Lanús, provocando micro engarrafamentos nas perpendiculares, sob aplausos dos outros que frequentam o La Fortaleza (40 mil lugares) sem nunca lotá-lo, “cai a ficha”. Esses passageiros são a extensão do time em sua maior viagem em 102 anos. 

A comoção que num filme pareceria falsa é legítima. Mães choram com bebês no colo, crianças choram com irmãozinhos no colo, idosos sadios e jovens lesionados acenam com suas bengalas. 

A resposta dos "escolhidos" é lembrar as façanhas em quartas e semifinais, quando derrubaram prognósticos e dois grandes, San Lorenzo e River Plate. "Eles achavam que já estava definido. Que agora vejam a final na TV", diz Sebastián Rodríguez, de 39 anos, funcionário da Receita Federal argentina. 

Se os rivais históricos do Lanús são Banfield e Quilmes, o grande adversário da hora sem dúvida é o River, eliminado após levar quatro gols em menos de 30 minutos na semifinal.

Em um campinho de terra, 10 meninos jogam bola quando passa o comboio. A maioria acena, a minoria ignora e um deles, provavelmente torcedor do River, agarra com força os testículos e dispara palavrões. Arranca risos. "Ousado o menino, não?", diz o advogado Marcelo Martínez, de 38 anos.

O ônibus sai de Buenos Aires ao som baixo da cumbia. Essa é a música preferida nas "villas", zonas da periferia que produziram jogadores como Carlitos Tévez e torcedores como Emanuel "Piedra" Carballo, praticamente um sósia do craque argentino. O jovem de 23 anos explica o apelido: "É porque sou incômodo, como uma pedra no sapato". 

Todos os dias, de 6 a 9 horas da manhã, Piedra corre 6 quilômetros com chuteiras de futebol society. É catador de lixo da prefeitura da vizinha Quilmes. Pelo trabalho no trajeto de 60 quadras, ganha mensalmente 9 mil pesos (R$ 1,7 mil). Ouve provocações por usar sempre a camiseta grená - algo como coletar lixo ao redor da Arena do Corinthians com camisa verde. 

Pai de uma menina de 4 anos que foi ao estádio vê-lo partir, Piedra é a cara do núcleo mais duro de uma torcida peculiar. Formada basicamente por vizinhos do clube, em um bairro que tem de casas miseráveis a residências de classe média alta, ela aproxima classes sociais. 

O apelido de Emanuel também poderia ser justificado pelo peso de seu sono. Das 44 horas em trânsito, Piedra dorme mais da metade. Quando acorda, na poltrona 9, em frente à do gremista clandestino, Piedra quebra o silêncio: "Falta muito, Luis?"

Luis Iglesias, de 43 anos, executivo de uma multinacional de seguros, ri da provocação e responde que ainda nem se chegou à fronteira.

Boa parte dos viajantes nunca saiu da Argentina. Luis conhece países latino-americanos, a Europa e poderia ter ido de avião a Porto Alegre, 1h20 de viagem, o que custaria 30 mil pesos (R$ 5,7 mil) com hospedagem. Não o fez porque queria levar ao estádio o irmão mais novo e mais pobre. Por terra, o gasto entre ambos não passa de 12 mil pesos (R$ 2,3 mil).

A viagem de Luis, como a de muitos granates, é uma espécie de homenagem aos pais que os levaram a seguir o Lanús e não viram a boa fase da equipe, que começou em 2007 com o primeiro título argentino. "Meu pai morreu em 2005 e não viu nada disso. Ele era tão fanático que gravava em fitas K7 os jogos do Lanús para escutá-los várias vezes depois, enquanto pintava a casa", conta. A bela residência remodelada em que Luis vive, a 5 quadras do estádio, chegou a ser pensão dos atletas do clube nos anos 50.

A amizade entre o executivo e o lixeiro é um dos traços de integração do qual se orgulha o “clube de bairro”. Luis ri quando Piedra conta vantagem mostrando-lhe fotos da mulher e de outras meninas com as quais convive. O executivo questiona por que o catador trabalha só três horas por dia. "O que ganho é suficiente, para que vou trabalhar mais?", responde Piedra, que não esconde a infância turbulenta.

Aos 13 anos, foi detido por roubo de veículo. Flagrado trabalhando em um desmanche, pegou dois anos em um instituto para menores. "Saí melhor de lá. Até então vivia a maior parte do tempo na rua, vendendo santinhas por 1 peso (R$ 0,20)", afirma. Ao ser solto, Piedra, que tem nove irmãos, passou a frequentar uma igreja crista carismática e a fazer trabalho voluntário à tarde. "Isso não quer dizer que eu seja santo", esclarece.

Com amigos do time de futebol de várzea 807, do qual é o camisa 10, o canhoto assumiu o comando de um "comedor", refeitório popular tradicional em bairros pobres argentinos. No mês passado, sua turma enfrentou rivais que tentavam retomar o controle do lugar, abastecido por doações de um dos bancos mais tradicionais do país, o Provincia. Na briga, Piedra levou uma pedrada na nuca. É a última cicatriz de uma série de marcas ressaltadas pelo corte de cabelo rente nas laterais e na nuca. 

Talvez essas agruras expliquem o fato de Piedra ignorar as tentativas de rebelião dos passageiros na viagem. A primeira revolta ocorre por não haver serviço de bordo ou paradas para comer nas primeiras nove horas até a fronteira. "Minha mãe sempre disse que tinha me faltado passar fome. Chegou a hora", protesta um passageiro. "Estamos pior do que no submarino. Temos oxigênio mas não temos água", reclama outro, referindo-se à embarcação desaparecida com 44 tripulantes.

O segundo motim tem relação com a programação de filmes. "La Guerra de las Galaxias VII (Guerra nas Estrelas)" até agrada, mas quando o filme recomeça, por volta das 22h, ninguém está disposto a ver a morte do herói Han Solo pela segunda vez. "Coloquem Rambo I e II, por amor de Deus", brinca um. "O motorista só pode ser do Banfield ou do River, que tortura", reclama outro.

A terceira revolta ocorre por causa do ar condicionado. O motorista reduz a temperatura a 11ºC cada vez que um dos passageiros desrespeita a ordem para não fumar. Neste caso, o transgressor contumaz é Luis, não Piedra. "Com o frio que está aqui, nem a polícia vai se animar a subir", grita o mesmo torcedor que acertou a duração na viagem. Desta vez, ele erra.

Dois policiais argentinos param o veículo na chegada a Uruguaiana. Pedem a todos que joguem fora as bebidas alcoólicas, para não haver problema com os agentes brasileiros. Garrafas de vinho, fernet (bebida italiana adotada pelos argentinos) e latas de cerveja são descartadas no acostamento. Leonel Bertani, de 31 anos, não se conforma com o desperdício. Cata do chão o que pode para "reciclagem". 

Bertani e os granates em geral sabem pouco do Brasil e do rival. Em rodinhas de bate-papo, referem-se à Arena do Grêmio como o estádio em que o Brasil "engoliu 7", lembrando da goleada para a Alemanha no Mineirão. A referência ao Mundial de 2014 é frequente, mas não há ofensas ou menosprezo ao futebol brasileiro. Admitem a boa fase da Seleção. “Fizeram a renovação que deveríamos ter feito há dois anos”, diz um dos granates.

Os torcedores do Lanús então rodeiam o gremista. Questionam por onde andam Adriano e Djalminha. Querem saber qual time brasileiro tem mais torcida e se surpreendem com a informação de que há quase tantos flamenguistas quanto argentinos (44 milhões). E pedem explicação sobre o que são e para que servem os campeonatos estaduais no Brasil.

Na única parada para comer, na tarde de quarta-feira, em São Gabriel, a 320 quilômetros da fronteira, a maioria experimenta pela primeira vez feijão com arroz. "Nao é lá uma maravilha, mas está bom", diz Leonel, contente com o preço do prato feito, R$ 14.

O ambiente no ônibus é familiar, não careta. Antonella Flores Muller, de 25 anos, fuma um cigarro dos mais fortes enquanto entorna um latão de cerveja comprado a R$ 6. Ela divide álcool e tabaco com Daniel Flores Muller, funcionário da defesa civil em Lanús. Pai e filha vão a todos os jogos. Ele acredita que só está há 41 anos no mesmo emprego por causa do horário flexível. Trabalha sábados, domingos e feriados, da meia-noite ao meio-dia, o que lhe permite ir a todos os jogos.

Quando o ônibus se aproxima de Porto Alegre, a preocupação com a precária condição da BR-290 é reforçada pelo trânsito pesado de caminhões , carregados principalmente com madeira. Em uma tentativa de ultrapassagem, dois deles, em sentidos opostos, reduzem a velocidade até pararem na pista frente a frente, com para-choques quase colados. 

Já na entrada da cidade, enquanto alguns já borrifam desodorante por cima da roupa para deixar o veículo, ganha força o rumor de que a polícia usa bafômetro para impedir a entrada dos bêbados no estádio.

O gremista pondera se deve avisar que isso é mentira. Opta por esclarecer que se trata de “fake news”, uma forma de retribuir o bom tratamento recebido na viagem - provavelmente por não ter revelado seu time.

Os granates têm pouca simpatia por jornalistas. A imprensa argentina dá cobertura mínima ao Lanús, se comparada a jogos de Boca Juniors, River, Independiente, Racing e San Lorenzo, os “cinco grandes”. A canção mais lembrada pela torcida justamente exige silêncio aos jornalistas, em resposta aos triunfos sobre San Lorenzo e River.

Esse é grito de guerra quando a polícia começa a escoltar os primeiros ônibus até o estádio. Os últimos 50 metros são tensos. Os veículos são alvo de latas de cerveja, gelo e pedras. O ataque dos gremistas é maior risco corrido pelo gremista clandestino.

Alguns vidros são quebrados e uma torcedora se fere no ônibus. "É um absurdo nos fazerem entrar por esse lugar", protesta Omar Dagna, referindo-se à favela próxima do estádio. O granate de 54 anos, que se define como um “quase padre”, desafiou a contrariedade da mulher para ir a Porto Alegre. Nos bolsos, ele leva dois terços e livros de orações, não atendidas nesta noite.

O Grêmio vence por 1 a 0. Os granates saem abatidos, com a sensação de que um empate teria sido o resultado mais justo. Eles reclamam das três horas de espera até a abertura das portas do estádio para iniciar o regresso. Reclamam que os mais de 50 mil torcedores locais deveriam ter saído depois deles, prática comum na Argentina. Reclamam do amarelo dado pelo juiz a Braghieri, que tirou o zagueiro do jogo final. Reclamam até do cachorro-quente. "Quem teve a ideia de colocar mostarda na salsicha?", questiona Dagna.

Acompanhado do filho de 17 anos, ele pagou a viagem em 12 vezes. Caso o Grêmio levante a taça, ele não vê problema com a frustração renovada em cada parcela. "Essa é uma grande experiência para mim e para meu filho. Mas nós já revertemos outros resultados adversos, contra adversários mais fortes. Vamos fazer de novo", diz, repetindo um argumento comum no grupo, o de que o Grêmio é inferior a River e San Lorenzo.

A viagem de regresso é mais rápida. Sem interrupção para refeições e com passagem rápida pela imigração, dura só 20 horas. O motorista do ônibus diz evitar paradas porque furtos dos passageiros a lojas de conveniência são habituais nessas viagens. Pressionado, ele para 15 minutos num posto argentino, a cinco horas de Buenos Aires. E alguns passageiros furtam bolachas e sucos.

“Falta muito, Luis?”, volta a questionar Piedra, comendo bolachas. O lixeiro conta ter deixado seu companheiro de jornada diária “correndo o dobro” para ele poder sair pela primeira vez da Argentina, pisar num estádio e voltar. Piedra resistiu à pressão familiar para torcer pelo Boca. Escolheu o Lanús, o time que se apresenta como o maior clube de bairro do mundo, mas se contentará em ser só o melhor time da América.

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